Para ele a imaginação é um atributo mais importante que a inteligência. ''A imaginação é o que move a roda da história'' chega a afirmar o escritor Carlos Eduardo Novaes, 63 anos. Defensor dessa idéia, Novaes escreveu em 1995 ''O Menino Sem Imaginação'' (Editora Ática) livro infanto-juvenil que já vendeu mais de 500 mil exemplares e tornou-se uma referência quando o assunto é o prejuízo que o excesso da televisão pode causar à imaginação da criança, impedindo a construção de uma pessoa criativa e saudavelmente sonhadora.
Na história, Tavinho é o garoto que assiste a três televisões ao mesmo tempo e tem grandes dificuldades em imaginar o que seria da vida sem esses equipamentos. Até um cego faz parte da história para valorizar a capacidade da imaginação, mesmo quando a visão está limitada. Esse enredo ganhou projeção em Londrina depois que o texto foi adaptado para o teatro pelo dramaturgo e diretor londrinense Maurício Arruda Mendonça, através do grupo Teatro Circular.
A estréia da peça foi em março durante o 1º Seminário de Atenção à Saúde Integral da Adolescência e Juventude Brasileira promovido pela Associação Brasileira de Adolescência (Asbra). A iniciativa de fazer a peça partiu do projeto Pais em Paz, que exite há oito anos na cidade junto à ONG Vir a Ser, com o objetivo de ampliar o debate a respeito de educação e psicologia por meio do teatro. Desde então, quase duas mil pessoas já assistiram à montagem, que tem duração de 40 minutos.
Carlos Eduardo Novaes veio a Londrina na semana passada como convidado da 1 Jornada Municipal de Educação, encerrada na última sexta-feira. Ele participou de debates com professores da rede municipal de ensino, além de ter assistido ao espetáculo pela primeira vez. Despretensioso, Novaes disse que nunca imaginou que o seu livro alcançasse tamanha projeção. Fez questão de deixar claro que nunca teve uma ''pretensão pedagógica'' ao escrever o livro. ''Sou apenas um escritor''. A seguir, os principais trechos da entrevista que Novaes concedeu à Folha2

Como foi assistir ao espetáculo teatral ''O Menino Sem Imaginação'', baseado em seu livro homônimo, que pela primeira vez foi adaptado para o teatro?
A minha expectativa era grande ao ver meu livro materializado no palco, os personagens pulando fora do livro, se transformando em carne e osso. Eu confesso que gostei muito do que eu vi e gostaria até que a peça fosse maior. Também gostei muito do trabalho da atriz (Ana Rocha) que faz o papel principal. Ela é o ponto alto da peça, acho que é uma performance para ganhar prêmio, um Oscar talvez. Eu assisti à peça com uma platéia de adulto, mas gostaria de ter visto com crianças.

Como surgiu a idéia de escrever o livro?
Não tenho filhos e não passei diretamente pela experiência de ter que controlar o tempo de exposição de uma criança à televisão, mas percebia isso através dos filhos de outros, leituras, observação... Na época, 1995, eu tinha um compromisso com a editora para escrever para essa faixa de público e achei isso um estimulante desafio. Era um público que eu nunca tinha procurado nos meus textos.

Há uma grande diferença entre literatura infanto-juvenil e adulta?
Literatura é uma só, mas você precisa encontrar o registro para esse diálogo. Pressupõe um texto de qualidade que também é um valor subjetivo. Algo que mereça ser transformado em livro. É confuso para mim definir literatura, mas acho que posso dizer que é um texto de ficção. Uma bula de remédio não é literatura.

Por que a temática de ''O Menino Sem Imaginação'', escrito há quase dez anos, continua sendo atual?
Porque trata de um tema que não vai desaparecer nunca que é a imaginação. A imaginação é tão comum, tão trivial no dia-a-dia de todos nós, mas a gente nunca parou para pensar sobre ela. Acho que o livro é um 'freio de arrumação' que eu tento dar na questão da imaginação. Dou aquela freada para as pessoas pararem e refletirem sobre isso. E eu uso muito no livro a expressão corriqueira 'imagina isso', 'imagina aquilo'... O problema é que a gente nunca pensou no fenômeno da imaginação que, até provem o contrário, só alcança os racionais.

E por que a imaginação é tão importante?
Porque é a partir da imaginação é que o homem descobriu a roda e que o homem vem avançando ao longo da própria história. É a imaginação que faz com que a roda da história funcione, ande. Do ponto de vista científico talvez menos, mas do ponto de vista artístico é fundamental. A arte é feita de imaginação, é a sua matéria-prima. O que distingue um Picasso do resto do mundo é a imaginação que ele expressou nos seus trabalhos.

É responsabilidade dos pais e da escola estimular a imaginação das crianças?
Acho que depois dos pais é a escola, que tem um grupo de pessoas que pode ter a imaginação trabalhada ao mesmo tempo. Acho que o trabalho de casa é de apoio ao da escola. O ponto de partida não deixa de ser os pais. A criança nasce em casa e não na escola. Mas a partir do momento que a criança incorpora um comportamento social na escola essa instituição se torna muito importante, até porque, em tese, as professoras devem ser preparadas para isso. Em casa é uma coisa muito intuitiva, umbilical, emocional. A relação entre pais e filhos é toda pelas entranhas, mesmo que, às vezes, busque-se ser mais racional.

Poderia citar canais alternativo à TV para estimular a imaginação?
A televisão não contribui à imaginação. A TV não destrói a imaginação, mas poupa a imaginação. Ela já dá tudo mastigado. Não proporciona a mesma imaginação de quando se escuta uma rádio-novela ou um jogo de futebol, ou se está lendo, por exemplo.

O que você tem a dizer para aos professores?
O que tenho a dizer é que eu sou apenas um escritor. Eu não tenho nenhuma experiência como professor, como educador. Não escrevi ''O Menino Sem Imaginação'' para educar ninguém nem por uma proposta didático-pedagógica. É um livro de ficção. Então, nessas questões do universo de escola, eu não tenho nada a ver com isso. Sou apenas um escritor que desenvolveu uma idéia. Agora, o livro acabou adquirindo vida própria. Se as pessoas, os alunos, os professores, os cegos, os criativos que resolvam o que vão fazer com esse livro.

Você imaginava que o livro fosse fazer tanto sucesso?
Não imaginava que fosse fazer essa trajetória. Ele é, de alguma maneira, o meu ''O Menino Maluquinho'', guardadas as devidas proporções. Dos meus 36 livros editados, é o que mais vende. Nem eu nem a editora pensamos que ele seria esse fenômeno de venda que se transformou. E eu reescrevi cinco vezes esse livro porque achei que não estava bom. Não mostrei para ninguém. Pus um ponto final e entreguei para a editora.

Quando você era criança a TV não tinha esse poder todo?
Quando eu era criança não tinha televisão. Ela me alcançou com 12 anos. Era o início da televisão, que não tinha qualidade, a imagem distorcia...Tinha até um programa de uma hora com uma pessoa ensinando como usar a televisão. Tinha que esperar a televisão esquentar, que nem torradeira...Não deu para a televisão me contaminar.

O que pode ser dito aos pais que tiveram muitas vezes a televisão como a ''babá eletrônica'' de seus filhos?
Que eles exercitem a imaginação de seus filhos, que é um atributo mais importante do que a própria inteligência. E uma maneira de exercitar essa possibilidade é talvez, sobretudo, a leitura.

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