Veio, mas não cantou. Desprovido de qualquer atitude cênica e/ou artística, o cantor Ney Matogrosso esteve em Londrina, na última sexta-feira, na condição de militante no combate à hanseníase, causa que abraçou desde 2000 quando se deu conta de que a doença ainda existia no Brasil. Pior, a falta de informação gera uma das piores desqualificações humanas: o preconceito. E com eloquência atesta: ''Preconceito é uma escuridão mental''. Por esse motivo é que, desde 2000, é voluntário da Ong Carioca Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), que terá um núcleo em Londrina - o 101º a ser implantado em território nacional.
Ney Matogrosso, 65 anos, tem certa autoridade para falar em preconceito. Em 33 anos de carreira, quebrou convenções diversas vezes. Transgrediu padrões comportamentais, foi taxado disso e daquilo e ele nem tchuns para o que falavam sobre sua postura musical e pessoal. Em 73, período em que o Brasil sangrava e morria um pouco nos porões da ditadura, ele maquiava-se pesadamente, vestia-se com roupas ousadas, rebolava e mostrava seu canto fino e afinado.
Claro, os censores não o viam com bons olhos. Mandavam recados para ele maneirar nos gestos. E quanto mais recebia mensagens, mais provocava, mais salientava sua persona artística. Queria chocar mesmo! Melhor, queria impor - e conseguiu - suas vontades e verdades.''Sou um ser humano com direito de expressão', avisa.
Tem razão! Não fosse a vontade de ser livre para expressar-se como bem entendesse, Ney Matogrosso não seria hoje um dos artistas mais respeitados da música brasileira. Um intérprete com autonomia de vôo, que vai do pop-rock às clássicas canções da MPB com invejável domínio. O público de Ney sabe reverênciá-lo. ''Antes eu oferecia sexualidade e pouco sentimentos. Queria chocar mesmo. Hoje me envolvo mais com o público oferecendo sentimentos e também sensualidade'', afirma.
Poucas coisas parecem tirar Ney de sua serenidade cotidiana. No entanto, ele não gostou nem um pouquinho da cinebiografia de Cazuza por não ter sido sequer citado. Logo ele que teve uma ligação estreita, pessoal e sentimental com o cantor e compositor. A seguir, os principais trechos da entrevista que Ney Matogrosso concedeu à Folha 2 em que fala do engajamento na luta contra a hanseníase, carreira artística e futuro projetos - como o novo disco, cujo título deverá ser ''Um Pouco de Calor'', canção do compositor paulista Dan Nakagawa.

O que o levou a ser simpatizante dessa causa contra a hanseníase?
Olha, eu como 99,9 por cento da população brasileira, achava que essa doença não existia mais. Achava que isso era coisa do passado. Quando tive contato com o Morhan (Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase) eu fiquei abismado porque a doença tem cura, o remédio é de graça e a primeira dose do remédio pára o contágio e ninguém sabia disso. Até hoje a maioria das pessoas não sabe disso.

Em quais circunstâncias você foi despertado para a questão da hanseníase?
Eu fui procurado pelo Artur Custódio (coordenador nacional do Morhan) porque o Ney Latorraca havia dado uma declaração dizendo que ia deixar a herança dele às pessoas portadoras de Aids e de hanseníase e que a mãe dele tinha trabalhado em Mato Grosso com isso... Pensaram que havia sido eu. O Artur veio me procurar e eu disse: ''eu nem sei nem do que você está falando''.

Uma confusão de 'Neis'...
É, mas comecei a me interessar e querer saber do que se tratava e fiquei muito impressionado com a falta de informação a respeito do assunto. Então, me coloquei à disposição para exatamente clarear a cabeça das pessoas com relação a isso. Porque é uma doença que carrega uma carga de preconceito enorme não só das pessoas, como dos próprios doentes - algumas pessoas que têm isso fogem, se escondem.

Nessas suas andanças você pode perceber que esse preconceito é, digamos, ''palpável''?
Sim, sim. Mas são coisas que são alimentadas... Você não viu a declaração da Denise Frossard (candidata do PPS derrotada ao governo do Rio de Janeiro), recentemente, dizendo que as pessoas tinham todo o direito de não querer conviver com anomalias, aleijões e feiúra dos outros? Quer dizer, uma pessoa como ela, que deveria ser esclarecida, dá uma declaração que contribui para o preconceito. Aleijões... Isso é coisa que se diga?

Interessante sua militância nessa causa, logo você uma pessoa que sempre se mostrou...
(interrompendo) Sou contra os preconceitos, quaisquer que sejam.

Que tipo de preconceito dói mais, na sua opinião?
Para mim, qualquer preconceito é atraso. O que gera o preconceito é a ignorância, a falta do saber. Especificiamente com a hanseníase, se as pessoas têm informação elas perdem o medo. Preconceito é uma escuridadão mental.

E você, sem precisar levantar bandeiras, chegou e se impôs contra o preconceito, não?
Isso mesmo, sem levantar bandeiras. Cheguei de frente dizendo o que esse ser humano, eu no caso, pensava sobre todas as coisas e defendendo o direito de me manifestar da maneira que eu quisesse. Ora, sou um ser humano com direito de expressão.

Mas aos olhos do regime militar....
Eu ignorava.

Você chegou a ser perseguido politicamente?
Não cheguei a ser perseguido politicamente, mas recebia muitos recadinhos. Meu nome rolava dentro do CENIMAR (Centro de Informações da Marinha), o pior de todos do regime, que mandavam eu maneirar, que sabiam tudo da minha vida, que eu tinha documentos subversivos na minha casa! Eles falaram que era algo relacionado ao Chile. Sabe o que era? Uma folhinha com imagens do Chile que eu tinha. Loucura, né?

Absurdo! Não seria porque entendiam que você fazia apologia a homossexualidade?
Homossexualidade? Eu caguei... Eu vou me guiar pela cabeça das pessoas, vou andar por trilhos pré-determinados? Eu enfrentei meu pai, que era militar e saí de casa aos 17 anos, em 1959, antes do ''desbunde generalizado'', para defender meus ideais, meus pensamentos. E isso até hoje, artisticamente falando porque passei por seis gravadoras. Disse muitas vezes: 'Eu não penso como vocês, não vou aceitar o que dizem e vou fazer o que quiser'. Claro, poderia ser um milionário hoje em dia...

Fazendo aquele tipo de música que lhe impusessem...
Sim, músicas que eles achavam que era interessante. Queriam dizer o que fazer. Ou me aceitam assim ou não. Te digo uma coisa: hoje tenho uma independência artística que poucos possuem. Quando tenho um trabalho pronto, chego na gravadora e digo: 'está cá, lança!'

Num período da sua carreira você voltou para um repertório mais intimista. Numa entrevista você me disse que isso foi premeditado mesmo...
Sim, eu queria me testar.

Testar?Ora, ora...
Sim! Eu achava que era um ator que tinha uma voz estranha e que poderia cantar, mas não tinha certeza que era um cantor. Fui ter certeza quando abri mão da forma e me concentrei no ato de cantar e que resultou no ''Pescador de Pérola'' (87).

E essa linha mais intimista parece guiá-lo até hoje, de um modo geral, né?
Não sou restrito, porque volta e meia eu abro para um repertório pop. Eu tenho repertório guardado para um próximo disco que será completamente pop. Estou com muita vontade de fazer.

Você tem uma noção do que representa para a música brasileira?
Não, nem tenho essa preocupação de ter noção de nada...O fato de ter 33 anos de carreira pesa um pouco... A mentalidade no Brasil é muito descartável em todos os sentidos. Artisticamente, então... A pessoa faz dois, três anos de sucesso e desaparece. Eu tenho 33 anos de trajetória ininterrupta, 30 discos e 16 shows. Quer dizer, estou no ar. E sempre arriscando. O interessante para mim é arriscar.

E o projeto Cazuza não sai?
Esse projeto não dependia de mim exclusivamente, dependia da Lucinha Araújo que ficou entrando em contato com as pessoas. Na verdade, daquele projeto apareceram três músicas que eu gosto muito, duas das quais vou colocar no próximo disco.

Que deve sair quando?
Não sei... Estou querendo dar uma desaparecida, acho que estou com minha cara muito exposta por causa de um trabalho seguido do outro. Queria fazer mesmo um show primeiro e depois gravar em estúdio.

Você não gostou da cinebiografia do Cazuza porque não foi sequer mencionado em nenhum contexto, é isso?
Eu acho o seguinte: se é uma cinebiografia tinha que ter eu. O Barão Vermelho não tocava em rádio, embora o Caetano Veloso cantasse uma música num de seus shows. Aí em gravei ''Pro Dia Nascer feliz'' que tocou imediatamente. Na sequência, a versão deles começou a tocar e nunca mais pararam de tocar nas rádio. Isso não significa alguma coisa na vida dele? O último show de Cazuza foi eu quem fez a luz, a direção, o roteiro e sequer foi citado no filme.

Sem contar que afetivamente vocês tiveram uma ligação muito forte, né?
Sim, sim. E fomos amigos até o fim da vida dele. Eu acho que a parte profissional deveria ter sido citada no filme.

E a parte sentimental não?
Não. Sentimental é particular, privado.

Você está amando alguém?
(acanhado) Não quero responder essa pergunta.

Você está contente com a reeleição do Lula?
(risos) Qual a alternativa?

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