ENTREVISTA - NELSON NED, sempre na memória do público
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quinta-feira, 26 de julho de 2007
Marc Tawil<br> Agência Estado 
Ele está no inconsciente coletivo das famílias, nos livros de história da música e da TV brasileira. Está na memória dos saudosistas, nas vitrolas dos apaixonados, nos sites de MP3. É citado sistematicamente por humoristas que sequer o viram cantar. Nelson Ned D'Ávila Pinto, 60 anos, 1,12 m e 75 kg, deixou há muito a efêmera cena do show biz. ''Perdeu a evidência'', diz. Será? Em março, o mineiro de Ubá foi a estrela de uma campanha publicitária dirigida por Washington Olivetto em que apareciam ''apenas'' Pelé e Chaplin. Com a saúde debilitada, canta menos do que gostaria. Mas vive tranquilo em São Paulo, ao lado da mulher, Maria, com quem se casou há 27 anos.
Entre textos e letras de música, há várias brincadeiras de mau gosto. A chacota ainda te incomoda?
Olha, vou te contar: o maior artista que o Brasil já teve, o Chacrinha, vivia disso, da chacota. Fazia comigo, inclusive, e não me incomodava. Hoje em dia é a mesma coisa. Não leio sobre o assunto. Se for ofensa pessoal, então, não dou nem confiança. Não levo nada a sério. Nem a mim nem ao Brasil.
O Brasil não é um País sério?
Não, não é. É o país da piada pronta. Quando falam de mim, Nelson Ned, a maioria se lembra da figura e não das músicas.
Assumir sua condição foi defesa ou marketing?É natural que eu assuma. Sou o único artista no mundo que tem 1,12 m de estatura. Defesa não era, pois comecei menino, não tinha essa noção, entende? Tamanho não é documento foi uma música que fiz quando estava apaixonado por uma menina lá de Ubá, em Minas.
Você acredita que faria o mesmo sucesso se tivesse 1,80 m?
(pausa) E existe o ''se''? Essa palavra muda tudo. Desculpe, mas não trabalho com hipóteses.
Como você vê o papel do anão na TV? Os do ''Pânico'', por exemplo, só levam bordoadas.
O ''Pânico'' não acabou? Eu gostava do programa, mas foi ficando ruinzinho, ruinzinho... O anão ainda é ridicularizado na televisão. E eu não aceito. O anão é uma pessoa que não cresceu, só isso. A minha estatura está em mim como se eu fosse louro, negro ou tivesse os olhos azuis. Não canto porque sou pequeno - eu sou pequeno e canto. Não participo dessas brincadeiras, mas cada um faz o que quer.
O Brasil foi justo com você?
Acho que o exterior foi muito mais. Veja o Chacrinha. Ele gritava: ''Agora Nelson Ned, o cantor que nem cheira nem fede!''. Nasci num programa de televisão ''chapliniano''. O exterior me leva a sério porque lá não existiu Chacrinha. Estreei logo no Carnegie Hall (famosa casa de shows em Nova York) e fui tratado como gente grande (risos).
Para quem você gosta de cantar?
Gosto de cantar para quem me paga, e em dólar. E tem de pagar adiantado. Agora, o cachê não é alto. Os shows têm rareado, sabe? Não só para mim, mas para todo mundo.
Em 1996, você lançou sua biografia, ''O Pequeno Gigante da Canção''. De lá para cá, sua vida daria um livro?
Eu não escreveria... (os olhos se enchem de lágrimas). Seria um livro muito mais forte. Naquela época eu já não estava tão no auge. O sucesso é uma gangorra, entende? Para todo mundo, até para o Frank Sinatra. A vida é assim. O Roberto Carlos, por exemplo, não aceita ter caído. E é normal que ele não aceite, pois seu ego é maior do que ele. O Roberto desapareceu.
Como está sua saúde?
Está em plena recuperação. Quatro anos atrás, tive um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e estive à beira da morte. Minha mulher sofreu demais. Gastei muito dinheiro. Esse episódio, porém, me trouxe aprendizagem e não revolta, como acontece com umas pessoas. Hoje me recupero. Faço fisioterapia duas vezes por semana. Agora, andar por mim mesmo, não vou nunca mais. Tenho de ser levado pela mão e ando com uma bengalinha.
Você se tornou evangélico e abandonou a bebida e as farras. Como foi trocar os melhores uísques e noitadas por uma vida monástica? Não dá saudades daquele vidão?
Graças a Deus, não. Hoje tenho paz. ''Tenho sossego e um bodoque para matar morcego'', como dizia meu pai, Nelson de Moura Pinto. Tenho uma vida calma, mas com problemas de saúde e financeiros.
Já pensou em ser pastor?
Não, vou te explicar o porquê: ser pastor, hoje, é profissão. E eu não trato assim o Evangelho. É tão grande o respeito que eu tenho pela fé, pelo Cristo Ressuscitado, que chego até a tremer (Nelson se emociona)... Sou um homem imperfeito, cheio de cicatrizes por dentro, que o senhor vai moldando aos poucos, se eu deixar. Se não deixar, sofrerei as consequências dessa rebelião.
Essa onda de metrossexual, no caso, nem pensar, não?
Que é isso, filho?
Homens vaidosos e sensíveis que depilam o peito, pintam as unhas, fazem as sobrancelhas no salão...
Filho, isso é veado! (risos)
A vida é como a música? Tudo passa, tudo passará?
Claro. Daqui a pouco você não está mais aqui, nem eu. Tudo passa, tudo passará.


