ENTREVISTA - Odair José agora é cult
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de abril de 2006
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Os longos dias de ostracismo podem estar chegando ao fim para Odair José, um dos cantores mais populares do Brasil na década de 70. Expoente do cancioneiro romântico, ele reinou na era das rádios AM e foi perseguido pela censura durante a ditadura militar.
Tornou-se sinônimo de música brega, o que bastou para estigmatizá-lo retirando qualquer aspiração artística de sua obra. O que seria impensável, porém, materializou-se agora com o lançamento de um disco em homenagem ao compositor.
''Vou Tirar Você Desse Lugar Tributo a Odair José'' (Allegro) reúne bandas e artistas do pop nacional executando versões de sucessos como ''Uma Vida Só (Para de Tomar a Pílula)'', ''Cadê Você'' e ''Eu, Você e a Praça''. O bloco mais numeroso de faixas vai na contramão resgatando canções lado B, entre elas ''Uma Lágrima'', a primeira música gravada pelo ídolo e aqui registrada pelo Pato Fu.
Pato Fu, Zeca Baleiro, Paulo Miklos, Mundo Livre S/A e Picassos Falsos são os nomes mais conhecidos da escalação. Simultaneamente ao tributo, está chegando às lojas o novo álbum de inéditas do artista, ''Só Pode Ser Amor'' (Deck Disc), o 31º de sua extensa carreira. Neste, Odair mantém-se fiel ao gênero que o consagrou enfatizando a influência e a linha melódica exploradas por duplas sertanejas como Bruno & Marrone e Zezé di Camargo & Luciano.
Odair José preserva também o estilo indiscreto de abordar temas pouco comuns à poética da MPB incluindo uma faixa potencialmente controversa, ''Pensão Alimentícia'', que segue a toada de outras tantas que compôs nos anos 70. Os fãs antigos se lembrarão de ''Vou Tirar Você Desse Lugar'', cuja letra contava a história de um rapaz que caía de amores por uma prostituta e estava disposto a encarar todas as pressões para fazer valeu seu sentimento.
Outros poderão se recordar de ''Uma Vida Só'', mais conhecida como ''Pare de Tomar a Pílula'', na qual um marido pede à mulher que abandone os anticoncepcionais para que o amor dos dois frutifique na forma de um bebê. Na nova ''Pensão Alimentícia'', ele retoma o filão falando do dinheiro que os homens são obrigados a repassar às suas ex-mulheres depois que a troca de declarações de amor transforma-se em troca de desaforos diante de advogados.
A balada compõe, ao lado de ''Longe de Mim'', as únicas de sua autoria no disco. O restante do repertório traz assinaturas de compositores de Goiás, sua terra natal. Se não há surpresas no disco, o mesmo não se pode dizer da coletânea produzida em sua homenagem. O lançamento, por si só, soa inusitado. O CD traz 18 regravações, todas mantendo a melodia dos registros originais. A banda paraense Suzana Flag, um dos destaques, remete aos anos 60 caprichando nos vocais e no instrumental em ''A Vida que não Pára''.
Os pernambucanos do Mombojó também optam por uma abordagem retrô em ''Ela Voltou Diferente'' combinando vocal rouco, batidas dançantes, guitarra, gaita, escaleta e teclados. Reunindo convidados de todo o País, o disco inclui registros das bandas curitibanas Poléxia e Terminal Guadalupe. A seguir, a entrevista feita por telefone com o homenageado.
Como você recebeu a homenagem que os novos artistas e bandas prestaram à sua obra no CD ''Vou Tirar Você Desse Lugar''?
Eu fiquei muito lisonjeado. Era uma coisa que eu não esperava. E fiquei muito feliz com o resultado, com as versões que fizeram de minhas músicas e com todo o trabalho de produção feito pelo idealizador do tributo. A garotada fez um trabalho nota mil. O interessante foi que das 18 canções reinterpretadas, apenas quatro delas tocaram em rádio. A maioria nem toco nos shows. É emocionante ouvir o Pato Fu cantar 'Uma Lágrima', que foi a primeira gravação da minha vida.
Você ficou famoso antes de tudo como compositor. Por que seu novo disco, ''Só Pode Ser Amor'', traz apenas duas canções de sua autoria?
De certa forma, eu tirei um peso dos ombros. Sempre fui um cantor compositor, um repórter musical que devolvia o que via no cotidiano em forma de canções. Nesse disco, os compositores é que fazem as reportagens para mim. E, além do mais, com tantos anos de carreira já não preciso ficar me matando para gravar um disco apenas quando tiver um número xis de canções de minha autoria. Há o fator da competência aí. Nem sempre estamos inspirados para escrever aquilo que as pessoas querem ouvir.
Você compôs músicas que provocaram polêmicas nos anos 70 por causa dos temas abordados nas letras. Neste novo disco, uma das faixas de sua autoria fala da pensão alimentícia, que os homens são obrigados por lei a repassar às suas ex-mulheres depois da separação (assim como as mulheres a seus ex-maridos). Será que ela vai gerar controvérsias?
Eu sempre retratei a realidade nas letras. No começo de minha carreira, o Roberto Carlos falava de amor, do beijo no portão, da saudade, da despedida, do ciúme porque a garota olhava para um outro rapaz no baile. Eu já pegava as coisas pelo ângulo de Nelson Rodrigues. Falava que a menina chifrou mesmo o cara, que ela foi mesmo para a cama com outro homem. Falava do marido que pedia para a mulher parar de tomar pílulas, do cara que se apaixonava e queria se casar com a emprega doméstica e não com a patroa. Eu metia o dedo nas feridas. Mas eu não compunha pensando em levantar debates. Sempre cantei o que achava importante cantar. A polêmica é criada por quem ouve.
Algumas músicas do disco lembram bastante o cancioneiro das duplas sertanejas. Você concorda?
Concordo sim. Acho que Bruno & Marrone, Zezé di Camargo & Luciano, Daniel, Leonardo e outros artistas são herdeiros da canção popular da qual sou um dos representantes. Prefiro usar o termo música popular em vez de música sertaneja. Na verdade, de dupla eles não têm nada. Quem faz a segunda voz é só um personagem, ele está ali só para efeito estético.
E a raiz dessa linhagem vem de onde? Quais foram suas influências musicais?
Eu tive influência de tudo: Tonico & Tinoco, Teixeirinha, Beethoven, Beatles, Roberto Carlos, Herbie Hancock, Tom Jobin, música italiana, Cat Stevens, Neil Diamond, Paul McCartney. Sempre ouvi de tudo.
Você é um dos personagens centrais do livro ''Eu Não Sou Cachorro, Não'' (Record), no qual o historiador Paulo Cesar de Araújo reavalia sua obra dando-lhe uma importância que sempre foi negada pela crítica. O que esse livro significou para sua carreira?
O livro foi importante para a história da música popular brasileira, não só pra mim, na medida em que sempre se considerou que durante a ditadura a censura havia proibido apenas as canções de quem falava de generais. Durante anos, sempre se achou isso, que apenas Chico Buarque e outros artistas da MPB foram censurados. Só que o Chico cantou para um público que já tinha as informações que estavam nas entrelinhas nas letras, um público elitizado. Ele não falou para o povão, que sempre foi o público das minhas mensagens. O livro mostrou que nós também sofremos com a censura, também tivemos muitas letras proibidas. Assim, revelou que todas os livros de pesquisa em música popular anteriores só haviam falado da música feita em Ipanema, com se o Brasil fosse uma extensão de Ipanema, como se a nossa música popular girasse em torno de Tom Jobim, Chico Buarque e Carlos Lyra. E isso nunca foi verdade. A canção popular brasileira vai de Teixeirinha e Luiz Gonzaga a Ataulfo Alves e Odair José.
Você acha que o livro ajudou a desgrudar o rótulo brega que sempre foi colado a seu trabalho?
Eu sempre achei que o rótulo tem uma importância maior para quem rotula do que para quem é rotulado. Já fui chamado de 'Bob Dylan da Central do Brasil', 'Terror das empregadas domésticas' e nada disso teve influência sobre a minha música.
A que você atribui o seu afastamento da mídia durante as duas últimas décadas?
Tenho 36 anos de carreira e estou lançando meu 31º álbum. Com tanto tempo no meio artístico, é difícil a gente aparecer toda hora na TV ou ficar na ponta disputando a parada de sucessos com os mais jovens. No começo eu vivia, dormia e comia música 24 horas por dia. É normal ter mais fôlego quando se é mais moço. Assim como é normal, depois de um certo tempo, tirar o pé do acelerador. Além disso, existem outros fatores envolvidos, como a incompetência do artista ou a inoperância das gravadoras. Às vezes o artista grava um bom disco, mas não recebe a atenção da gravadora, que deixa de trabalhar o material. Outra vezes, é o próprio artista que não está inspirado. E aí, a mídia não é obrigada a aceitar um trabalho ruim. Resumindo: a mídia não exclui ninguém, é o próprio artista que se exclui.
Qual é público, hoje, do Odair José?
O público que me acompanha é o de sempre. É o público do Daniel, do Zezé di Camargo, do Roberto Carlos e até do Caetano Veloso e do Chico Buarque. Sou um cantor do povo, não sou um cantor de elite. Faço show praticamente toda semana. Se o trabalho é bom, tem público de todos os segmentos. A música não precisa ter 18 acordes de dissonância para ser boa. Uma música de três acordes pode ser muito boa em sua simplicidade.


