Sua madrinha morou em Londrina no início da década de 30 e ela sempre teve curiosidade de conhecer a cidade do ‘‘barro vermelho’’, como ela sempre lhe escrevia contando. O nome ‘‘Nita’’ também foi obra da madrinha: Como podia uma menina tão pequenina chamar-se Ana Maria? – ela teria dito pouco antes de cunhar o apelido que até hoje acompanha a afilhada. Hoje, mais conhecida como Nita Freire, a educadora veio recentemente a Londrina para divulgar o legado de Paulo Freire – considerado até hoje o maior educador que esse país já teve. Nita foi sua segunda esposa. Antes dela, Paulo Freire foi casado com Elza, mãe dos seus cinco filhos. Nita também foi casada e teve quatro filhos. Depois de ficarem viúvos, foi a vez de Nita e Freire se encontrarem para viver uma ‘‘história de natureza de amor’’. como ele definia.
Depois do casamento, em 1988, Nita passou a se dedicar exclusivamente a acompanhar os compromissos profissionais do marido, que percorreu o mundo divulgando a sua ‘‘pedagogia do encantamento’’ e defendendo o fim da opressão nas relações educacionais e humanas. O seu livro mais famoso –‘‘A Pedagogia do Oprimido’’ – teve a sua primeira publicação em inglês, enquanto Paulo Freire estava exilado no Chile. Ele ficou 16 anos proibido de pisar em território nacional. No começo de 1964, foi convidado pelo presidente João Goulart para coordenar o Programa Nacional de Alfabetização. Logo após o golpe militar, seu método de ensino foi considerado uma ameaça à ordem.
Hoje, oito anos depois da morte do marido e com 71 anos, Dona Nita continua trabalhando com educação e vai lançar em breve o livro ‘‘Paulo Freire: uma história de vida’’, com apoio da Fundação Banco Brasil, pelo Projeto Memória 2005, lançado no dia 19 de setembro, durante o V Colóquio Internacional Paulo Freire, em Recife. A vida e a obra do educador serão tema de exposição itinerante que circulará por cerca de 800 municípios brasileiros. Uma iniciativa da Fundação Banco do Brasil, em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Fome Zero, e com o Instituto Paulo Freire, esse projeto também vai homenagear a figura do educador com uma série de produtos (um livro fotobiográfico, um kit pedagógico, um videodocumentário e um site na Internet) e celebrar sua importância para a história do Brasil.
Confira agora alguns dos melhores trechos de entrevista que Nita Freire concedeu à Folha de Londrina.

Mudou muito o trabalho da Pedagogia do Oprimido, desenvolvido por Paulo Freire, se a compararmos com a educação atual?
As questões mudaram muito, mas são absolutamente atuais, contraditoriamente. Paulo foi um homem que se fez educador e veio de uma origem de pobreza. Aos 13 anos começou a perceber o que diferenciava as classes sociais no Brasil. Ele dizia: não existe diferença ontológica, enquanto essência, entre um ser e outro, o que diferencia é o poder de aquisição de bens materiais ou não. E isso não é determinando por quem tem pouco. É determinado por quem tem muito. Então, essa é a questão do opressor. Ele se volta a compreender mais essa relação entre o opressor e o oprimido, por isso a pedagodia de Paulo é a do oprimido.

A senhora considera essa discussão ainda atual?
Sim. A diferença é que naquele tempo você não poderia imaginar que um dia um operário torneiro mecânico iria chegar a ser presidente da República. O Brasil evoluiu muito, não é? A classe dominante foi obrigada a ir reconhecendo que todas as pessoas das classes populares tinham o direito a um espaço na sociedade. Agora, ainda hoje existe uma prática opressora muito grande. A questão da opressão de classe marcou a compreensão de Paulo Freire, mas depois ela se alargou para a compreensão das ações contra a mulher, os homosexuais, as religiões, os povos que não fazem parte do mundo civilizado, entre aspas, que é o mundo ocidental cristão.

Nós ainda continuamos num país contraditório. Nós temos coisas absolutamente colonialistas, estadistas, escravagistas, e temos um homem que saiu como retirante do Nordeste e se construiu presidente da República.
Paulo Freire sempre colocou a importância do educando se conscientizar da própria realidade para chegar ao conhecimento. Dentro disso, a senhora acha que os atuais programas de alfabetização de adultos do governo federal estão coerentes com essa premissa?
Lula chegou à presidência da República – e ele sabe – fundamentalmente pelo trabalho de Paulo Freire. Paulo não saiu para fazer campanha de Lula, inclusive porque ele já estava morto, mas houve uma luta de 50 anos para que as classes populares tivessem voz e participação.

Então você pergunta se o que existe aí é paulofreiriano? Não é. Paulo dizia que o PT, o Partido dos Trabalhadores, dos oprimidos do Brasil, tinha que tomar e reinventar o poder, o que não ocorreu...Então, a partir disso, você não pode aplicar uma educação freiriana, é incompatível. Não há a menor possibilidade de você ter um modelo político econômico e a corrupção com o nível que tem e tentar uma educação na linha do que Paulo Freire propunha.
Cada vez mais parece ser comum a falta de motivação nas escolas, principalmente nas escolas públicas, tanto por parte dos professores quanto dos alunos. A que a senhora atribui esse panorama?
A escola é o reflexo da sociedade. Então, quando a sociedade não está envolvida na sua totalidade na construção de coisas melhores, fica difícil o trabalho do professor. Por outro lado, o professor no Brasil vem sendo gradativamente mais malformado, porque você tem que ter não só a capacidade de ensinar, conhecer o conteúdo, mas saber a didática de como ensinar o conteúdo. Tudo isso não é neutro. Hoje em dia existe uma formação neutra, tecnicista. E esse tipo de educação técnica ela não motiva, é fria.
Hoje há nas escolas do Brasil uma crise moral que passa pelos pais também. Isto é, o que Paulo chamava de ‘‘licenciosidade’’, é o que vem imperando. Os pais não marcam o limite do ‘não’, e aí você não aprende o que é o sim. Paulo já trabalhava isso desde os anos 50. Ele dizia: ‘‘não existe educação se não houver os limites’’. Isso é o que dá a ética de vida, não a ética de mercado, que campeia no mundo hoje, dentro de uma política neoliberal.
  Por outro lado, não é você que vai perguntar para o aluno tudo o que ele quer aprender. O professor deve ser aquele que sabe o que ensina. Agora para saber mais vai ter que caminhar com os alunos. Aí cria interesse e motivação. Uma escola alienada, que não tem resposta à sua cotidianiedade, leva à desmotivação.

O que significa ‘‘utopia’’ no trabalho de Paulo Freire?
Utopia em Paulo não significa aquilo impossível de ser feito, é preciso dizer isso. Utópico é um sonho possível, o que nos direciona a buscar a concretização. Então, a utopia de Paulo era construir uma sociedade democrática onde existisse um mundo mais bonito, menos injusto, menos desigualitário. Essa é a grande utopia. Não no sentido de ser um sonhador maluco, isso não. Mas a sua proposta é utópica nesse sentido mais bonito e autêntico. É aquilo que nós não temos, mas a gente terá amanhã se construir hoje.

E o que seria a Pedagogia do Encantamento?
Encantar não é ludibriar. É fazer a pessoa se sentir feliz, bem, participativa, responsável. Ser generosa com o outro, tolerante com as diferenças, as dificuldades do outro, é isso que faz essa pedagogia do Paulo que procura a igualdade, a ética da vida, porque a ética tradicional é a ética do discurso - fala uma coisa, mas pratica outra - tão divulgada pelas escolas, pelas igrejas, etc. Depois vem a ética do mercado, em que vale tudo: eu te passo a perna porque preciso ficar rico. As grandes multinacionais, os bancos são os que defendem isso, enquanto o resto da população passa fome. Paulo defende a ética da vida, a ética do amor. Isso é a pedagogia do encantamento.

E ela pode ser aplicada em todas as relações?
Sim, porque tudo se relaciona. Paulo trabalhou muito a questão de condições e relações. As condições dadas, se elas não favorecem a cada ser humano, a todos, elas têm que ser mudadas.

O Paulo Freire tinha uma visão otimista da introdução da tecnologia na educação, ainda mais considerando o nível de exclusão digital que presenciamos no país?
Foi ele quem introduziu o computador na escola pública no Brasil. Quando trabalhou a questão do método de alfabetizar no fim dos anos 50, e depois na campanha nacional de alfabetização que mal começou e o golpe encerrou, ele privilegiava a tecnologia, utilizando os slides. Foi ele quem criou a rádio universitária, na Universidade do Recife, que hoje é a Universidade Federal de Pernambuco. Ele sempre valorizou a tecnologia embora ele nem conseguisse escrever à máquina. Tudo que ele escreveu foi à mão.

Qual a sua avaliação das políticas públicas na área de educação?
É bom que as escolas saibam que podem guardar independência das políticas públicas até um certo ponto. Quando o professor fecha a porta, ele pode fazer o que ele quiser com os seus alunos, para o bem e para o mal. E geralmente quando o professor fecha a porta, ele quer fazer para o bem. Eu conheço experiências bem-sucedidas, mas quando eu penso em políticas públicas não são bem as que Paulo sonhou. Ele sempre dizia que a educação não determina a sociedade, mas sem a educação nós não chegaremos à sociedade que queremos, então temos uma diferença muito grande entre as escolas atuais e a escola utópica que Paulo sonhou, uma escola feliz, alegre, da igualdade, onde você constrói com o outro o conhecimento.

NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Ainda sobre verbos (mesóclise, há/a, concordância)
Maria Tereza de Queiroz Piacentini

Como se aplica a mesóclise no seguinte caso: ‘‘o trarei?’’ - Gabriela Gonçalves, Campinas/SP
A mesóclise de ‘‘o trarei’’ é trá-lo-ei. Mas para evitar essa forma rígida e talvez um tanto esdrúxula, basta você colocar o pronome ‘‘eu’’ na frente do verbo: ‘‘Eu o trarei de volta.’’ Ou seja, a mesóclise só é necessária quando o verbo inicia a frase, em texto formal: ‘‘Trá-lo-ei de volta amanhã, Vossa Excelência não precisa se preocupar.’’ No mais, é suficiente que haja um sujeito ou outra palavra iniciando a frase ou a oração para que se possa usar a próclise com os verbos no futuro. Essa próclise, aliás, torna-se obrigatória no caso de vir antes do verbo uma palavra atrativa do pronome átono, como o QUE e o NÃO. Exemplos:
Jamais o trarei, jamais o trairei.
Amanhã o trarei aqui.
Não sei onde o livro está, mas o trarei de lá custe o que custar.
Se estou jurando que o trarei de volta, podes contar com isso.
Não o trarei para vocês – o gatinho recém-nascido vai ficar comigo.
Fiquei com uma dúvida com relação ao verbo haver. Na frase: ‘‘Ele faz isso ‘há mais de um ano’, indicando que a ação começou no passado e não terminou até o presente, o uso do verbo haver está correto ou, em vez dele, deveríamos usar a preposição ‘a’? Isso mudaria caso a frase fosse: ‘Ele vem fazendo isso a mais de um ano?’’- Maísa Intelisano, São Paulo/SP
As frases ‘‘ele faz isso há mais de um ano’’ e ‘‘ele vem fazendo isso há mais de um ano’’ estão corretas. Para tirar a prova é só trocar o há por faz, verbo impessoal que também se usa para indicar um tempo já transcorrido ou que vem transcorrendo: ‘‘Ele vem trabalhando faz mais de um ano.’’ A preposição ‘‘a’’ não pode ser usada nesses casos, pois a empregamos especificamente quando o tempo é contado de hoje para o futuro: ‘‘Ele vai fazer isso daqui a um ano.’’
Está correta a construção ‘‘João, bem como Maria, foi almoçar’’, isto é, o verbo da frase concorda apenas com o primeiro agente. Na minha modesta opinião acredito que a construção está correta. - Leonardo de Camargo Martins, Londrina/PR
Sim, está correta a frase ‘‘João, bem como Maria, foi almoçar’’, com o verbo no singular, por causa das vírgulas, que tornam ‘‘bem como Maria’’ uma intercalação. Neste caso o sujeito de ‘‘foi almoçar’’ é João (sujeito simples). Sem as vírgulas, ou seja, sem a intercalação o verbo iria para o plural, pois nesse caso temos sujeito composto:
João bem como Maria foram almoçar. = João e Maria foram almoçar.
As locuções BEM COMO ou ASSIM COMO no lugar do E podem ser usadas de forma intercalada quando o intuito é dar ênfase ao sujeito simples. Outros exemplos:
Portanto a contestação, assim como a exceção, era tempestiva.
Portanto a contestação assim como a exceção eram tempestivas.
(Portanto a contestação e a exceção eram tempestivas.)
Dom João VI, bem como seus súditos, desembarcou no Rio de Janeiro.
Dom João VI bem como seus súditos desembarcaram no Rio de Janeiro.
(Dom João VI e seus súditos desembarcaram no Rio de Janeiro.)

Gostaria de elucidar uma dúvida: Qual frase está correta: ‘‘O prefeito João da Silva, acompanhado do vice, José da Silva, e do Secretário Manoel da Silva, esteve visitando as obras do parque São Luiz’’ ou ‘‘O prefeito João da Silva, acompanhado do vice, José da Silva, e do Secretário Manoel da Silva, estiveram visitando as obras do parque São Luiz? R.C.

A opção correta é a primeira. Questão de concordância verbal parecida com a anterior, porém diferente no sentido de que aqui não temos uma intercalação com ‘‘bem como’’. Neste caso o sujeito da oração é apenas o prefeito João da Silva: ‘‘O prefeito João da Silva, acompanhado do vice, José da Silva, e do Secretário Manoel da Silva, esteve visitando as obras do parque São Luiz.’’ A oração que está em itálico é adjetiva explicativa, com o pronome relativo e o verbo de ligação implícitos (que estava acompanhado).

Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ‘‘Só Vírgula’’, ‘‘Só Palavras Compostas’’ e ‘‘Língua Brasil: Crase, pronomes & curiosidades’’ - www.linguabrasil.com.br

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