Ele e o japonês Shoei Imamura dividem as honras. Duas Palmas de Ouro cada um, recorde invejável diante da magnitude deste que, na concepção ''cinema arte e ensaio'', é o mais cobiçado entre os prêmios. Dele, os laureados são ''O Dia em que Papai Saiu em Viagem de Negócios'', de 1986, e ''Underground - Mentiras da Guerra'', de 1995, um de seus dois únicos filmes exibidos comercialmente em Londrina, no Ouro Verde o outro é ''Arizona Dream, Um Sonho Americano''. A barba, o charuto e o bom humor são companheiros inseparáveis deste simpático bósnio nascido há 49 anos em Sarajevo, ex-Iugoslávia. Com Emir Kusturica (pronuncia-se Kusturiça) o espectador está sempre entre comédia, drama e sátira social. O burlesco também está sempre próximo. Poesia e humor, de mãos dadas. Meio cigano, meio realista mágico, Kusturica levou para a seleção oficial de Cannes 2004 ''A Vida é um Milagre'', uma exuberante e louca espécie de ''Romeu e Julieta'' dos Bálcãs.
Uma história de amor impossível, ambientada na Bósnia em 1992, véspera da mais sangrenta guerra do final do século 20. A história do pacato, ingênuo e sonhador engenheiro sérvio Luka, enviado de Belgrado para construir uma linha férrea. Ele é casado com a depressiva e excêntrica cantora lírica Jadranka. O filho do casal, Milos, é louco por futebol assim como Kusturica em sua juventude. Começa a guerra civil, Jadranka foge com um músico húngaro, Milos é recrutado e logo feito prisioneiro no campo de batalha. Os militares sérvios confiam a Luka a guarda da bela refém muçulmana Sabaha. O resultado desta trama é um filme belo, enfático, romanesco, mágico, excessivo, uma galeria de imagens musicais que não encontra paralelo em qualquer estilo conhecido, a não ser o de...Kusturica. A música, aliás, tem peso enorme na dramaturgia do diretor. Ele mesmo é um dos compositores das trilhas de seus filmes, interpretadas pela ''No Smoking Orchestra'', que ele criou.
Pra começar: a vida é de fato um milagre?
Se você não acredita que a vida de fato é um milagre, então você está perdido. Você não é um homem, mas uma máquina qualquer. Quando a vida oferece milagres, ela se torna mais interessante e atraente. Neste filme, a vida é um milagre em diversos níveis. O mais importante é o do amor. O herói, Luka, é um sérvio da Bósnia. É um sonhador que jamais imaginou que a guerra fosse começar. Mas ela começa, seu filho é preso, seus amigos lhe entregam uma muçulmana para que ele a mantenha como refém, ela imagina trocá-la pelo filho. Mas o herói se apaixona pela moça, e esta situação pouco habitual vai render um drama bem shakespeariano.
Seu filme é de fato uma espécie de ''Romeu e Julieta''. Por que esta influência do dramaturgo inglês em seu cinema?
O que me fascina em Shakespeare é a força da história e do conflito. Os Bálkãs são, na essência, uma terra shakespeariana. A história jamais nos poupou. Transformações constantes afetaram tanto as famílias como o caráter dos homens. Um material desses nas mãos me transforma numa espécie de artista abençoado.
Por que, nove anos depois de ''Underground'', você de novo situa uma história de amor no cenário da guerra?
Talvez para pôr fim a um preconceito, aquele que diz que sérvios e muçulmanos se odeiam. Tem havido muitos casamentos mistos entre essas duas comunidades. Tentei me afastar da idéia das razões que motivaram o ódio, quem foi o agressor de quem. E uma história de amor assim tão incrível não poderia se desenrolar a não ser num contexto de guerra. E é uma história real, é uma que de fato aconteceu.
Como você descobriu esta história?
Foi um amigo quem contou.. Ele por sua vez a ouviu em Toulouse, de um refugiado que eu acabei por encontrar. De cara pensei que esta história poderia render um filme. Mas quando comecei a escrever o roteiro, criei todo um universo para melhor situá-lo.
Suas filmagens têm a reputação de serem longas. Quanto tempo duraram as de ''A Vida é um Milagre''?
Um ano e dois meses, o que não é um tempo assim tão grande quando você vê o filme na tela.. Rodamos ao longo das estações, de modo que a evolução dos personagens seguisse o curso da natureza. Acho que isto trouxe muita poesia ao filme. Para mim, o realizador não é só um coordenador, ele é sobretudo um criador que leva em conta tudo o que se passa no set, todas as sensibilidades que se exprimem. Isto não é fácil neste tempo dominado por um fascismo econômico onde o dinheiro prevalece sobre todo o resto.
Isto faz de você um tipo cada vez mais raro de cineasta. Quem é então Emir Kusturica?
Acho que um poeta, um rebelde, alguém que não pára de querer saber como o mundo funciona. E mais minha busca avança, mais me decepciono com a humanidade.
Mas ''A Vida é Um Milagre'' demonstra exatamente o contrário.
É que ainda sou bastante estúpido para continuar idealista. Precisamos sempre de utopia da visão de um mundo em parte criado pela ilusão. É por isso que sou contra o universodas corporações.
Como em seus filmes anteriores, os animais estão por toda parte, parece que têm coisas a dizer ou um papel a cumprir, ainda que metafórico. Em ''A Vida é um Milagre'' temos patos, galinhas, um gato, um cachorro, um jumento, ursos, um rato, sempre presentes em cena. Você já disse que eles são como sua família, que você adora...
Alguém me perguntou a mesma coisa durante a coletiva depois do filme, não foi você? (NR: confirmo que sim, ele continua). Não abro mão dos animais nos meus filmes, eles são mesmo um prolongamento de minha vida familiar, que é a coisa mais importante para mim. E no caso do jumento, eu amo particularmente porque ele é o anjo da guarda em ''A Vida é um Milagre''. Ele salva a vida de Luka.
E a música: por que ela inunda seus filmes, também funcionando como um personagem à parte?
As imagens do cinema são mais próximas de notas musicais do que das palavras. Uma imagem pode revelar imediatamente milhões de detalhes exatamente como o sopro da música. No caso deste filme, eu a uso como símbolo. Ela aqui é composta por canções de casamentos judeus, de cantos ciganos, de temas étnicos misturados ao som eslavo e nostálgico dos acordeons. Há ainda a incrível agressividade dos trompetes. Ruptura de tons. Mistura. Confusão. Caos. Energia. Doçura. Reflexo da vida nos Bálkãs.

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