ENTREVISTA - 'Não foi algo programado'
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de maio de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
E quando foi publicado seu primeiro livro?
O primeiro livro nasceu de uma peça de teatro. Eu estava cansado de tanto ver ''pecinhas'' de teatro infantis. Era um horror, uma babaquice. E uma vez saí de uma peça dessa e me perguntei ''Eu reclamo tanto desses espetáculos, mas será que seria capaz de fazer uma coisa igual?''. Passei por uma livraria e comprei um caderno e uma caneta Bic. Fui para casa e comecei a escrever uma peça ecológica, infanto-juvenil, que tivesse substância. E escrevi a peça ''Vamos Salvar o Mico-Leão'', que depois mudei o nome. Agora ela já tem o título de ''Artes & Manhãs do Mico-Leão''. A peça se tornou meu primeiro livro editado, nos anos 80. Eu tive sorte, porque mandei o livro para várias editoras e nenhuma se interessou, mas na época o mico-leão dourado estava na lista de extinção, então a Record resolveu publicar. Depois disso, outras peças que escrevi viraram livros, como ''A Grande Guerra da Dona Baleia'' e depois ''O Planeta Água'', que encerra a trilogia. Então escrevi ''O Dia em que o Homem Voou'', que estou lançando agora e que marca meu retorno pela Record. É uma sátira sobre quem teria voado primeiro. Ele surgiu como um livro adulto, mas a editora pediu que eu desse uma aliviada em algumas partes e agora ele pode ser lido por todas as idades.
O senhor falou de sorte, o episódio das bengaladas pode ser considerado sorte?
Sorte para uns, azar para outros. Foi um grande azar que aconteceu na vida do ex-ministro José Dirceu. Foi azar para ele e ele mesmo reconheceu. Tem um momento crucial nesse episódio, que foi registrado: depois de eu ter dado as três bengaladas nele, chamado-o de Fristão, que é o feiticeiro que incomoda o Dom Quixote, transformando os atos heróicos dele em gozação. Ele disse: ''só me faltava mais essa''.
Azar pra ele, sorte para o senhor? Ou foi um episódio programado?
Eu não diria sorte. Eu diria que aconteceu. Evidente que me colocou num patamar diferenciado. Agora, de jeito nenhum foi algo programado. E mesmo que fosse, nunca poderia ter se consumado da maneira que foi porque foram apenas segundos. Como eu poderia dirigir isso mentalmente? Mesmo que dissesse 'naquele segundo vou estar lá', isso não se programa. Até em teatro é difícil acontecer. Agora, aconteceu e bem acontecido. Eu me orgulho, embora esteja triste em ver que meu país está nessa situação. Não sei se dramática ou caótica ou tudo junto, mas sei que é inimaginável.
O José Dirceu registrou alguma queixa contra o senhor?
Não. Já naquela época, conhecendo o seu passado, eu sabia que ele não faria isso.
E esse episódio ajudou o senhor a se projetar?
Ajudou um pouco, mas também me prejudicou. Eu tinha uma peça para ser encenada naquela época, sobre a situação política do país. Era uma sátira e eu obviamente trocava o nome das pessoas envolvidas, mas não pude encenar mais por conta da repercussão que teve as bengaladas. Decidi adiar. Agora ainda não temos prazo para encená-la.


