A preocupação com um cinema que tenha a cara do Brasil sempre permeou o trabalho do cineasta Ruy Guerra. Até mesmo em Londrina, na oficina de direção que ministrou na semana passada, ou no Rio de Janeiro, onde leciona cinema, é nítida a sua preocupação em formar nas novas gerações uma consciência mais crítica e menos subordinada aos modelos exteriores.
Ruy Guerra nasceu em Lourenço Marques (hoje Maputo), em Moçambique país para onde retornou no final da década de 1970 para participar da criação do Instituto Nacional de Cinema moçambicano após o país ter se tornado independente (era colônia portuguesa). Estudou cinema em Paris, mudou-se ainda jovem para o Brasil. E tentou instigar e questionar a sociedade em todas as terras por onde andou. Por aqui, essa atitude encontrou no Cinema Novo a sua maior projeção.
Com diversos filmes premiados internacionalmente (como Os Cafajestes, Os Fuzis, Os Deuses e os Mortos, Ópera do Malandro e Erendira) e mais de 25 longa-metragens, o nome Ruy Guerra também pode ser encontrado ao lado de grandes nomes da MPB, como Chico Buarque, Carlos Lyra e Milton Nascimento, em textos e direção para teatro e até assinando crônicas publicadas em jornais.
Porém, apesar de orbitar por todas essas áreas, é no cinema que o diretor alcança sua satisfação plena; é através da câmera que ele consegue transmitir com maior exatidão a sua visão de realidade cheia de focos e cores dissonantes. Confira um pouco mais dessa relação entre o diretor e sua arte em entrevista que Guerra concedeu à Folha2.

Você sempre teve uma preocupação muito grande em criar uma identidade do cinema brasileiro. Hoje, que avaliação faz em relação a essa identidade na produção nacional?
Qualquer cinema deve ter uma preocupação com a cultura de seu próprio país. O cinema brasileiro tem que corresponder à cultura e não ficar copiando modelos exteriores. Eu não acredito que em arte você possa pegar formas externas e aplicá-las integralmente a uma cultura diferente. É preciso pesquisar a linguagem, as preocupações, as estruturas dramáticas para poder fazer um cinema autêntico.

Qual é a essência do que você tenta passar para os aspirantes a cineastas em suas aulas?
Primeiro, que é o que os alunos procuram, é a compreensão do que é o cinema, o que é a linguagem de cinema, o que é a dramaturgia de cinema. Além disso eu procuro não ensinar regras, mas ensinar a pensar cinema. Sou muito claro colocando que eu não sou exemplo de nada, meu caminho é o meu, e o de cada um é o de cada um. Pode ser até antagonicamente diferente do meu, mas que seja um caminho que tenha uma certa consciência, que não seja um caminho levado pelas circustâncias. Estimulo e forneço os instrumentos críticos para eles poderem, se quiserem e essa é a minha esperança fazer um cinema brasileiro e não cinema estrangeiro dentro do Brasil.

Na época do Cinema Novo existiam poucos recursos, mas também poucas pretensões em relação a dinheiro e carreira. Hoje em dia, é difícil encontrar um profissional que não se preocupe com esse tipo de coisa. Como é em relação aos seus alunos?
É evidente, a sociedade mudou como um todo e os jovens de hoje pensam de uma maneira mais profissional, digamos que a fase do Cinema Novo era uma fase mais romântica, o importante era conseguir fazer o filme. Se ia conseguir ganhar dinheiro ou não era um aspecto secundário. Hoje as pessoas encaram o cinema de uma forma mais estruturada, como um projeto de vida mesmo, como um projeto profissional. Inclusive já se preparam mais para isso. Naquela época não havia praticamente ninguém que vivesse cinema, quase ninguém tinha feito curso específico; entravam para o meio pela paixão pelo cinema. Era uma visão diferente, era um projeto mais estético e político em detrimento do projeto de carreira. Mesmo que depois a maioria tenha feito uma carreira.

A preocupação social também sempre permeou o Cinema Novo...
Preocupação social, política e estética. Eu acho que não dá pra desassociar a estética da política. Você não pode ter um projeto estético se não tem uma visão política embutida dentro disso. Isso era uma consciência muito clara dos cineastas do Cinema Novo. Hoje essa consciência está mais difusa. As pessoas vêem o cinema mais como um projeto artístico, e às vezes desvinculam esse conceito de arte do processo social e político.

Você considera que tenha tido algum fracasso dentro do seu trabalho?
Não, porque nunca fiz nenhum filme que não quisesse fazer. Seria um fracasso se eu tivesse feito filmes sob encomenda e tivesse feito isso contra a minha vontade, por uma questão qualquer.

É difícil conseguir isso hoje em dia?
É, mas é preciso tentar. É por isso também que quando não podia fazer filmes, fiz canções, espetáculos, teatro, escrevi crônicas. São também formas de sobrevivência que me dão prazer e que não me afastam do meu projeto cinematográfico, de certa forma podem até enriquecer. Eu nunca deixaria de fazer filme pra fazer outra coisa por dinheiro, mas, impedido de fazer cinema, vou fazer uma coisa que me ajuda a sobreviver e que me sinto bem fazendo. Agora mesmo estou escrevendo uma peça, um musical para teatro, de encomenda. Não vou dirigir, mas estou felicíssimo porque gosto de escrever para teatro, e é um projeto que me agrada muito. Não me sinto perdendo o meu tempo, nem desviado o meu caminho básico, que é traduzir uma cultura com formas estéticas, sejam quais forem.

Seu filme mais recente, Veneno da Madrugada, foi a primeira obra realmente adaptada do Gabriel García Márques, embora já tivesse feito outros trabalhos inspirados em obras do autor...
É um dos primeiros romances do García Márques. Adaptei com bastante liberdade, não seguindo exatamente a estrutura narrativa do romance. Mas pude interpretar García Márques e contar a história de uma forma mais próxima da visão dele de hoje do que do momento em que ele escreveu o romance. É um projeto antigo, já tinha mais de 20 anos.

Você foi convidado há alguns anos para dirigir uma versão cinematográfica do livro ''Terra Vermelha'', do escritor londrinense Domingos Pellegrini. Como anda esse projeto?
Esse projeto parou. Se vai ser retomado não sei. É um projeto que tem um certo peso de produção, precisa de apoio, captação de recursos. A Cloris (de Souza), da Araucária Produções, estava fazendo isso e não conseguiu apoio necessário para tocar adiante.

Atualmente está trabalhando em algum projeto?
Estou trabalhando no projeto Quase Memória, uma produção baseada no romance do Carlos Heitor Cony. O roteiro já está escrito, estamos na fase de captação de recursos.

Que futuro você vislumbra para o cinema brasileiro?
Um bom futuro já existem jovens que têm uma consciência política do processo que estão atravessando e isso pode resultar em bons filmes. E um futuro difícil no sentido de que se não houver uma compreensão das áreas de decisão do poder da importância que é o cinema no processo cultural e econômico de um país, isso pode resultar em um cinema muito diluído e pouco expressivo ilhas de resistência. Então é preciso que o País como um todo caminhe para que o cinema possa caminhar, não pode haver um cinema brasileiro forte se não houver também essa consciência.

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