Esse será seu terceiro concerto em Londrina. Tem alguma lembrança das apresentações anteriores?
Na última vez, acho que foi há uns dez anos, toquei com uma orquestra. Já na primeira ocasião, em 1963, fiz um concerto solo e lembro que toquei o ''Carnaval'', de Schumann, por isso o incluí no programa de hoje ao lado da ''Sonata k331'' de Mozart , ''Sonata ao Luar'' de Beethoven e da peça ''Reflets dan L'Eau Poissons d'Or'' do Debussy. Foi a segunda vez que eu toquei a peça. Lembro que as pessoas foram me esperar no aeroporto e saiu uma foto no jornal em que eu aparecia descendo de um DC-3.

Você mora em Paris há muitos anos. Com que frequência tem vindo ao Brasil?
É difícil vir para o Brasil. Cheguei no último sábado para passar o final de ano. Não costumo tocar nessa época. Mas como havia uma data disponível, aceitei o convite. Londrina será a única apresentação. Depois de descansar volto para Europa e só retorno ao Brasil em julho.

Você ficou 25 anos sem gravar disco. Por que um intervalo tão longo?
Não houve uma decisão de não gravar. As coisas foram acontecendo. Tudo é uma questão de hábito. Me contentei em apenas tocar em concertos e fiquei longe dos estúdios. Depois percebi que, por mais que você viaje e toque, nunca poderá alcançar todas as pessoas com sua música. Um disco chega a um público maior. Por isso, nos últimos anos estou descontando. Já gravei vários discos para a Decca (Decca Records, selo inglês): dois álbuns dedicados à obra de Chopin, outro com peças de Schumann e outro com os concertos de Brahms. E na primavera da Europa vou gravar Beethoven.

Em alguns círculos de música clássica, a exaltação do concerto vem acompanhada da demonização do registro fonográfico.
Uma obra pode ser interpretada de várias maneiras, tanto que vários artistas gravam a mesma obra várias vezes. O disco é um registro de uma interpretação, um registro quase descartável, que é importante como divulgação. Vejo-o como uma espécie de auto-análise, uma lente de aumento, um trabalho intelectual. É possível ouvir ali o que passaria batido num concerto.

Você tem o prestígio de ser o maior pianista brasileiro, com aval inclusive de respeitáveis publicações internacionais. No entanto, seu nome não é familiar para o grande público, que é capaz de citar outros pianistas... A própria mídia parece ignorá-lo. A que você atribui essa falta de, digamos, popularidade?
Ao brasileiro falta educação musical, ter contatos com música de concerto desde pequeno, como ocorre na Europa. Mas em relação à divulgação de meu nome e de minha música, o que me ajudou foi o filme de João Moreira Salles (o documentário ''Nelson Freire'', levado às telas em 2003 e já disponível em DVD). O cinema atinge muitas pessoas. É mais popular que um teatro para concertos, que exige um comportamento mais formal da platéia.

O que você ouve em casa?
Quando era jovem, ouvia muito disco. Hoje em dia não tenho muito tempo. No período livre, gosto de ouvir rádio aleatoriamente. Quando venho ao Rio, ouço muito a Rádio MEC.

Quem são seus compositores favoritos?
Há vários, Chopin, Schumann, são muitos.

Agora que você voltou aos estúdios, há planos de gravar compositores brasileiros?
Já gravei um disco dedicado a Villa-Lobos e tenho interesse em gravar outros compositores, como Claudio Santoro, Camargo Guarnieri e Marlos Nobre.

Na volta à Europa, qual será a sua agenda?
Vou tocar em Paris, Roma e fazer turnês na Espanha e na Alemanha. Até julho estarei ocupadíssimo.

Servico:
- Hoje: Concerto de Nelson Freire. Horário: 20h30. Local: Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 240). Ingressos: R$ 50,00 (Inteira) e R$ 25,00 (para estudantes e aposentados). Pontos de venda: Livrarias Porto Megastore e Hotel Crystal. Renda Revertida para o Instituto do Câncer de Londrina. Realização: Artis Colegium Associação Cultural. Patrocínio: Petrobrás / Cia.Iguaçu de Café /Milênia Agrociências/ Lei Federal de Incentivo à Cultura / MINC / Secretaria de Estado da Cultura.

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