ENTREVISTA - O 'reverendo' do rock
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de março de 2004
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
Curitiba Radialista, VJ da MTV, jornalista, escritor, ''reverendo'', aventureiro e, acima de tudo, um grande fã do rock'n'roll. O paulistano Fábio Massari é hoje para o público brasileiro uma verdadeira enciclopédia viva da música alternativa; conhecedor de bandas diferentes, distantes, estranhas, bizarras, desconhecidas.
Massari esteve em Curitiba para o lançamento de seu segundo livro, ''Emissões Noturnas - Cadernos Radiofônicos de FM''. Sempre inquieto, e dispensando o status de ''guru'' para uma geração de admiradores do rock alternativo, ele admite que procura enxergar a música de maneira incomum e, com seu jeito rápido de falar, que lhe é bastante peculiar, bateu um papo com a reportagem da Folha2
Como foi o começo desse interesse pelo diferente?
Estabeleci que o primeiro da coleção é do Alice Cooper, o ''Muscle of Love'', porque sei dos ''estragos'' proporcionados por esse disco. Em 74, o Alice Cooper tocou no Brasil e as outras coisas que tocavam na época a gente conhecia pela televisão. Então você vê um cara como o Alice Cooper cabelão, cobras, rock, confusão , e quer saber qual que é. Aí meu pai, que obviamente não me deixou ir ao show porque eu tinha dez anos na época, trouxe o disco. E daí esse disco abriu as portas para o rock'n'roll. A partir daí eu fui conversando e me interessando em explorar em buscar caminhos menos... ''iluminados''. Descobri desde cedo que existia gente fazendo rock legal na Itália, na Argentina, em outros lugares.
Naquela época a gente não tinha internet. Como você fazia para chegar a esse material?
Era uma coisa mais aventureira, tudo mais difícil. As descobertas iam mais na base do garimpo: escutava um programa de rádio aqui, conseguia uma revista gringa ali, conversava com alguém que viajava e trazia coisas. Era uma batalha um pouco mais intensa. Nos anos 80 quando se conseguia colocar a mão numa Melody Maker (revista especializada em música) era a glória. Lia até as palavras cruzadas pela dificuldade de conseguir a coisa.
De onde saiu essa história de 'reverendo'?
É coisa do Luís Thunderbird, o legendário Thunder (VJ da MTV). No começo da MTV, em 91, ele apareceu com esse apelido, não sei de onde tirou, mas nunca pedi explicação porque acho que fica mais divertido assim. Ele veio e falou ''você parece com meu pai'' e eu ''como assim?''. Daí ele apareceu com esse negócio do apelido.
Como você conseguiu o espaço para veicular um programa sobre rock alternativo, como o Lado B?
Eu já vinha da 89FM (rádio paulistana), comecei a trabalhar na MTV em 91 e com tradição do Rock Report, um programa de rádio que eu fazia sobre sons diferentes, estranhos, alternativos, seja o que for. Entrei no departamento de programação e trabalhava com o Lado B e o Clássicos, programas que vim a apresentar tempos depois. Uma vez o Thunder não apareceu para gravar um programa Rock Blocks e o chefe da tevê na época, o Tite, disse ''Massa, vai lá e apresenta essa porra''. Não rolou nenhum stress e acabou rolando.
Como era sua interação com o público?
Nunca tive esse lance de ''falar para o jovem''. O rádio e a tevê foram uma extensão natural de mim mesmo, eu sou assim. Mais do que o ''conhecedor'', o ''sabedor'', o que vale mais é o entusiasmo.
A produção do livro tem a ver com isso?
Tanto o da ''Rumo à Estação Islândia'' quanto o ''Emissões Noturnas'' são livro de entrevistas polifônicas com muita gente falando. Não fiz especificamente pensando em alguma coisa, os livros são feitos para a massa, mas quis mostrar o entusiasmo e a possibilidade de descobrir que tem muita coisa rolando em outros lugares que não a MTV, o rádio, etc. Os livros não são uma demonstração de bandas bizarras, de bandas desconhecidas só pra eu falar que conheço. São para lançar uma luz pra quem quiser descobrir.
Como foi deixar a MTV?
No começo de 2003 meu contrato acabava. Na mesma semana que o contrato acabava eu ia fazer 12 anos de tevê. Então, como já pensava nos livros, decidi dar um tempo e foi um processo bastante tranquilo. Posso falar horas sobre coisas legais na MTV e posso horas metendo o pau, mas acho que foi uma experiência importantíssima.
Você pensa em voltar para a tevê?
Tevê nunca foi muito a minha primeira opção, sempre busquei mais rádio, mas aconteceu e despertou o interesse. Sempre pensei em tevê como música, então, agora, se fosse fazer qualquer outra coisa, seria na MTV.
E esse negócio de alternativo, indie, que o próprio mainstream já está se utilizando, o que você acha sobre isso?
Eu acho que o mercado independente está bem, maduro suficiente para ver que tem vida suficiente para sobreviver longe das grandes corporações. O fato do mainstream se aproveitar é coisa antiga, como o Nirvana, que é um exemplo disso. Eles vieram de uma evolução de outras bandas como Black Flag e Sonic Youth e foram reproduzidos em larga escala. Hoje tem gente que quer se aproveitar dessa seara indie para fazer sucesso. Mas quero continuar acreditando que tem gente na garagem fazendo som porque senão fizer vai morrer.
Se você pudesse escolher uma banda que te representasse...
Putz, é difícil. Eu gosto muito de Zappa porque continua sendo uma escola para várias coisas. Com ele você tem a possibilidade de aprender e buscar novas maneiras, com letras, críticas ácidas e amargas, mas também com humor, ironia, cinismo. E do ponto de vista musical, deixou uma obra incrível, sempre atrás da descoberta. A busca incessante por respostas é legal, por isso ele sempre me fascinou.
E agora que foi confirmado o Pixies no Brasil...
Eu nunca tinha pensado a respeito, mas nenhuma dessas voltas surpreende mais no rock. Eu nunca vi o Pixies, mas entrevistei o Frank Black (guitarrista e vocalista do Pixies) algumas vezes. Na primeira vez foi no lançamento do primeiro disco solo, então ele não podia nem ouvir falar a respeito. Depois, em 96 e 97, já tinha Pixies no set dele e então esse retorno não é exatamente uma novidade. Mas acho que vai ser divertido, principalmente porque é uma das bandas que causaram ''estrago'' por aí, no bom sentido. E no mal sentido porque tem um monte de banda ruim que tenta imitar Pixies.


