Nos tempos de paquita, Letícia Spiller foi apelidada pela diretora Marlene Mattos de ''Pituxa Pastel''. Das assistentes de palco do ''Xou da Xuxa'', era a mais distraída e estabanada. ''Coisas de geminiana'', brinca. Hoje, aos 30 anos, a atriz Letícia Spiller se mostra atenta e cuidadosa. Antes de responder a certas perguntas, pensa bastante e estuda cada palavra. Na carreira, ela também é assim. Para aceitar um determinado trabalho, como a ambiciosa Viviane de ''Senhora do Destino'', pondera todos os prós e contras. Na dúvida, sempre se pergunta se já fez algum papel parecido com aquele. ''Gosto de percorrer sempre o caminho oposto ao que já fiz antes. Só assim, sinto tesão em um trabalho'', observa.
Na nova novela das oito, Letícia interpreta a sensual Viviane, que exerce dupla função na vida do Vereador Reginaldo, de Eduardo Moscovis. De dia, ela é assessora parlamentar. À noite, amante. ''A Viviane usa o sexo em proveito próprio. Ela é bem cachorra, do tipo que existe aos montes por aí'', acredita. Além de nunca ter feito uma ''cachorra'' antes, Letícia queria retomar a parceria com o autor Aguinaldo Silva, o mesmo de ''Suave Veneno'', novela que revelou a obstinada Maria Regina, uma de suas personagens favoritas. ''Fiquei triste quando a Maria Regina morreu. No fundo, todo mundo merece uma segunda chance'', lamenta.

Nos últimos anos, você recusou importantes trabalhos na tevê, como ''Hilda Furacão'' e ''O Clone''. Por que resolveu participar de ''Senhora do Destino''?
Olha, participar ou não de um trabalho depende muito do momento. Para falar a verdade, depende de tanta coisa... De tesão, principalmente... Para mim, sempre conta fazer algo diferente do que já fiz antes. Se o novo personagem vier no caminho oposto do anterior, ele vai me instigar, me dar tesão... Foi isso que aconteceu com a Viviane. Ela é diferente de tudo que já fiz. E o diferente, costumo dizer, é sempre mais instigante, desafiador. Mas eu me arrependo, amargamente, de não ter feito ''Os Maias''. Cheguei a ficar doente quando tive de dizer ''não'' ao Luiz Fernando. Para você ter uma idéia, tive febre e dor de garganta no dia. É uma pessoa que admiro muito e com quem eu gostaria de trabalhar de novo.

Além de ''Os Maias'', tem algum outro trabalho que você deixou de fazer e que tenha se arrependido depois?
Ah, tem ''O Clone'' também... Lamentei muito não ter feito ''O Clone'' por causa do Jayme. Queria muito... Queria muito, não. Quero muito trabalhar com ele algum dia. Isso, se ele ainda me quiser. Porque não foi nada pessoal. Foi apenas uma questão de trabalho. Tenho muita vontade de trabalhar com ele, mas, naquele momento, a peça ''O Falcão e o Imperador'', era muito importante para mim. Afinal, o patrocínio tinha acabado de sair. Na época, pensei: ''Caramba, o que eu faço agora? Ferrou...''

Ferrou mesmo. Tanto que a Globo suspendeu você...
Pois é. Mas achei justo. No fundo, adoraria ter feito a Jade. Mas a Giovanna Antonelli mereceu o sucesso que fez. Fiquei muito feliz por ela. A Jade foi para a Giovanna o que a Babalu representou para mim. Serviu para reafirmar o talento dela como atriz. A Babalu também foi muito importante para mim. Foi um presente que ganhei do Lombardi e do Ricardo Waddington. Eles confiaram no meu taco e peguei aquela personagem com unhas e dentes.

E o que a Viviane tem de novo a acrescentar na sua carreira?
Viviane é completamente diferente de mim. Ela é um mulherão sensual, carismática, mas muito ambiciosa também. Ela é uma mulher que arquiteta, engendra, articula... Ela é a mulher por trás do Vereador Naldo da Silva. Para ter poder, ela é capaz de tudo. Também me interesso por política, mas não sou de me engajar em campanhas. Ao mesmo tempo que articula e engendra, a Viviane é uma mulher um tanto simplória, que fala errado, inclusive...

ode-se dizer que a Viviane seja uma autêntica ''cachorra''?
Pode-se, sim. Ela é vulgar mesmo, quase uma cachorra. Cachorra, não. Cachorrona. A Viviane beira o vulgar o tempo todo. Por isso, volto a dizer, ela é tão diferente de mim. Mas ainda estou construindo a Viviane. Na televisão, o ritmo é outro. A gente vai construindo a personagem aos poucos, no decorrer da obra. Para falar a verdade, eu tenho me inspirado mesmo na nossa realidade. Vivo buscando inspiração no que acontece ao meu redor. Em tantas mulheres que estão aí, por trás dos políticos. Eu não vou citar nomes, mas posso dizer que existem muitas Vivianes por aí...

Por ser também uma personagem de forte conotação popular, você acredita que a Viviane pode vir a repetir o sucesso da Babalu?
Ah, não sei. A Viviane é quase uma vilã, né? Já a Babalu era a mocinha da história. Não deve ser a mesma coisa. Mas tomara que ela faça sucesso também. Acredito que vai ter muita gente se identificando com a Viviane. Vai aparecer muita gente na rua com roupa de oncinha, unhas postiças...

O fato de o convite ter partido do Aguinaldo Silva, com quem você fez ''Suave Veneno'', pesou na decisão de fazer a novela?
Sem dúvida, adoro o Aguinaldo! Sempre que leio a novela, digo: ''Caramba, que texto inteligente!''. A novela toda é muito bacana. Por isso, acho que o público vai se identificar. E mais: não tem o compromisso de ser uma novela séria, como aconteceu com ''Suave Veneno''. Talvez por isso, aquela novela não tenha dado certo no contexto geral. Essa aqui, não. ''Senhora do Destino'' é ficção mesmo, assumidamente. Até mesmo a vilã é uma vilã leve, divertida, bem-humorada... Ela é bem povão! Ao contrário da Maria Regina... Mesmo assim, espero me deliciar com a Viviane assim como eu me deliciei com a Maria Regina. Estou apostando muito nela.

Na primeira semana, a Viviane aparece, lânguida, na piscina do hotel com o Naldo. Você já está preparada para o assédio do público, principalmente do masculino?
Já. As pessoas sempre me respeitaram muito. E, se não respeitarem, eu me retiro na hora. Não costumo ter problema com assédio. Só espero que ninguém me xingue nas ruas. Ou que me crucifiquem por causa da Viviane. Afinal de contas, ela vai exagerar um pouquinho na dose. Principalmente no que diz respeito à ambição. Mas a Viviane não deve ser tão odiada quanto a Maria Regina. Pelo menos, espero que não.

E quanto ao assédio das revistas masculinas? Você ainda descarta a hipótese de posar nua?
Na época da Babalu, resisti porque achei que não era o momento. Foi o meu primeiro papel como atriz e achei que a minha imagem poderia ficar estigmatizada. Hoje, dependendo da proposta, aceitaria o convite. Desconfio que deva rolar alguma coisa, até mesmo por causa do apelo sensual da personagem. Mas só faria por muito dinheiro. Quando lembro que tantas pessoas maravilhosas já posaram, quem sabe agora não é a minha vez?

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