Ator desde os 15 anos, Wagner Moura, aos 31, vive um momento glorioso de sua carreira. O Brasil inteiro ficou grudado em suspense diante da TV para assistir ao final de ''Paraíso Tropical''. Para muitos, a grande pergunta não era ''Quem matou Taís?'' e, sim, ''Olavo vai ficar com Bebel?''

O empresário mau-caráter e a garota de programa caíram no gosto do público e o público torceu para que eles ficassem juntos. Além dos altos indíces de audiência da novela recém-acabada, outra faceta do talento de Wagner Moura tem dado o tom da discussão no cinema brasileiro.

Ele faz o capitão Nascimento de ''Tropa de Elite'', o filme polêmico de José Padilha que virou a sensação do ano. O êxito de ''Tropa de Elite'' tem sido anunciado por vários indicadores. Nas sessões especiais, como a que abriu o Festival do Rio na quinta-feira da semana passada, o capitão Nascimento foi aplaudido em cena aberta quando mata e tortura traficantes nos morros do Rio.

Pirateado, calcula-se que ''Tropa de Elite'' já tenha sido visto por 3 milhões de pessoas. Muita gente garante que isso não vai impedir o filme de se transformar no sucesso do ano, quem sabe no sucesso do cinema brasileiro da Retomada, a fase que começou há 12 anos.

Na última segunda-feira, Wagner Moura conversou sobre tudo isso com a reportagem. Ele havia marcado a entrevista para o meio-dia, no café do Parque Lage, no Jardim Botânico. ''Moro aqui perto e este é um lugar que visito bastante. Tem um café da manhã ótimo e gosto de sentar aqui nestes bancos com meu filho. Leio, brinco com ele, me dá muita paz'', disse. Ele veio caminhando, ainda sonado.

Questionado se teria alguma explicação para a grande empatia do público em geral com o casal amoral - formado pelos personagens Olava e Bebel, Moura foi enfático: ''Não sou sociólogo para ficar opinando sobre isso, mas tem um lado técnico que eu acho importante destacar. É o humor. No início, nem Olavo nem Bebel tinham muito humor, não. Foi algo que descobrimos e desenvolvemos, Camila (Pitanga) e eu. Os autores começaram a escrever cada vez mais pensando no humor''.

Apesar de ser um dos atores mais badalados atualmente, o sucesso não mudou o perfil de Wagner. Baiano, de Salvador, continua boa-praça - e ralando. ''Ralo desde os 15, bróder. Comecei no teatro com essa idade. Há seis vim para o Rio com 'A Máquina'. Viemos eu, Lázaro Ramos, Vladimir Brichta. Continuo ralando, mas a diferença é que agora ganho um pouco mais.''

Sobre o ''Tropa de Elite'', você concorda com a opinião de que o filme seja fascista?
É absurdo esse debate criado em torno do filme. Padilha (o diretor José Padilha) é um humanista que fez ''Ônibus 174'', pô. Como um cara desses pode ter feito um filme fascista?

Digamos então que o filme estimula o fascismo das pessoas. Na sessão de abertura do Festival do Rio, o público queria sangue e gritava ''mata!'', sempre que o Capitão Nascimento estava torturando traficantes.
Outra coisa que se discute é se o capitão Nascimento é um herói. Nem o filme é fascista nem ele é um herói. Acho que o que há é um olhar torto do público. As pessoas sentem-se tão inseguras, tão desprotegidas que embarcam em qualquer promessa, mesmo que mínima, de segurança. ''Tropa de Elite'' está provocando esse bochicho porque é o filme certo na hora certa. O que o Padilha discute é a falência do sistema de segurança no País. E não só. Ele discute o papel da classe média diante do tráfico. Quando Nascimento esfrega a cara do boyzinho no sangue do traficante morto, ele está chamando a classe média à responsabilidade. Se não houvesse consumidores, não haveria tráfico.

O filme discute a corrupção da polícia comum. Ao mesmo tempo, documenta a violência do Bope (Batalhão de Operações Especiais). Como foi vestir a farda e subir o morro?
Havia um acordo com o movimento (o tráfico) para que a gente pudesse filmar. Num determinado momento, ele foi rompido e as armas da produção foram roubadas, mas nunca senti que corria risco de morrer, por exemplo. Havia tensão, alguns oficiais do Bope tentaram impedir a exibição do filme, mas, cara, a maioria da polícia e do Bope é a favor. Os integrantes do Bope amam o batalhão e acham que o filme divulga o trabalho deles. A polícia comum acha que o filme explica por que eles são corruptos.

Nascimento é um homem em crise. Quer salvar a família e o batalhão, arranjando um substituto para ele mesmo no Bope.
Tem gente que acha o filme fascista e o Nascimento, um herói porque o humanizo. É meu papel como ator. Entender e humanizar esse cara que, apesar de toda sua violência, é humano. Saí do set de ''Saneamento Básico - O Filme'' e caí no meio da preparação de ''Tropa de Elite''. Foi a coisa mais doida, aquilo mesmo que está no filme, em relação aos novos aspirantes. Meu filho tinha nascido, era a mesma situação do Nascimento no filme. A diferença é que quando chegava em casa, após um dia extenuante de filmagem, olhava meu filho no berço e isso me dava muita paz.

Sua carreira teve um desenvolvimento extraordinário nos últimos tempos. É um sucesso atrás do outro: ''Cidade Baixa'', ''JK'', ''Paraíso Tropical'', ''Tropa de Elite''. Qual é a fórmula?
Trabalho, e sorte. Todo aquele pessoal da ''Máquina'', o Lázaro, o Vladimir e eu estamos colhendo um pouco o trabalho do nosso esforço. Mas foi duro, meu irmão. Não pensa que foi mole, não.

Você diz que Olavo só deslanchou na novela por causa do humor. Você imaginava que o personagem teria essa repercussão toda?
Digamos que ele superou minha expectativa, mas Gilberto Braga criou alguns dos maiores vilões e vilãs da história da TV brasileira. Fazer um vilão numa novela dele é muito mais interessante, e estimulante, para qualquer ator, que o mocinho. O vilão provoca. O mocinho, como poço de virtudes, é um chato.

Suas cenas com Bebel possuem alto apelo erótico. Em uma das cenas você a chamou de cachorra, esculachou, mas as mulheres não acharam vulgar. Tem gente dizendo que você virou mito sexual...
Cara, eu? Não sei nem como responder a isso. Acho legal as pessoas curtirem os diálogos, as cenas, mas mito sexual? Sou casado, um homem de família, não sou boyzinho para posar de gostoso.

O ''Tropa de Elite'' estréia dia 12. Qual será o dia seguinte de Wagner Moura?
Vou tirar férias com a família, depois volto ao teatro. Foi lá que comecei, é lá que me alimento, que ganho energia. O teatro é a arte do ator, não o cinema, não a TV.

E o que você vai fazer?
Hamlet, com direção de Aderbal Freire Jr., no ano que vem.

Por quê?
Porque é a melhor peça já escrita. Shakespeare é tudo.

Mas daqui a 30 anos você vai chegar à conclusão de que Rei Lear é melhor ainda.

Bacana. Vou ter mais um grande papel e texto para sonhar.

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