ENTREVISTA - Nem herói, nem vilão
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de agosto de 2004
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Duas pessoas obcecadas pelo contexto histórico que permeia a era Vargas conversam sobre o presidente Getúlio e acabam por apresentar fatos e personagens fundamentais da história brasileira. Esse foi o fio condutor utilizado pelo escritor gaúcho Juremir Machado da Silva para contar a história do presidente Getúlio Vargas (1883-1954) no livro ''Getúlio''. Lançado pela Editora Record, o livro chega às livrarias de todo o País na semana que marca os 50 anos do suicídio do ex-presidente, em 24 de agosto de 1954.
Para concluir a obra, o autor pesquisou durante três anos, consultou centenas de jornais e documentos da época e entrevistou personagens chaves que viveram um dos mais intrigantes períodos da história brasileira. Em entrevista, por telefone, ao Folha 2, o autor deixa claro que a intenção não foi fazer uma biografia do ex-presidente. Tanto que o livro mescla ficção e realidade, numa clara alusão ao gênero ''romance-verdade''. Os dois personagens que conduzem a história, por exemplo, são fictícios, mas têm uma relação fundamental com o cenário da época e que o leitor descobre apenas ao final do romance.
Já as outras figuras que aparecem no decorrer do livro, são reais, assim como os fatos vivenciados por eles. Machado foi buscar em episódios cruciais das décadas de 40 e 50, a resposta para questões até hoje nebulosas. Além disso ele entrevistou 73 pessoas direta ou indiretamente ligadas ao personagem título, com o objetivo de oferecer ao leitor detalhes inéditos da história.
Para reunir o material ele contou com a ajuda de um equipe formada por oito pesquisadores.
Entrevistou por exemplo a nora de Getúlio, Inge Borg, casada com Lutero Vargas e que atualmente mora em Nova York. O ''pistoleiro'' Alcino João do Nascimento também concedeu entrevista ao autor. Nascimento é acusado de ser o pistoleiro contratado para executar o ''crime da Rua Toneleros'', ocorrido na madrugada do dia 5 de agosto. O atentado foi responsável pela morte do major-aviador Rubens Vaz e por ferir o jornalista Carlos Lacerda, um dos principais opositores do presidente Getúlio Vargas. ''O suicídio de Vargas foi decorrente do que aconteceu naquele 5 de agosto, por isso a entrevista de Nascimento foi tão importante'', afirma o escritor.
Nascido em 1962 na cidade gaúcha de Santana do Livramento, Juremir Machado da Silva é também jornalista e historiador. Doutor em Sociologia pela Universidade René Descartes, em Paris, ele viveu na França entre 1993 e 1995, quando atuou como colunista e correspondente do jornal ''Zero Hora''. Autor de dezenas de livros, Machado coordena atualmente o Programa de Pós-graduação em Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).
Sobre a escolha de figura tão complexa da história nacional como tema de seu mais recente livro, ele explica: ''Um escritor sempre procura um personagem fascinante para escrever sobre ele. A exemplo de Fernando Morais, que escreveu sobre Olga e Assis Chateaubriand, comigo não foi diferente, mas isso não quer dizer que eu coloque um sinal positivo em tudo o que Vargas quis dizer'', afirma.
Para Machado, Getúlio Vargas não foi nem totalmente herói, nem totalmente vilão. E por ter mergulhado tão fundo na vida do ex-presidente, o escritor dá sua opinião sobre o filme ''Olga'', que acaba de estrear nas salas brasileiras. O longa dirigido por Jayme Monjardim conta a história da mulher de Luiz Carlos Prestes, deportada para Alemanha, grávida de 7 meses, por ordem de Getúlio Vargas, e coloca o então presidente como um personagem extremamente ''malvado'' dentro do contexto.
''O filme tem um pouco de novela das oito. Simplifica demais a história'', diz. Ele salienta que Getúlio era um ditador, mas é preciso relacionar outros fatos quando o assunto é a deportação de Olga, uma militante que chegou clandestina ao Brasil com o objetivo de derrubar o governo, para a Alemanha. ''Esse é um episódio tratado como abominável, mas é preciso ressaltar que Olga foi deportada em 1936, quando não existia câmara de gás e as pessoas ainda não tinham idéia do que seria o holocausto'', revela.
Getúlio Dornelles Vargas nasceu em São Borja, no Rio Grande do Sul. Foi chefe do governo provisório depois da Revolução de 30, presidente eleito pela constituinte em 17 de julho de 1934, até a implantação da ditadura do Estado Novo em 10 de novembro de 1937. Foi deposto em 29 de outubro de 1945, voltou à presidência em 31 de janeiro de 1951, através do voto popular. Em 1954, pressionado por interesses econômicos estrangeiros com aliados no Brasil, como Lacerda e Adhemar de Barros, comete suicídio em 24 de agosto. Antes de morrer com uma bala no peito, ele afirmou: ''Saio da vida para entrar na História.''
Serviço:
- ''Getúlio'', de Juremir Machado da Silva. Editora Record, 435 páginas, R$ 44,90.


