Curitiba - Lourenço Mutarelli é um fenômeno das histórias em quadrinhos brasileiras. O autor saiu das páginas de sombrios quadrinhos independentes, no final dos anos 80, para conquistar um público fiel e hoje tem álbuns traduzidos em Portugal e na Espanha. Hoje ele também começa a ser respeitado como escritor de romances e mostra versatilidade em trabalhos para o cinema e para a internet.
Mutarelli começou com fanzines, enquanto ainda trabalhava nos estúdios de Maurício de Sousa, em meados de 80, e só chegou ao grande público brasileiro de quadrinhos através do álbum ''Transubstanciação'', em 1991. De lá pra cá, os fãs se acostumaram com suas histórias mórbidas e melancólicas, muitas vezes em tom de horror surrealista.
Durante toda a década de 90, Mutarelli continuou produzindo material considerado obscuro por muitos, ainda mais porque demorava a lançar histórias novas e, quando isso acontecia, as revistas acabavam indo sempre para um público direcionado. Em 1999, o autor deu início a uma nova fase, com ''O Dobro de Cinco'', um romance gráfico policial que marcou seu trabalho devido ao roteiro mais acessível, linear, e aos personagens, ainda doentes, porém mais articulados, sociáveis e até generosos.
Em seguida, escreveu seu primeiro romance, ''O Cheiro do Ralo'', que vai ganhar versão cinematográfica no ano que vem. Recentemente, produziu animações para o filme ''Nina'', dirigido por Heitor Dhalia e estrelado por Guta Stresser, e lançou o álbum ''Mundo Pet'', uma coletânea de curtas histórias coloridas feitas para o site www.cybercomix.com.br.
Mutarelli esteve na Itiban, loja especializada de quadrinhos em Curitiba, durante o último final de semana, para uma sessão de autógrafos de seu novo álbum, e participou também de um debate na 16 edição do evento cultural Perhappiness. A Folha aproveitou para bater um papo com o autor, que falou um pouco mais de suas produções e de seus futuros projetos.

O que muda para os artistas explorar outras linguagens?
Muda a necessidade da expressão, a linguagem. Os quadrinhos são muito desprestigiados, ainda existe um preconceito muito grande. E literatura e cinema abrem muito mais possibilidades. O que eu queria no fundo é atrair mais atenção para os quadrinhos. Mas é sempre legal explorar linguagens, experimentando.
De ''Transubstanciação'' para cá, qual foi a maior mudança?
Foi o ''Cheiro do Ralo''. Nesse tempo consegui desenvolver maior sutileza, uma coisa que faltava para o meu trabalho. Um pouco de sutileza, um pouco de humor, menos rancor na maneira de ver as coisas.

Muita gente lê e sente esse rancor que você mesmo citou. Você é uma pessoa feliz justamente porque faz ''compensar'' através dos quadrinhos?
Exatamente, é totalmente terapêutico. Como consigo drenar, extravasar, fico tranquilo. Tanto é que quando fico muito tempo sem trabalhar, começo a ficar muito mal, preciso estar envolvido com algum projeto.

E com relação ao leitor, você também sente mudanças?
Acho que fiquei mais saudável e o mundo mais doente. Meu trabalho hoje é muito mais aceito. O público mudou, até mesmo os desenhos animados que você vê na tevê estão extremamente doentios.
Com que autor você se identifica?
Adoro o Miguelanxo Prado (quadrinista espanhol), tive a sorte de conhecer, de conversar com ele, ganhar um original. Não sei até que ponto nosso trabalho tem a ver mas quando li, o trabalho dele me tocou muito.

Como você vê essa nova experiência, no cinema, com ''Nina''?
Ficou muito legal, todos foram muito fiéis à minha idéia. O filme foi premiado lá fora e todos os festivais comentam as animações. Fiquei feliz com o meu trabalho, que é o que busco.

O que você está pensando em fazer daqui pra frente?
Vou lançar dois livros, romances. Um em outubro, chamado ''O Natimorto'', e outro em novembro, que se chama ''Jesus Kid''. No começo do ano, começam as filmagens de ''O Cheiro do Ralo'' e também a apresentação de uma peça de teatro que escrevi para a Companhia da Mentira, um grupo de São Paulo. Estou terminando ''A Caixa de Areia'', um álbum de quadrinhos e tenho umas idéias novas, para depois.
Você hoje é quadrinista e escritor. Você sente falta das imagens quando está produzindo um romance?
Não, pelo contrário. Quadrinhos são muito trabalhosos, levo um ano para fazer um álbum de 100 páginas. E todos os livros que escrevi, os três, inclusive a peça de teatro, não levei um mês para terminar. Coisa de cinco, 15, 20 dias, e já sai pronto. Não senti falta das imagens porque é um mergulho muito rápido, muito prazeroso e menos desgastante do que fazer quadrinhos.

E o que é diferente em relação ao público de quadrinhos?
Quando comecei quadrinhos fui muito renegado pelo grupo de quadrinistas que existia. Eles fizeram o máximo para que eu não entrasse no grupo. E o que me tocou foi que na literatura, que é uma coisa que respeito profundamente, as pessoas foram extremamente generosas comigo.

O que você não faria atualmente?
Tento evitar ilustração. Estou em crise com meu desenho, estou repensando meu desenho. Estou evitando, a não ser que seja algo que me interesse. Não faria de jeito nenhum ilustração de RPG (Mutarelli desenhava para publicações de Role Playing Games em 1998), que fiz por muito tempo por necessidade e que nunca gostei do que fiz, fazia mal feito.

Onde você acha que poderia chegar?
Nunca imaginei que chegaria onde cheguei, com trabalhos de quadrinhos traduzidos em outros países. Nunca imaginei que nada disso pudesse acontecer, sempre me subestimo muito. Estou vivendo o melhor momento de minha vida. O começo foi difícil mas agora tá legal, tá bom.

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