ENTREVISTA - Muito além do factual
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de dezembro de 2004
Júlio Maria<br> Agência Estado 
Suas reportagens primeiro viraram livros. Seus livros, agora, estão virando filmes. O cinema brasileiro não tem sido o mesmo desde que descobriu Fernando Morais. Repórter premiado e escritor de biografias cinematográficas como ''Chatô'' e ''Olga'', Morais vendeu mais de 2 milhões de títulos publicados em 20 idiomas. ''Escrevo para ser lido por todos'', diz. ''Corações Sujos e ''Cem Quilos de Ouro'' serão suas próximas obras a virar filme.
Em entrevista, o escritor fala da bombástica biografia que faz há oito anos sobre Antônio Carlos Magalhães, defende o ator Guilherme Fontes da ''carnificina da imprensa'' e conta como foi que quase entrevistou um barbudo que financiava terroristas no Sudão chamado Osama Bin Laden.
Qual a última frase que o senhor escreveu?
(Se levanta e vai ao computador). Aqui: ''Brasileiro, filho de pai americano e mãe paulistana, o competente Laurence trazia sangue de artista nas veias.''
E do que se trata?
Estou escrevendo a história da agência de publicidade W/Brasil. Laurence Klinger é um redator que trabalhava com o Washington Olivetto na DPZ. O livro conta como três pessoas tão diferentes montaram a W/Brasil, uma das agências de propaganda mais premiadas do mundo.
Que livros o senhor está escrevendo atualmente?
Não consigo fazer um único trabalho. Seria a mesma coisa de você como jornalista cobrir a Xuxa a vida inteira. Faço ao mesmo tempo a biografia de Antônio Carlos Magalhães, a história da W/Brasil e a história do Marechal Casimiro Montenegro, um personagem fascinante, o homem que montou o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e a Embraer. Um outro projeto que tenho é uma pequena biografia do coronel Hugo Chávez (presidente da Venezuela). Vou passar umas três semanas com ele.
Seu livro ''Corações Sujos'' vai virar filme?
Sim. Falei com o Vicente Amorim, que dirigiu ''Caminho Para As Nuvens''. Ele vai dirigir ''Corações Sujos''. Cacá Diegues comprou os direitos para produzi-lo.
E ''Chatô''? Vai virar filme?
Está praticamente pronto. A novela terminou. Está pronto.
Está ou o senhor fala isso ...
Não, está pronto sim. Eu tenho falado com o Guilherme Fontes.
O senhor foi um dos defensores do Guilherme.
Sou um defensor dele. O que fizeram com o Guilherme foi uma carnificina, algo inacreditável. A imprensa, de vez em quando, precisa de uns cachorros mortos para chutar. E ele foi o cachorro morto daquela temporada. Minha filha um dia me perguntou: ''Pô pai, mas o senhor confia tanto no Guilherme...''. Eu respondi: ''Se um dia eu souber que ele meteu a mão em dinheiro público, minha surpresa será tão grande quanto seria para você se descobrisse que eu fiz isso.'' Bobagem. Ele não tinha dinheiro. Me ligou meses atrás dizendo que estava desesperado. Faltava uma titica para terminar o filme, R$ 30 mil. Falei para ele: ''Por que você não vende aquele seu carro?'' Ele tem um daqueles jipões grandes. Ele me respondeu: ''Eu já vendi faz tempo''.
Mas o que explica tanta demora em terminar o filme?
Não sei.
Como autor, o senhor não se frustra ao ver uma história dessas se arrastar por tanto tempo?
Não adianta forçar a barra. Foi para ele que eu vendi. Recusei propostas do Barretão (Luis Carlos Barreto), recusei proposta estrangeira.
Nunca se arrependeu?
Nunca. Mas enquanto ''Chatô'' atrasou, ''Olga'' ficou pronto em duas semanas.
O senhor viu ''Olga'', claro...
Mais de 20 vezes
O ''Olga'' que o senhor viu na tela é o mesmo ''Olga'' que o senhor escreveu?
Só fui ver o filme relaxado quando o Jayme Monjardim (diretor) fez uma exibição para o Lula, em Brasília, e me chamou para assistir. Não havia nada que fosse uma desfiguração da história.
A simplificação no cinema não o incomodou?
Mas não tem jeito. Uma vez perguntei ao Jorge Amado o que ele achava das adaptações de seus livros para cinema e TV. Ele disse: ''Olha, só te dou um conselho: não veja o filme, não assista à novela. É outro produto.'' Então, você tem que considerar as chamadas licenças dramatúrgicas. Não há nenhuma desfiguração do ''Olga''. Uma passagem gerou polêmica. É o momento em que o Prestes está preso e o Filinto Muller (chefe da polícia de Getúlio Vargas) chega pela janela da cadeia e insulta ele, provoca. Eles, Prestes e Filinto, nunca se viram.
Por que livro é sempre melhor do que filme?
Nesse caso eu não sei não. É natural alguém gostar mais do filme do que do livro. Estou tentando lembrar de alguma história que eu tenha gostado mais no filme. Estou tentando lembrar aqui. É... curioso.
Escrever livros que viram filmes não pode fazer o senhor se tornar um escritor que escreve livros para virarem filmes?
Não tem perigo. Se você olhar, eu escrevo assim há muito tempo. O caso dos ''Cem Quilos de Ouro'' foi escrito em 1988. Há 20 anos praticamente não havia cinema no Brasil.
O importante é daqui pra frente. O senhor descobriu que o cinema adora suas biografias.
Não muda nada. Ninguém nunca tinha me perguntado isso. O que me perguntam geralmente é o contrário. Se eu escrevia esses livros pensando em cinema. Jamais penso nisso. É claro que há um truque que aprendi nas redações de jornal sobre a abertura da matéria. Eu quero sempre agarrar o leitor na primeira oportunidade.
O que muda quando o senhor escreve a história de alguém que está vivo?
Se eu tivesse convivido um dia sequer com a Olga ou com o Chatô, meus dois livros seriam infinitamente mais ricos do que são. Uma coisa é alguém me contar como você é, outra coisa é eu te ver. Há oito anos eu ando ao lado de Antônio Carlos Magalhães. A cada semestre que passa ele me dá um capítulo novo. Disseram que estou esperando ele morrer. Só estou esperando ele parar de me dar capítulos novos.
A biografia não termina quando o cidadão morre?
Não, imagina. A biografia acaba quando a pessoa pára de produzir informação para ela.
Existem episódios polêmicos da vida de Antônio Carlos Magalhães, alguns que o relacionam a crimes. O senhor está disposto a publicar...
Tudo o que eu apurar. Só havia uma única questão para eu escrever este livro: Antônio Carlos Magalhães não lerá os originais. Eu publicarei aquilo que é meu juízo. Vai entrar no livro aquilo que eu achar importante. Vou ouvir todo mundo, inclusive seus inimigos se for o caso.
Se for o caso, o senhor pode romper com ele?
Não se trata de romper, não sou aliado dele. Ele topou. Olha, deixa eu te falar uma coisa. Ele está tendo uma confiança em mim que, se fosse o contrário, não sei se eu teria. Se eu fosse ele, eu diria: ''Puxa, mas esse cara é de esquerda, fez 'Olga', conhece Fidel Castro.'' Ele abriu todo o arquivo para mim sem censura. Eu trouxe da casa dele sete malas de papel com 50 anos de registros e anotações que ele teve com fulano, beltrano. Está tudo na memória do meu computador.
O senhor não teme a passionalidade de Antônio Carlos Magalhães caso ele não goste do livro?
É claro que eu não estou escrevendo sobre Madre Teresa de Calcutá ou Irmã Dulce. Escrevo sobre um dos personagens mais fascinantes da política brasileira dos últimos anos. Jornalista que não se interessa pela vida de Antônio Carlos Magalhães tem que mudar de profissão. Vai ser DJ, monta uma alfaiataria, uma loja de CDs.
Qual foi a maior entrevista que o senhor não fez?
Há alguns anos eu tinha um amigo que era do MR8 chamado Eduardo Fernandez. O Edu tinha relações muito boas no Oriente Médio. Numa de suas passagens por Paris, ele foi jantar em casa e disse que havia um saudita que vivia no Sudão, milionário, que o pai havia tido 30 filhos e que havia deixado U$ 100 milhões para cada um. Esse cara tinha uma indústria de peles de cabra para exportar e sustentava algumas organizações terroristas. O nome do cidadão era Osama Bin Laden. Mandei a sugestão para uma pessoa aqui no Brasil. E ele me respondeu que isso parecia matéria do ''Fantástico'''. Que não lhe parecia coisa séria.
Quem foi a pessoa que te respondeu isso?
Nem no pau de arara. Pode até desencampar os fios que isso eu não conto.
Música que vende muito é música suspeita. Filme que é muito visto é filme suspeito. Livro que vende muito é suspeito?
Na USP é. Na USP, na PUC... Para mim, não. Escrevo para ser lido pelo maior número de pessoas, sem concessão. Eu poderia escrever história de sacanagem, ganharia muito mais. Mas prefiro escrever sobre História do Brasil, onde às vezes tem muito mais sacanagem.


