Curitiba - Tão pop quanto um músico ou ator de cinema, o professor de português Pasquale Cipro Neto já se acostumou ao assédio de fãs. Em vez de autógrafos, no entanto, as pessoas geralmente pedem respostas. Tanto sobre o que fazer para se destacar num cenário aparentemente pouco atrativo e reconhecido, como sobre os principais (e comuns) questionamentos que permeiam quem quer se expressar bem sem cometer deslizes. Apresentador do programa ''Nossa Língua Portuguesa'', exibido pela TV Cultura há nove anos, o professor e escritor já chegou a protagonizar publicidades de grandes redes dando dicas sobre nossa língua. Virou uma celebridade.
Na semana passada, o professor Pasquale, como é conhecido, esteve em Curitiba para lançar a nova edição do livro ''Gramática da Língua Portuguesa'' (Editora Scipione) que chegou a vender 50 mil exemplares em apenas um ano. ''Eu não imaginava que um assunto tão árido, que espanta tanta gente, pudesse fazer tanto sucesso'', diz o professor sobre a sua empreitada, tanto escrevendo livros, como apresentando os programas de tevê e rádio.
O professor atribui à falta de lógica e raciocínio os principais problemas de quem quer falar um português correto. ''As pessoas não sabem pensar'', disse em entrevista coletiva, antes de autografar os livros e fazer uma pequena palestra para um público formado em sua maioria por professores, nas Livrarias Curitiba. Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Folha 2.
O que é preciso para falar corretamente dentro de uma linguagem cotidiana? É possível aliar as duas coisas?
Claro que é possível trabalhar com as duas, três, quatro, cinco, dez e até 20 linguagens. Porque a língua não é, nunca foi e nunca será um guarda-roupa fechado, com um único tipo de roupa. Isso não existe em nenhum lugar do mundo. Eu acho que a gente já devia ter superado a fase de reconhecer o papel de cada variedade. Eu ouço muita gente dizer que qualquer coisa relativa ao estudo da linguagem formal é repressiva. É bobagem porque toda língua se faz num determinado padrão. É só abrir qualquer livro técnico que trate de ciência, de literatura como estudo, de direito e a gente vai ver em que linguagem isso vai aparecer. Então é evidente que as pessoas precisam dominar essas variedades de línguas, se é que elas têm interesse em dominar esses campos do saber. E essa variedade é muito parecida com que a gente usa no dia a dia, mas é um pouco diferente. Ela tem lá as suas normas, já que a língua escrita é um pouco mais conservadora e as coisas demoram um pouco mais para mudar. É possível conviver com toda essa diversidade, mas não se pode iludir ninguém. Não se pode dizer para uma pessoa que quer estudar certas coisas que sem o domínio dessa variedade de línguas ela vai conseguir. Não vai.
Qual a principal dificuldade da população? Por que os brasileiros, em geral, falam e escrevem mal?
Eu diria que a grande dificuldade que as pessoas têm quando vão ler coisas escritas numa linguagem formal é a dificuldade de raciocínio. E não é só na leitura. A dificuldade é na compreeensão do básico. É impressionante como as pessoas têm dificuldade para pensar. Eu estava lendo agora no avião um texto do Alexandre Garcia que eu achei interessante. Ele dizia que as pessoas ainda vão precisar de 100 anos para entender certas coisas. Por exemplo, o elevador. A luzinha com a setinha para baixo quer dizer que o elevador vai descer. No entanto, é muito comum que as pessoas apertem os dois botões, sendo que elas não vão subir e descer ao mesmo tempo. Aí o elevador pára com a setinha para baixo e a pessoa pergunta ''vai subir?''. Quer dizer, ela não é capaz de ler um signo. O Brasil é o único país em que a rotatória não funciona. Em qualquer lugar do mundo a rotatória é muito clara: quem está nela tem a preferência. Mas o Brasil não consegue entender essa linguagem. A nossa dificuldade é grande e não só para texto escrito. A gente precisa aprender a pensar.
E aonde está a raiz do problema?
Eu sei lá (risos). Como eu adoro colocar a culpa de tudo o que há de ruim no Brasil na Ditadura Militar, para mim a culpa é da ditadura.
Por que?
Porque ela emburreceu o País. Castrou o pensamento das pessoas. Colocou no ar uma televisão extremamente burra, como diz a música dos Titãs (''A televisão me deixou burro, muito burro demais''). Matou professores e colocou gente para fora do País. Então para mim a culpa de tudo o que há de ruim, até do que ela não tem culpa, é da ditadura.
A música é um instrumento para ensinar o povo a falar melhor ou ao contrário?
Eu não diria para falar melhor ou pior. A música é um instrumento ótimo para colocar as pessoas em contato com o texto literário, artístico e bem trabalhado. Temos grandes letristas que trabalham diversas modalidades de língua. O mesmo compositor trabalha em variedades diversas. O Caetano Veloso é um exemplo disso. No mesmo disco (''Livro''), ele apresenta uma canção chamada ''Não Enche'', em que a escrita é um desabafo dentro da linguagem coloquial. No mesmo disco ele canta ''Os Passistas'' que é de um rigor formal extremo. Nós temos gente que trabalha bem em diversas frentes da língua. O mínimo que a gente pode conseguir ouvindo nossos grandes compositores é aprender a pensar, a refletir.

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