ENTREVISTA - Palavras de Chico
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de janeiro de 2005
Agência Estado 
Após 40 anos de carreira, Chico Buarque continua a ficar impaciente antes de fazer show. Não consegue ficar parado. Um dos convidados do show anual organizado pela escola de samba Mangueira, semana passada, para angariar fundos para seu carnaval e seus projetos sociais, o compositor recebeu a reportagem nos bastidores do Tom Brasil Nações Unidas, zona sul da capital, e preferiu um bate-papo de pé, saboreando algumas frutas.
Chico falou sobre o documentário do qual é tema, da falta de tempo para gravar novo disco, fez avaliação do ministro da Cultura, Gilberto Gil e da atuação da classe musical. ''Não existe a menor organização.'' Já no palco, observado por outros participantes mangueirenses, como Milton Nascimento, Rosemary, Leci Brandão, arrancou aplausos acalorados da platéia, teve problemas no som e dançou embalado pelo ritmo cadenciado de escola. Entre o público, presença ilustre: a cantora Maria Rita, que aceitou convite oficial para sair no desfile deste ano. A seguir, a conversa com Chico.
Há oito anos, você participa dos dois shows beneficentes da Mangueira. Você conhece os projetos da Mangueira?
Todo ano, eu participo. Quando chega no final do ano, o pessoal me telefona, para me convidar. Conheço os projetos sociais deles, mas preciso voltar lá para me atualizar, agora deve ter mais coisas. Eu já era mangueirense, mas quando fui escolhido para ser tema de um desfile da escola, passei a ter uma relação mais próxima com eles. O que tem espalhado por aí é uma necessidade civil de colaborar onde o governo não chega e amenizar um pouquinho a situação principalmente das crianças, que, cada vez mais cedo, se envolvem com drogas, prostituição.
Como surgiu a idéia do documentário que está sendo exibido pela operadora DirecTV?
A idéia é do Roberto (de Oliveira, o diretor). Achei bacana que esse material possa ser visto. Muita coisa estava arquivada, muitos registros desde os anos 60, cenas com Tom Jobim, Caymmi, uma porção de gente. É uma maneira de ter isso presente em DVD. Os episódios não são apresentados em ordem cronológica, mas temáticas. Cada episódio tem uma cara, uma atualidade, eu falando hoje da minha obra.
Roberto de Oliveira comentou que quer fazer mais sete programas...
Bom, ele está com essa conversa, mas está tudo no ar: ''Ah, vamos fazer em Lisboa, ah, vamos fazer em Nova York.'' A princípio, tudo bem, mas não está nada muito definido. Mesmo porque tenho de ver como vai ser minha vida. No domingo (hoje), vou viajar para Paris, lançar meu livro, depois vou para Milão, Roma. Em abril, tem uma feira de escritores em Nova York. Mas tenho vontade de parar um pouquinho, para tocar violão, compor música.
Nos últimos tempos, você participa de discos de vários artistas, como Fernanda Porto, Babi, Fafá de Belém e dos mais diferentes gêneros musicais. Qual é seu critério para aceitar essas participações?
Eu atendo a convites, não só para gravar discos, mas também para fazer shows, como é o caso da Mangueira. São convites mais interessantes...
Mas houve algum convite que você tenha recusado?
Se tivesse, eu não falaria. Mas não, tenho participado bastante. Para mim, não custa nada. Gosto de estúdio, gosto de gravar. Não tenho muita restrição a este ou àquele estilo. Pode ser que alguma participação que tenham me solicitado não me deixava à vontade. Digo: não é minha praia, não vai ficar bom.
Chico, quando você vai lançar um novo CD e voltar a fazer shows?
Normalmente, eu armo o show quando tenho músicas novas. Eu poderia fazer um show com músicas antigas, mas não fico muito motivado. Gosto de cantar músicas novas. O público quer ouvir músicas velhas e eu quero cantar músicas novas. Então, quando eu faço show, canto metade do show para satisfação pessoal e a outra metade, para o público. E ficamos todos quites. Por isso, preciso parar, ficar mais tempo para o Brasil. Não dá para trabalhar com a cabeça num livro. Preciso de tempo para compor. Quando eu tiver material, gravo CD e faço show.
Quando vai ser isso?
Se eu puder lanço ainda este ano, mas ainda não sei.
Você tem acompanhado o trabalho do Gilberto Gil no Ministério da Cultura?
Não são todos os assuntos do Ministério que acompanho. Acompanho mais aqueles que estão em destaque, como a questão da Ancinav. Gil colocou em evidência o Ministério da Cultura. O trabalho do Ministério prima pela transparência: as coisas estão sendo discutidas, o projeto da Ancinav, com os defeitos todos que possa ter, foi bombardeado e ele está encarando tudo.
E na música, como você acha que Gil está atuando?
Ele está recebendo e discutindo com representantes de várias áreas da cultura. Mas acho que o pessoal de música, de todos, é o menos organizado. Acompanhei umas reuniões, meio a distância, mas algumas coisas estão parecendo meio confusas. Não sou a favor de botar as crianças para aprender música na escola, não acho uma questão muito importante. Não acho importante que elas saibam minhas músicas ou de pessoas da minha geração. Então, tenho impressão que o Gil tem mais dificuldade com pessoal de música, talvez ele não saiba exatamente com quem dialogar. O cinema está rachado, mas existe uma nitidez. Com a música é mais difícil, porque não existe a menor organização da classe.


