ENTREVISTA - Personagem exigiu muito preparo
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de novembro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Você interpreta Thiago, um personagem cego. Como foi a preparação para o papel?
Fiquei quase um mês ensaiando com vendas nos olhos. E antes de contracenar com os outros atores, ficava duas horas treinando sozinho. Tive que fazer atividades corporais para aprender a pegar roupas no armário, pegar um sanduíche na mesa, enfim, pegar coisas e voltar para a cadeira. Foi complicado, porque a gente tem que medir os passos e os ângulos para se deslocar. Quando se tem deficiência visual, toda a atividade corporal muda. A postura se modifica e os outros sentidos ficam aguçados. Na peça, o personagem abaixa a cabeça para sentir os cheiros e percebe a chegada de sua mãe através do perfume dela. Só tirei as vendas nas últimas semanas de ensaio.
A peça fala de busca de liberdade de um casal de jovens. Ela é dirigida para jovens de 20 e poucos anos?
De jeito nenhum. No momento em que a mãe entra em cena, estabelecendo uma relação de mãe e filho, a peça pega todo mundo pela emoção. Não é um espetáculo dirigido para uma determinada faixa etária. Estamos viajando o ano todo pelo País. Percebo que todas as pessoas ficam encantadas. Em algumas cidades, pediram para retornar com o espetáculo. Lembro que, uma vez, uma senhora ficou chorando e gritando emocionada na platéia. O público fica completamento envolvido durante o espetáculo, que começa como uma comédia e vai ganhando um tom mais sério com a transformação dos personagens. É uma grande catarse, que vai das gargalhadas do primeiro ato para o choro no segundo ato. A peça é um exemplo de dramaturgia de grande arquitetura, de grande carpintaria.
Há alguma passagem em que seu personagem ''toca'' com mais intensidade o público, particularmente o público jovem? É possível perceber esse momento?
Acho que a platéia fica maravilhada com o momento vivido pelo personagem, porque é um momento fantástico, em que ele sente o gosto da liberdade de pela primeira vez estar morando sozinho e ainda conhecer uma vizinha deliciosa. O apaixonamento dois dois, aliás, emociona todo mundo. São duas pessoas com vivências bem diferentes, ele superprotegido pela mãe e a menina cheia de vida buscando a liberdade. A platéia se encanta também com ele pelo fato de sua deficiência visual não transformá-lo numa pessoa trágica. Pelo contrário, o personagem não tá nem aí, ele não se leva a sério, ri de si mesmo.
Paralelamente ao teatro, você está fazendo o filme ''Batismo de Sangue'', adaptação do Helvécio Ratton para o livro de Frei Beto. Como tem sido a experiência de fazer o papel de Frei Tito, que foi preso e torturado pela ditadura militar?
Tenho aprendido muito sobre a generosidade dos frades dominicanos que sonharam com um Brasil mais justo socialmente. Eles faziam parte de uma igreja que unia a espiritualidade com a busca por um mundo igualitário, que era a Teologia da Libertação. É uma decepção ver que todos aqueles sonhos foram massacrados, que toda aquela luta e aqueles sonhos não deram em nada.
Já terminaram as filmagens?
O filme está 90% rodado. Na próxima semana viajaremos para Paris para filmar os últimos dias de vida de Frei Tito. Londrina é a última cidade da turnê da peça neste ano.
Você está atuando em outras produções?
Estou fazendo um personagem menor no filme ''Goleiro'', do Cao Hamburger. A história se passa em 1970 e fala de um menino que espera o pai para assistir aos jogos da Copa do Mundo, só que seu pai foi assassinado pela ditadura militar.
E há algum convite para atuar em novela?
Vim para o Rio esta semana justamente para definir isso. Provavelmente, eu e a Thaís Araújo estaremos na novela das 7, que vai suceder a Bang Bang.
Serviço:
- ''Liberdade para as Borboletas''. Hoje: 21 horas. Amanhã: 19 horas. Local: Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 241). Ingressos: R$ 40,00 (inteira), R$ 30,00 (com bônus da Folha de Londrina e Sercomtel Celular) e R$ 20,00 (estudantes e aposentados). Ponto de venda: Royal Plaza Shopping
(Rua Mato Grosso, 310 - Telefone: 43/3345-1414).


