Curitiba A indicação foi polêmica e recebida com pedido de demissão coletiva por parte da equipe de jornalismo da Paraná Educativa. Foi nesse cenário que o jornalista Marcos Antônio Batista, de 51 anos, assumiu há menos de um mês a direção geral da Rádio e Televisão Educativa do Paraná, a Paraná Educativa. Ex-diretor da TV Paranaense, Batista saiu da afiliada da Rede Globo no Estado há pouco mais de três anos, durante um processo de intervenção autorizado pela Central Globo do Rio de Janeiro, que investigava questões ligadas ao escândalo envolvendo o ex-prefeito de Londrina Antonio Belinati (PSL) e a possível triagem de matérias sobre o assunto.
Sobre a indicação do próprio governador Roberto Requião (PMDB) para assumir o atual cargo, Batista considera a oportunidade como uma ''redenção profissional''. Prefere não comentar o que motivou sua saída da Rede Globo no Estado e diz que o caso foi cercado de especulações. Não esconde, porém, a decepção ao tratamento do tema e diz que, na época, não teve amparo da emissora. ''Eu e outros jornalistas precisávamos de proteção porque estávamos sendo ameaçados e isso não ocorreu'', diz.
Agora, Batista transfere os holofotes para a Paraná Educativa. Pela primeira vez trabalhando numa televisão pública, ele pretende solucionar as dificuldades administrativas que a emissora atravessa. Já vislumbra complementar o orçamento da rede, hoje girando em cerca de R$ 600 mil mensais, com o aluguel dos auditórios do Canal da Música, onde a televisão está instalada.
Medidas ambiciosas também estão na meta do novo diretor. Ele quer montar uma sucursal em Brasília, mas já garante que não é para cobrir apenas as visitas de Requião ao Planalto, mas sim ampliar a cobertura do jornalismo na tevê. Um festival de música nos acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) também deve ser promovido e transmitido pela rádio e televisão. As mudanças devem ser concretizadas em abril. Outras alterações significativas também estão previstas. A seguir, os principais trechos da entrevista que Marcos Antônio Batista concedeu com exclusividade à Folha2.
A sua experiência na tevê vem de uma rede privada. Ao assumir a direção de uma rede pública de televisão, como o senhor encara as diferenças entre as duas empresas?
A grande diferença que existe entre uma empresa pública e privada é a questão administrativa, a forma como você encaminha e participa de um processo. Por exemplo, logo que assumi nós estávamos discutindo a questão da transmissão ao vivo de um jogo de futebol. Fizemos o levantamento oficial do custo, mas então eu fiquei sabendo que precisava de uma licitação que levaria quinze dias para colocar isso em prática. O jogo era no dia seguinte.
Quais as principais dificuldades que o senhor encontrou?
A questão da locomoção do pessoal e a questão dos cachês. Como você vai exigir responsabilidade das pessoas se há uma insegurança tão grande na questão funcional? Nós estamos resolvendo isso e verificando a possibilidade de trabalhar com um regime especial. Esse problema vem desde o começo desse governo. Pelas informações que recebi só na estrutura da tevê existiam 116 pessoas recebendo cachês para 1h40 de produção. Hoje nós temos 160 pessoas para seis horas de produção local. Uma comissão está analisando a situação da equipe que trabalha na rádio e na televisão para definir como será o contrato de trabalho daqui para frente.
Como o senhor lidou com o pedido de demissão coletiva da equipe de jornalismo logo que o senhor assumiu?
Um jornal de Curitiba publicou que eu assumiria a tevê e faria demissões e incluiria o nome das pessoas que chefiavam o jornalismo na televisão e na rádio entre os demitidos. Isso acirrou os ânimos, mas eu não tinha em momento algum abordado esse tipo de questão com ninguém. Nem tinha pensado na possibilidade de trazer gente de fora porque assumi a coordenação de comunicação na Secretaria de Educação na segunda de manhã e à tarde fui convidado para assumir a tevê. Pedi um prazo grande para que eu pudesse tomar conhecimento das coisas. Naquele momento a Berenice (Mendes, ex-diretora da Paraná Educativa) estava viajando e eu achava necessário conversar com ela antes de qualquer coisa. Mas no governo é muito difícil manter segredo e o governador não me deu nenhum dia de prazo. O máximo que consegui foi aguardar a volta da Berenice. Talvez eu devesse ter me preocupado com o teor da matéria que foi publicada, mas eu já estava conversando informalmente com a equipe e garantido que não haveria demissões. Sobre os que saíram eu recebi a informação de que eles não queriam trabalhar comigo e que eles estavam deixando seus cargos à disposição como acontece normalmente numa área pública, quando alguém assume uma responsabilidade maior. Mas a idéia não era demitir ninguém. Queremos, inclusive, ampliar as contratações.
Mas nesse processo, a tevê ainda está sem diretor de Jornalismo. Quando o senhor pretende ter uma equipe formada?
Eu estou trabalhando para o início da operação dos novos equipamentos. É uma compra grande, tecnologicamente avançada, no valor de R$ 5 milhões (a compra já havia sido acertada na direção anterior) e o material deve chegar em abril para a televisão e rádio. Até a nossa rádio AM estará digitalizada com a aquisição desses novos equipamentos. Nós vamos trabalhar com a possibilidade de usar esses material sem a necessidade de novas compras pelos próximos 15 anos. Quando os equipamentos estiverem em funcionamento, a equipe deve estar formada e a programação da tevê e da rádio definida.
Nunca houve uma presença tão maciça de um governador na programação da rádio e televisão do Estado. Isso é um determinação do próprio governador?
Eu cheguei e já encontrei o andamento das coisas dentro desse critério. Eu creio que o governador tem usado esse artifício para prestar contas de sua gestão e conduzir algumas políticas de governo de uma forma constante. Até porque apenas nesse ano é que se vai pensar numa política de comunicação do governo, em função de tudo o que aconteceu no ano passado com relação às agências de publicidade, que somente agora é que vão começar a trabalhar. Mas a presença do governador na programação por um lado pode ser excessiva, por outro pode ser interessante porque alguns assuntos são de interesse da população.
E como divulgar esses assuntos ''oficiais'' sem tornar a programação maçante?
Estamos conversando sobre isso. O governador quer que algumas atitudes sejam divulgadas no nosso espaço de jornalismo nas entrevistas com os secretários. Com relação à divulgação das apostilas e às campanhas que estão sendo divulgadas eu acredito que no momento que se tiver uma política de comunicação feita com as novas agências, elas naturalmente vão entrar em um outro processo de produção.

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