É melhor dizer que torce pela América Latina - numa saída à francesa para não criar um 'imbróglio' futebolístico na casa do arqui-rival em plena Copa do Mundo e, sem querer cometer uma falta grave, apostando numa jogada diplomática, a diretora argentina do grupo Marfil Verde, Teresita Guardia, deu o seu palpite sobre quem deve faturar o mundial.
Ela é uma das integrantes da torcida pelo intercâmbio cultural do Festival Internacional de Londrina (FILO), que nesses dias divide com os jogos do mundial, a atenção dos londrinenses.
Como no esporte, a arte aproxima. Um bate-bola que pelo menos nessa edição do festival está chegando ao fim. Nesse jogo cênico, os protagonistas - público e artistas não se incomodam com o placar porque sabem que sempre será positivo.
A Folha, que nesses dias acompanhou cada partida - representada pelos espetáculos de rua, em teatros e espaços alternativos - ouviu a opinião de alguns artistas, que falaram um pouco sobre a arte ou ''a troca de camisas'', que pode ser traduzida pelo intercâmbio cultural.
Entre os escalados nesse elenco, além de Teresita Gurdia e Yesika Migliori, atrizes que pela primeira vez se apresentam fora da Argentina, a reportagem ouviu o diretor da companhia suíça, Markus Zohner Theater Compagnie, o alemão Markus Zohner, que apresentou o espetáculo ''Ha! Hamlet''.
Esse seleção fala também da vida itinerante, atrás de uma nova platéia, que se encantará sempre com as artes cênicas, capaz de fazer torcer pelo mesmo time até brasileiros e paraguaios.
Como diz Teresita: ''Que viva a América Latina, bem como o resto do mundo representado no FILO 2006!''

Qual a sua avaliação sobre o FILO?
Markus Zohner - Eu achei muito importante, principalmente porque o FILO acontece numa cidade que não faz parte do circuito comum brasileiro de espetáculos, como o Rio de Janeiro e São Paulo. O festival é algo único para a cidade.

Teresita Guardia - O FILO é um exemplo. Estamos muito contentes. Já estive no festival em 1994, quando ainda era dirigido pela Nitis Jacon. Vejo que está se superando.

Qual a impressão da cidade que fica para você?
Markus Zohner - Para mim é um lugar bonito e agradável para viver. Há uns 10 anos, eu estive no Brasil e me apresentei em Curitiba e Cascavel. Percebo que Londrina é bem similar àquelas cidades. Muito limpa e tranquila.

Teresita Guardia - Somos do interior da Argentina, a cerca de 1.200 quilômetros de Buenos Aires. A população de Tucumán é de 1,8 habitantes, sendo a menor província e a mais populosa do país. Para nós é importante abrir as portas para o Brasil, que é mais perto que Buenos Aires. O que me chamou a atenção na cidade e nos brasileiros é que são mais afetuosos. Os argentinos são mais críticos.

Como você avalia o intercâmbio cultural promovido pelo festival?
Markus Zohner - Durante este ano tenho 20 apresentações em vários países do mundo, como Kosovo e o Cazaquistão. A nossa intenção é não participar de tantos festivais quanto possível, mas realizar um bom trabalho. Trouxemos ao festival de Londrina uma oficina teatral para conhecermos jovens atores. Podíamos ter voltado para a Suíça logo depois da nossa apresentação, mas preferimos ficar. O mais importante é esse contato.

Teresita Guardia - O relacionamento com outros grupos é fundamental num festival como o de Londrina, que tem uma variedade grande de coisas.

Quais as temáticas que os festivais têm abordado atualmente?
Markus Zohner - Basicamente é igual em qualquer lugar. Trata de três questões: a morte, o medo da morte o amor e o poder. Na Idade Média na Europa, a preocupação era com a fome, o que não é mais. Se viajarmos pelo interior do Brasil, veremos que o tema fome ainda é importante. Na Alemanha, na Suíça a questão pode ser ainda mais diferente, mas o amor, enfim, é universal e é por isso que as pessoas entendem a arte. O teatro vai muito além de questões como a política. É mais uma questão da alma humana. No Cazaquistão, as pessoas choram por amor, como aqui e na Alemanha. Na Suíça, as pessoas têm muito medo da morte, como aqui, mas obviamente uma sociedade como a Suíça tenta não sentir isso, através do consumismo. É uma maneira de não pensar no fim e na morte.

Yesika Migliori - Posso responder pelo meu teatro que tem uma intenção de despertar a consciência social e política, mas já montei outras peças em que abordamos a liberdade do ser humano.

O que você achou do público londrinense?
Markus Zohner - FN60>Foi maravilhoso. Percebi que é um público bastante jovem. Fico muito feliz com isso. Na Europa, os espectadores são muito comportados. Aqui, a gente encontra as pessoas no restaurante e elas fazem questão de conversar sobre o espetáculo. Não sei se essas pessoas assistiram Hamlet antes, mas achei o comportamento delas muito vivaz.

Yesika Migliori - Estou tentando não ter muita expectativa para me surpreender com a reação do público.(N.R. Ela estréia ''Ubú Rey'' hoje à noite).

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