ENTREVISTA - Paixão e poder
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de março de 2006
Mariana Trigo<br> TV Press 
Letícia Sabatella é uma figura serena. Mesmo durante um agitado dia de gravações da minissérie ''JK'', da Globo, onde vive a recatada Marisa, amante de Juscelino Kubitschek, nada abala o tranquilo semblante da atriz. Concentrada antes de gravar cenas bem passionais com José Wilker, Letícia tira dessa aparente paz interior a inspiração para dosar as emoções da conflitante personagem. Afinal, mesmo sendo extremamente católica, a Miss Primavera de Uberaba se apaixona por um homem casado.
Apesar de ser uma personagem ficcional, Marisa representa todas as amantes que JK teve após seu casamento com Sarah, interpretada agora por Marília Pêra. Mas é especialmente inspirada em Maria Lúcia Pedroso, amante do ''Presidente Bossa-Nova'' por longos 18 anos. Justamente das animadas conversas com Maria Lúcia, Letícia pode organizar as emoções da personagem, inspirada também em uma vasta pesquisa sobre as amantes de homens poderosos de diversas épocas. ''Primeiro questionei o papel da amante, essa posição tão desconfortável para mulher, que reintegra o machismo'', critica.
Como é interpretar uma mulher que simboliza todas as amantes que Juscelino teve?
(risos) Não penso nesse slogan quando faço a Marisa. Ela é uma personagem completamente fictícia, mas realmente inspirada em todas as amantes do JK. Principalmente num grande amor que ele teve, que foi um relacionamento de 18 anos com a Maria Lúcia Pedroso. A Marisa é totalmente inventada. Quando eu faço a Marisa não penso ''Ah, eu sou todas'' (risos). Ela é uma mulher que se apaixona por um presidente e, por incrível que pareça, eles têm um relacionamento profundamente amoroso. A vida da Marisa não tem nada a ver especificamente com a história de outras mulheres que ele teve.
Onde você buscou referências para compor a personagem?
Primeiro eu li o livro ''Sexo com Reis'', de Eleanor Herman, que conta a história das esposas e amantes dos reis e fala sobre o nível de entrega que tinham. Histórias sobre mulheres me interessam sempre. Foi legal fazer essa análise, estudar a vida das amantes dos reis da Inglaterra e de Portugal. Elas tinham praticamente uma função social porque era uma coisa assumida e aceita. Vejo da Marquesa de Santos até chegar na Camila Parker Bowles, que enfim se casou com o Príncipe Charles. Questionei essa condição da amante com esse livro. Vi que a posição da amante é muito ingrata para a mulher porque reintegra o machismo. Não é um lugar confortável. Depois li o livro ''JK: O Artista do Impossível'', do Cláudio Bojunga, que conta um pouco a profundidade que era o relacionamento dele com a Maria Lúcia Pedroso.
Foi a partir do encontro com ela que você completou sua composição da Marisa?
Nós conversamos muito. Também conheci pessoas da família do Juscelino, que foram bem bacanas, junto com a Maria Adelaide, lá em Brasília. Em outra ocasião fui à casa da Maria Lúcia Pedroso e passamos uma tarde conversando. Fiquei fascinada! Ela é encantadora. A primeira hora da conversa foi sobre política atual. Ela gosta de política. Tivemos essa afinidade. Ela teve uma história de vida muito forte. Casou com 17 anos apaixonada pelo marido, bem mais velho. Depois se apaixonou pelo Juscelino. Ela dizia que é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo e que o marido pegaria a lua se ela pedisse, mas que o Juscelino era sua alma gêmea. Foi bom conhecer Juscelino através do olhar dela. Me mostrou o quanto foi importante esse envolvimento afetivo para que ele se sustentasse na época do exílio. Ela me mostrou de que forma preencher os sentimentos da Marisa.
Como a família do Juscelino e a Maria Estela, filha do JK, reagiu quando soube que você iria fazer a amante do JK?
A Maria Estela falou: ''Que bom que você vai fazer a minissérie! Qual vai ser sua personagem?''. Respondi: ''vou fazer a amante dele'' (risos). Ela disse: ''A amante do papai?''. Todos riram e ela falou: ''Papai realmente era muito sedutor. Se não fosse filha dele também teria me apaixonado!''.
Por mais suaves que sejam suas personagens, você imprime uma personalidade forte nelas. A que você atribui isso?
Coloco uma energia generosa nelas. Entrego algo a mais. Leio muito o texto e tento ir ao máximo do que aquelas palavras estão me dizendo. Com isso, acabo me aprofundando nos sentimentos da personagem. A minha alma é empregada naquilo. É uma meditação profunda no que vai ser dito, naquela emoção. Nunca pensei se minha personalidade é forte. Sou maleável, mas tenho uma intensidade, uma entrega no trabalho e corro muito atrás.


