ENTREVISTA - O Brilho eterno de ANA BOTAFOGO
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sábado, 30 de julho de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Ana Botafogo, 46 anos, já perdeu as contas de quantas vezes protagonizou ''Gisele'', mas tem certeza de uma coisa: a primeira vez que interpretou o consagrado balé foi no Teatro Guaíra, em Curitiba, mais precisamente em 1979. Dois anos depois, ela tornaria-se a primeira bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. ''Tenho um carinho especial pelo Paraná. Foi a primeira vez que me chamaram para fazer um primeiro papel e eu amei. Era uma produção do próprio Teatro Guaíra e eu viajei por vários lugares do país'', afirmou a notável bailarina, que participou de um talk show durante o 23º Festival de Joinville, encerrado ontem. Ao lado da também renomada Cecília Kerche, Ana Botafogo participou do bate-papo com o jornalista Osny Martins, dentro da programação didática do festival. O Teatro Juarez Machado estava completamente lotado ao ponto de muitas pessoas não se incomodaram de sentar-se ao chão para ver e ouvir um dos ícones da dança brasileira com consagração no exterior.
Ana Botafogo aproveitou o evento para também divulgar o lançamento sua linha exclusiva de produtos com acessórios e roupas, como camisetas bordadas e pintadas manualmente todos fazendo referência à sua trajetória artística bem-sucedida. O carisma de Ana é inegável. Tanto que uma grande fila de admiradores aguardava ansiosamente por um autógrafo e foto da musa que todos os dias inspira jovens bailarinas do Brasil inteiro a tentar a carreira profissional.
Da figura aparentemente franzina, além de emocionar com os seus movimentos clássicos quando dança, Ana transmite muita força e segurança no que diz, principalmente quando compartilha a sua dedicação à dança. Da voz calma e tranquila, ressalta que dança ''não é esporte; é arte'' e afirma que os pretendentes a uma carreira profissional não devem se voltar apenas para a competição, ou seja, ''o concurso pelo concurso''. Ela também criticou as pessoas, que devido as dificuldades de mercado no Brasil, partem para o exterior e não conseguem se fixar em uma companhia, o que impediria a sedimentação da carreira. Também pontuou sobre o cuidado que se deve ter no ensino de balé para crianças. ''Não se deve pular etapas para que as crianças não tenham lesões nem sobrecargas no futuro'', aconselhou.
Atualmente, Ana Botafogo está participando do espetáculo ''Isto é Brasil'', de Carlinhos de Jesus, onde além do clássico também apresenta uma performance de dança de salão. Ela também se prepara para liderar a comissão de frente da Mocidade Independente de Padre Miguel, que no ano que vem entra no Sambódromo com um enredo sobre qualidade de vida. Será a terceira vez que Ana leva a chamada arte erudita à Sapucaí e acredita que essa diversidade de linguagens só tem a acrescentar na formação da bailarina clássica. Em breve, deve anunciar um espetáculo sobre Bibi Ferreira, dessa vez a sua musa, de quem diz ter grande admiração pelo que fez pela área artística brasileira. A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva que Ana Botafogo concedeu à Folha2.
Recentemente você declarou que gostaria de ''pendurar as sapatilhas'' no auge da carreira, a exemplo de Pelé. Você realmente está pensando em se aposentar?
Na verdade, essa é a resposta que dou, porque sempre me perguntam quando eu vou parar. Eu digo sempre que quero parar quando estiver no auge. Não quero parar quando não estiver dançando mais. Graças a Deus não estou pensando em parar tão já. Isso daí fica, às vezes, mal interpretado. Na verdade, não tenho uma data. Eu só acho que balé é vigor físico. Então, enquanto tiver beleza, pique, eu acho que a gente pode dançar. Eu ainda me sinto muito feliz no palco.
Sobre as experiências no sambódromo, como fica essa mistura entre o clássico e o popular? É esteticamente possível isso ?
Ao longo da minha carreira eu sempre quis popularizar a dança e o gostoso é isso: num mês eu danço um grande clássico, como foi ''La Fille Mal Gardée'', nesse ano, no Teatro Municipal, e na semana seguinte eu estou num teatro, cruzando a rua do Teatro Municipal, com Carlinhos de Jesus, em um espetáculo super popular. Acho que a bailarina tem que poder ir do clássico ao popular, tem que saber se mexer, dançar. E quanto mais você dança e se diversifica, mais você pode estar em cena. Minha filosofia de vida é estar no palco. Por exemplo: eu posso fazer ''Gisele' e, ao mesmo tempo, participar de um espetáculo com Carlinhos de Jesus. Só que eu tenho que trabalhar muito mais, porque são duas técnicas diferentes. Com o Carlinhos, eu também faço balés na ponta, mas eu também danço, aprendi a fazer uma dancinha de salão com ele. Então, é prazeroso. A companhia dele é maravilhosa, eles dançam muito bem, e eu estou super feliz de estar no espetáculo, que é de grande nível.
Da época que você começou a dançar e o momento atual da dança no Brasil, qual é o paralelo que você faz ?
Eu acho que as companhias cresceram muito, principalmente as de dança contemporânea na minha época quase não havia; tinha apenas algumas companhias oficiais de teatro. Então, eu acho que isso cresceu muito. Também avalio que hoje temos um ensino muito bom e é uma pena que muitos bailarinos estejam indo para fora, porque aqui não tem campo de trabalho para eles. Só tem o Teatro Municipal que não pode contratar todos esses bailarinos, o que é lamentável, porque eles poderiam fazer carreira aqui e dançar lá fora também, porque nós também precisamos dos bons profissionais no Brasil.
Fale um pouco de ''Gisele'' que você dançou no Teatro Guaíra, de Curitiba
Tenho um carinho especial pelo Paraná. Foi a primeira vez que me chamaram para fazer um primeiro papel e eu amei. Era uma produção do próprio Teatro Guaíra e eu viajei por vários lugares do país.
Qual o conselho a ser dado a uma bailarina que sonha em ser profissional?
Força de vontade. Balé não se aprende da noite para o dia. Vale a pena, é muito bom, mas tem que ter muita disciplina, muito trabalho, ouvir muito o professor. E ensaio, ensaio e mais ensaio.
Você acha que no caso do balé clássico a disciplina tem um peso maior do que o talento para a consolidação da carreira?
Só talento não adianta. Tem que ter talento e disciplina no trabalho. Sem muito trabalho os talentosos não vão adiante, isso é uma coisa certa. Claro que talento ajuda, mas muitas vezes uma pessoa menos talentosa, mas com muita determinação, consegue chegar na frente daqueles talentosos que têm preguiça de trabalhar. Na minha experiência de vida, já vi isso acontecer com várias colegas talentosíssimas que acabam parando de dançar porque não querem trabalhar.
Durante o talk show, você contou que começou a dançar como uma brincadeira. Quando começou a sonhar em se tornar uma bailarina profissional?
Adolescente eu pensava em me tornar uma bailarina profissional. Quando era pequenininha, não. A gente não tinha tanto parâmetro como se tem hoje em dia em que as meninas pequenas já vêem as bailarinas profissionais. Há também os festivais, que na minha época não existiam. Então, eu, adolescente, pensava em ser uma bailarina profissional, mas achava que era muito distante a profissionalização. Mas eu tive um sonho e consegui realizar!
A jornalista viajou a convite do 23º Festival de Dança de Joinville


