ENTREVISTA - Muito além da escuridão
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de maio de 2005
Danielle Araújo<br> TV Press 
Há anos, o ator Marcos Frota não se empolgava tanto com um papel em novelas quanto agora. Assim que recebeu o convite de Glória Perez para fazer o Jatobá de ''América'', tratou logo de reduzir boa parte de seus compromissos profissionais, como apresentação de eventos e a participação no circo. A partir de então, todos os espaços livres de sua agenda foram dedicados integralmente ao personagem. Entre outras coisas, aprendeu atividades práticas típicas do dia-a-dia de um cego, como manusear uma bengala e conviver com um cão-guia. ''Eu me disponibilizei completamente. Fiquei inúmeras vezes pensando em como seria o Jatobá. Tudo para chegar no set e dominá-lo'', explica, com um indisfarçável brilho nos olhos.
Embora faça um cego espirituoso e nada derrotista, foi por muito pouco que Marcos Frota não o deixou depressivo e amargo. Aliás, essa foi uma das maiores dificuldades que ele enfrentou na hora da composição do personagem. Em pouco tempo, no entanto, conseguiu explorar outras nuances do Jatobá. ''Ninguém é cego por opção. Esse era o ponto-chave. Mesmo já sabendo o 'tom' exato do personagem, me dou nota sete. Ainda, tem muita coisa que me escapa'', avalia.
Aos 50 anos de idade e 25 de carreira, o ator gosta de falar da vida, do trabalho e da importância da profissão. Em tom tranquilo, acredita que todos os seus projetos que deram certo foi porque foram feitos com paixão. E é justamente por ''estar apaixonado'' pelo Jatobá que acha que vai fazer um bom trabalho.
Você interpretou um surdo-mudo em ''O Sexo dos Anjos'', um deficiente mental em ''Mulheres de Areia'' e, agora, faz um cego em ''América''. A que você atribui essa inclinação para tipos que lutam para superar seus limites?
Consigo explicar assim: é um querer terreno com uma vontade divina. Me coloquei em direção a isso e de repente se aproximou. E o mais engraçado é que todos eles vieram em ótimos momentos da minha vida. Atualmente, realizo um projeto no meu circo chamado ''Universidade Livre'', que tem o espetáculo ''Somos Todos Brasileiros'', integrado só por pessoas deficientes, como carro-chefe. Ao me envolver com isso, resolvi ser um pouco mais útil a essa causa. Não sou político, nem empresário e também não tenho nenhum interesse oculto por trás disso. Só que a única maneira que encontrei para me aproximar mais desse assunto foi interpretando um personagem. Comecei a desenvolver esse querer dentro de mim e em seguida a Glória Perez me ofereceu o Jatobá.
Mas de que maneira interpretar um cego pode ser útil para a sociedade?
Mesmo que a novela seja uma obra de ficção e passageira, as pessoas se identificam com os personagens dela. Por isso, ao assistí-la começam a dialogar mais sobre o assunto. Lembro o que a Glória fez em ''O Clone'' em relação às drogas. Ela não resolveu o problema das drogas no Brasil, mas essa questão entrou dentro das casas. Então, os pais que tinham dificuldade para tocar nesse assunto com os filhos, drogados ou não, tiveram um estímulo. Não quero levantar bandeiras, apenas colocar esse tema mais em pauta nas mesas dos brasileiros. Acredito que ao promover espontaneamente essa discussão vamos ter cada vez mais um país melhor. Sem demagogismo. Até porque a sociedade brasileira já percebeu que também tem de fazer a sua parte. Não adianta deixar essa obra só nas mãos dos políticos.
E como você se preparou para ''fazer a sua parte''?
Estou há seis meses me preparando. Primeiro passo que tomei foi desmistificar essa questão de que cego não pode ter uma vida normal. Isso foi uma preparação interna que fiz para não fazer um cara todo armado. O segundo foi conhecer cegos de todos os níveis. Inclusive, famílias que têm deficientes visuais em casa. Depois, fiz alguns exercícios sozinho. Apaguei todas as luzes e me movimentava no escuro para ter uma noção de espaço. Durante o dia colocava venda nos olhos. Ia ao banheiro, comia, dava cabeçada na parede, caía... Mesmo assim, estava indo muito bem. Mas foi só a preparadora de elenco, Paloma Riani, me procurar para todo meu treinamento desmoronar. Isto porque ela me avisou que eu ia fazer o Jatobá de olhos abertos. Imagina!?. Minha preparação era toda baseada em olhos fechados. Nossa, entrei em desespero porque de uma certa maneira tive de recomeçar o meu trabalho.
E como o público tem reagido ao Jatobá?
Acho que o fato dele ser um cego que pega onda, que namora, que tem um cachorro, faz com que o público simpatize com ele. As pessoas dizem: ''Ah, o Jatobá é tudo de bom. Fico impressionado com alegria dele''. Já tenho um tempo de carreira, então não é aquela tietagem maluca. Mas desde o Tonho Da Lua não sou parado tanto nas ruas. Notei que esse tipo de personagem não gera nenhum preconceito. Muito pelo contrário. Sinto que o público respeita muito mais. Por isso, topo fazer esses papéis de coração aberto. Sem contar que aprendo muito.


