Todo o dia, ela pinta e borda sua poética puxando o fio da memória afetiva. Sensibilidade alinhavada. Às vezes, as asperezas do cotidiano a tiram um pouco fora do esquadro. Mas ela insiste. Deita os olhos num ponto qualquer e vasculha reminiscências - viagem quieta para dentro de si mesma. Há muitas mulheres dentro dessa jovem senhora de 49 anos que agora, madura em firmezas e sedimentada em palavras confiáveis, está colocando à disposição dos interessados seus códigos pessoais em forma de poesia. Deu-lhe o nome de ''Sensível Desafio''. Torna-se, a partir de sexta-feira, o primeiro livro de poesias da também jornalista Célia Musilli. O lançamento acontece às 19 horas, na Biblioteca Pública de Londrina, dentro da programação do Londrix 2006, festival literário que prossegue até domingo.
O livro, sob chancela da editora Atritoart, reúne cerca de 80 poesias divididas em dois blocos: Poemas Sensuais e Poemas Transversais. O terceiro tópico são as Cartas Sem Endereço. Em todas as linhas, verticais e horizontais, Célia Musilli imprimiu feminilidade, sedução. Erotismo, que ao ver e sentir da poeta é corpo e espírito. ''A mulher tem que ser mais corajosa e expor seu erotismo sem vulgarizar, sem baratear. Colocá-lo num patamar muito alto, num patamar de deusa. Sexo é também um estado de espírito'', analisa.
Poética confessional! São palavras assentadas desde há muito e outras, grande parte, da safra mais recente impulsionada pelo blog (www.sensivelldesafio.zip.net) mantido há três anos. Como autora, já foi publicada em revistas de expressão como ''Poesia Sempre'', da Biblioteca Nacional, ''Coyote'' e também na Folha de Londrina - suas palavras ganharam voz através das performances cênico-musicais do grupo Benditos Energúmenos. Com a também jornalista Maria Angélica Abramo, lançou em 2004 o livro ''Londrina Puxa o Fio da Memória''.
Já ''Sensível Desafio'' torna-se público de forma espontânea - o desejo de ter uma publicação ganhou impulso com o incentivo de pessoas que se identificaram aqui e ali com os escritos da poeta. E não só mulheres. Os homens, revela Célia, muitas vezes são os que mais deixam comentários em seu diário virtual.
Intensa! Ela é intensa nas emoções, faz questão de frisar. Nem precisava. Suas poesias e prosa a refletem. Sensoriais. Instintivas. Práticas, cotidianas, úteis. Coisas de mulher com gosto de fruta mordida entre os dentes. Mucosas em deleite. Pensamento atávico. ''Estou com 49 anos, sou uma mulher madura, não sou uma menininha. E essa mulher tem várias vozes'', diz.
Célia é assim mesmo: essencial e sensível. Como sua poesia. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
Por que 'Sensível Desafio' ?
A sensibilidade é um desafio constante para mim. Desde pequena eu tenho essa coisa do sentir demais. Tudo, desde o amor até raiva. Eu sou uma pessoa muito intensa nas emoções! É uma característica minha, desde a infância, não é algo de agora. E o desafio é passear, viajar também por essa sensibilidade e transformar isso em alguma coisa criativa - em poesia, por exemplo.
Célia Musilli, jornalista e poeta. É uma definição confortável?
É. Eu acho que o jornalismo me consumiu durante muito tempo. O jornalismo é algo exigente que quase não te deixa fôlego para outras coisas. E quando as portas da poesia foram reabertas - lá na adolescência eu já escrevia-, quando reencontrei o lado poético, nem imaginava a proporção que isso ia tomar.

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