ENTREVISTA - No paladar do povo
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de agosto de 2007
Mariana Trigo<br> TV Press 
Daniel Dantas não é um poço de introspecção como aparenta. Apesar do jeito tímido e de constantemente sorrir com os olhos, o ator de 53 anos se mostra muito à vontade quando o assunto é esmiuçar composições de personagens e lembranças de carreira. ''Sempre me achei um artesão nos papéis. Não crio os personagens, eu os confecciono num trabalho muito individual, de acordo com o texto. Por isso, quase não improviso'', explica, com seu jeito manso. Esparramado no sofá com um ar bonachão, Daniel parece não ter papas na língua ou discursos prontos quando analisa seu personagem Heitor, de ''Paraíso Tropical''.
Na pele do chef de cozinha que só leva rasteiras na trama de Gilberto Braga, Daniel é um dos atores que come pelas beiradas e, aos poucos, rouba muitas cenas. Desde o início da história, o executivo frustrado, casado com a perua vivida por Beth Goulart, se mostrava um cara mediano como a maioria. Piorou depois que o personagem perdeu o emprego para o ''mauricinho'' Fred, vivido por Paulinho Vilhena, e ainda soube que a filha mais nova - interpretada por Patrícia Werneck - iria se casar com ele. ''Haja falta de sorte!'', brinca Daniel.
Umas das cenas mais marcantes da novela e que chegou a dar 50 pontos de pico na audiência foi quando o Heitor disse para a filha Camila que ele, assim como 90% das pessoas, é medíocre. Como você reagiu a esse texto?
Grande parte da mediocridade está no medo. E o brasileiro tem medo. Quase todos têm receio de arriscar, de se atirar. Ele é muito sincero, desde a maneira como age ou como se coloca. Ser medíocre não é necessariamente ruim. O que o autor passa através dele são questões fundamentais. Dinheiro e sucesso realmente não são primordiais para a felicidade. Não é para isso que a gente deve viver. Ele tem um romantismo que estamos precisando, um resgate de valores. E, no fundo, o brasileiro tem isso. Ouço todos os dias nas ruas: ''Volta para a Neli'', ''Perdoe ela, dê uma chance''. Antes, me pediam para o Heitor se livrar dela. Todos perdoam quando argumentam ''Ah, fez por amor!''.
A história é conduzida por uma ambição desmedida de alguns personagens. Houve uma inversão de valores quando ''vilões'' como a Bebel, da Camila Pitanga, o Olavo, do Wagner Moura, ou o Antenor, do Tony Ramos, são tão aceitos pelo público. Como você analisa o Heitor nesse contraponto?
O Heitor vai na contramão dos valores. Mas a Bebel, o Olavo e a Taís são personagens muito simpáticos. A culpa deles serem queridos é do próprio Gilberto, que os escreveu tão bem. Acho bárbaro no Antenor ele ser um vilão às avessas, o que nos faz torcer por ele. Por ser o Tony, dá muito mais credibilidade. Se ele fizer o sujeito que vende a mãe aos pedaços, você vai achar legal. É genial colocá-lo para isso.
Por que você nunca interpretou um vilão na tevê?
sso eu tinha muita vontade de fazer. Em ''O Dono do Mundo'', o Júlio era meio dúbio. Mas falta muita coisa para eu fazer na tevê. Na vida profissional, me sinto como aquele burro que tem uma vara na cabeça com uma maçã pendurada na sua frente. Ele nunca consegue alcançar a maçã e continua andando (risos). Me sinto esse personagem. A maçã é sempre colocada um pouquinho mais longe para você não pegar. Isso é bom e enxergo essa atitude em todo esse elenco da novela. A gente se diverte. Somos amigos há anos. O Dennis tem a capacidade de formar uma turma de verdade. Isso é muito bom. Eu sou dessa turma que nunca chega para gravar dizendo ''Putz, hoje tem de trabalhar!''.
Você está cada vez mais parecido com o seu pai - o falecido ator Nelson Dantas. Que influência ele teve nas suas diretrizes como ator?Ele era uma pessoa de extrema delicadeza e teve muito cuidado para não ser uma influência impositiva. Tanto que se eu tivesse de detectar onde se operou a influência dele, eu não saberia identificar. Mas me contaminou de alguma forma. Ele e minha mãe Ismenia viviam num ambiente cheio de arte. Contracenei com ele em ''Força de Um Desejo'', onde ele viveu meu tio. Pensei duas vezes em dirigi-lo no ''O Rei Lear'', de William Shakespeare. Ele não ligava muito para teatro, mas com qualquer papelzinho de apenas dois dias num filme, meu pai falava empolgado: ''Ah, tá bom!''. (risos). O negócio dele era cinema. Ele ia cinco dias antes a uma locação, descobria botecos, docinhos, cafezinho, tudo perto. Era o que amava fazer. Mas eu prefiro a velocidade da tevê.


