A figura na tela contém muitas informações visuais. As mais perceptíveis: longos cabelos encaracolados, olhos delineados por lápis de maquiagem, brinco comprido na orelha direita, piercing no nariz, tatuagens no braço e antebraço, figurino exuberante, pés descalços... Os acordes iniciais da guitarra em punho sugerem um show de rock and roll seria uma guinada na carreira? ''Gente obrigado por vocês estarem aqui. Valeu mesmo. Vamos nos divertir assim ó...'', diz ele. E o ''ó''' vem num punhado de músicas que há duas décadas mexeram no jeito baiano de sentir e fazer carnaval. Consensualmente é atribuida a Luiz Caldas a paternidade da axé music, hoje transformada em gênero musical ''made in exportação''. ''Fiz modificações na música da Bahia'', admite. ''Pesquisei, misturei música africana e assim nasceu o que eu considero um movimento popular brasileiro'', complementa.
Quem quiser ver e/ou ouvir os primórdios da axé music tem agora o ''Ao Vivo em Salvador'', disco e DVD que o cantor e compositor baiano está colocando nas prateleiras depois de um bom tempo sem dar o ar da graça. O projeto é uma retrospectiva da carreira de Luiz César Pereira Caldas, 43 anos, dos quais 37 de carreira como músico e exatos 21 de fama quem não cantou ou assoviou ''nega do cabelo duro/ que não gosta de pentear/ quando passa na Baixa do Tubo/ o Negão começa a gritar/ pega ela aí, pega ela aí/ pra quê?/ passar batom/ de que cor?/ de violeta/ na boca e na buchecha.''
''Fricote'', a música, está incluída no registro audiovisual, feito em novembro do ano passado, ao lado de outros sucessos como ''Haja Amor'', ''Magia'', ''Odé e Adão'', ''Tieta'', só para citar alguns. Inéditas, quatro. A ação entre amigos vem através de Armandinho. Durval Lelys (vocalista do Asa de Águia), Gerônimo, Carlinhos Brown (que começou como percussionista numa banda de Luiz Caldas, a Acordes Verdes) Fagner (de óculos escuros e sem saber muito onde enfiar a mão quando canta sem violão) e Ivete Sangalo (hoje a poderosa do axé, outrora a iniciante incentivada por Luiz).
Para Luiz Caldas multiinstrumentista de prestígio no cenário baiano o ''Ao Vivo em Salvador'' foi planejado como volta mesmo e não como um mero capricho fonográfico. ''Eu só vejo esse projeto como um cartão de visita para o público jovem ter acesso à minha obra. Não estou parado no tempo'' diz ele, acrescentando ter 500 canções das quais uma parte deve gerar um disco autoral dentro de dois anos, no máximo.
A seguir os principais trechos da entrevista que Luiz Caldas concedeu, por telefone, em que fala sobre fama, sucesso, planos e, claro, sobre a sua mais nova empreitada, que sai pela Universal Music em parceria com a Penteventos e Caco de Telhas Produções, pertencente a Ivete Sangalo.

Pra começo de conversa: você se considera o pai da axé music?
É assim que me chamam e eu me considero também.

Esse disco e DVD ao vivo são sinais de que você está voltando a gravar ou tudo vai depender do desempenho das vendagens?
É pra voltar mesmo. Aliás, todo o projeto foi discutido justamente pra isso porque se fosse só gravar por gravar eu não faria questão. Meu problema não é financeiro, graças a Deus eu ganhei muita grana no auge e eu soube aplicar muito bem. Então, eu independo de música para viver, entendeu?

Que tipo de padrão de vida, por exemplo, você construiu?
Moro numa casa maravilhosa, tenhos apartamentos alugados, fazendas e outras coisas e tudo isso me deu e dá tranquilidade de poder tocar e cantar só o que eu gosto. Quando me fizeram o convite para fazer o CD e o DVD eu deixei bem claro: 'Olha eu não canto qualquer música, eu só canto o que gosto'. Tanto que as músicas inéditas no projeto são minhas. Eu não estou aqui pra ficar cantando músicas dos outros para tentar... Quer dizer, se eu gostar da música eu gravo, mas jamais gravaria uma música por causa daquele papo: ''Ah, isso vai estourar''. Eu tenho que gostar a música porque ela vai me acompanhar para o resto da vida.

Tudo bem que você grava o quer, mas sendo um artista popular tem que pensar que a música precisa tocar na rádio. Afinal, ninguém grava disco pra meia dúzia ouvir... Como equilibrar o lado pessoal com o comercial?
Eu vim dos bailes e nos bailes você sabe como agradar as pessoas. Mas para você agradar alguém tem que ser primeiramente honesto com você mesmo. Tem que primeiro se agradar senão fica cantando uma mentira e esse sucesso dura três, quatro meses e depois acaba.

''Tieta'' foi seu último hit nacional. Tocou em rádio, você foi a programas de televisão e de repente tudo emudeceu, o sucesso foi-se embora. Deu pra segurar o baque numa boa?
Sim. Como lhe disse, eu só faço o que gosto... Começaram muitas intervenções de gravadora e de vários setores e então eu disse: 'Olha, desse jeito eu não faço, prefiro ficar em casa''. E foi o que eu fiz, fiquei em casa. Eu nunca lutei pra fazer sucesso, lutei pra ser reconhecido como músico.

Ah, Luiz, por favor...
É verdade. Existe uma coisa que é super importante: a vida é um ciclo e ninguém mantém-se no topo o tempo todo. E isso está muito claro na minha cabeça. Por isso não pirei quando todo aquele sucesso acabou. Como sou arranjador também, continuei gravando pra colegas como Ivete Sangalo, Daniela Mercury e Margareth Menezes e o mais novos como o (grupo) Vixe Mainha. Queira ou não queira permaneci no meio. Então, pra mim essa coisa de o sucesso não me levar mais à televisão, por exemplo, sinceramente não me deixou chateado.

Luiz, você foi muito hostilizado por críticos ou por alguns setores da MPB quando estourou?
No início teve uma hostilidade por parte da mídia. Esse termo ''axé music'' foi atribuído a mim de forma pejorativa por um jornalista de Salvador chamado Hagamenon Brito, que é roqueiro. Ele achava que eu era o Michael Jackson tupiniquim. Colocou o nome de axé music sem saber que estava batizando um dos gêneros musicais mais ricos.

Sua música consegue competir em pé de igualdade com essa geração nova da axé?
Hoje em dia essa competição está fadada não à música e sim a quanto se gasta com rádio, televisão e jornal...

Marketing!
Justamente isso. Chamam de jabá, mas você está chamando isso de uma forma bem carinhosa que é marketing. A gente sabe que existe. Então se você injeta grana num produto simplesmente ele vai fazer sucesso. A gente vê hoje a invasão da (banda) Calypso e tantos trabalhos desse tipo e vê que há, digamos assim, um marketing bem forte por trás.

E quando você surgiu não teve marketing ou jabá também, Luiz?
Veja bem: no início não porque eu tinha algo novo, uma receita diferente do que Rio e São Paulo ouviam. Quem gostou de mim foi Chacrinha que disse: ''Quero Luiz em meu programa''. Eu sei que muita gente pagava a Leleco (filho e produtor de Chacrinha) para estar lá...Acho que a gente não precisou sofrer isso não e se sofreu não fui eu, foi a Polygram (gravadora, atual Universal Music) e eu nunca fiquei sabendo.

Esse novo CD e DVD faz uma retrospectiva de sua carreira. Além disso, o projeto se propõe a quê? O que traz ao público?
Veja bem: o disco e o DVD são cartões de visita aos jovens que não conhecem bem a minha música. O pessoal da minha faixa etária sabe quem é Luiz Caldas e conhece a obra. Essa garotada que vai ao meu show e fica cantarolando as músicas não tinha até então acesso ao meu trabalho. Então, eu só vejo esse projeto como um cartão de visita porque não estou parado no tempo.

Mudando um pouco de assunto, como se deu o projeto ''Melosofia'' em que você e o jornalista e letrista César Rasec fazem homenagem a filósofos?
A princípio pensamos em fazer algo envolvendo mitologia, mas optando pela filosofia que é algo mais real. Não somos estudiosos de filosofia, somos curiosos. Pesquisamos muito. Todas as letras são calcadas no pensamento de cada um dos filósofos. Por exemplo Karl Marx ganhou um rock, Sócrates ganhou um reggae, Platão parece até que é pra rimar ganhou um baião, tem chorinho para Marcuse. É um trabalho profundo...

Reflexivo, você diria?
Reflexivo mas sem ser um trabalho sisudo. É um trabalho oposto do que as pessoas conhecem sobre Luiz Caldas

Que espaço você acredita ter conquistado na MPB?
Sou o precursor de um movimento que alegra todo mundo. (...) A única função da axé music é divertir. O que eu conquistei, além do respeito enorme de músicos e amigos, é ser o precursor de um movimento que a cada momento cresce mais e o mundo todo abraça. Eu me sinto muito honrado porque a criança deu muitos frutos, frutos bons.

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