ENTREVISTA - 'Muita gente vai espernear com o filme', diz Padilha
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quinta-feira, 07 de outubro de 2010
Fernanda Brambilla<BR> Agência Estado 
Três anos, 2,5 milhões de espectadores (na contagem oficial) e um Urso de Prata no Festival de Berlim separam o primeiro e explosivo ''Tropa de Elite'' da sequência que chega hoje aos cinemas: ''Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro''. Criador de um dos personagens mais polêmicos do cinema nacional, José Padilha, 43 anos, se desdobrou para manter em segredo o desfecho do capitão Nascimento, agora coronel, até o lançamento. Criador e criatura se reencontram e o alvo do cineasta desta vez são os políticos. Em conversa com a reportagem, o diretor carioca falou de pirataria, da tentativa de suborno por parte de um PM e do tema do seu próximo longa: a corrupção.
Depois do turbilhão do ''Tropa 1'', qual a sua expectativa?
Fazer com que o filme não seja visto de forma errada, num DVD de baixa qualidade. A gente tomou uma série de medidas pra coibir a pirataria e deu certo. Desta vez, não vai rolar pirataria.
Guardou segredo dos atores?
Filmagem de ''Tropa de Elite'' é um evento. Set grande, muita gente, cenas de ação grandes, várias câmeras, helicóptero... Uma equipe fez a segurança no set. Falei para os atores: ''Vamos segurar a onda, manter nas quatro linhas''. Tá todo mundo cumprindo.
Mudou sua relação com o Wagner Moura?
Nossa relação é a melhor possível. Ele é uma figura fabulosa e um grande ator. Conversamos bem mais sobre esse filme. Agora, nós estamos falando de um personagem muito popular.
O Nascimento praticamente ganhou vida própria.
O capitão Nascimento virou uma caricatura fora do universo do Tropa. No filme, ele tem síndrome do pânico, tem medo de subir a favela. Mas no imaginário popular, ele é o Rambo. No filme ele não é o Rambo. Wagner e eu trabalhamos pra lidar com as duas dimensões. Vamos brincar com o imaginário popular.
Hoje, com o segundo filme terminado, pensa no ''Tropa 3''?
Não. Você vai ver o filme e vai entender. Tá feito.
O que mudou na sua vida depois que você virou o diretor do ''Tropa de Elite''?
Não mudou nada. Eu fico em casa, não saio à noite, fico lendo. Você não me vê em festa, não vou a camarote de ninguém. Eu gosto de ficar em casa, com a minha família, brincando com o meu filho. As pessoas não sabem quem eu sou. Na rua, ninguém me pede autógrafo. De vez em quando, as pessoas me reconhecem no Maracanã, em jogo do Flamengo. Não sofro assédio.
Mas ter um Urso de Prata tornou as coisas mais fáceis?
Quando você faz um filme que dá certo, mais gente vê seu trabalho, fica mais fácil. Você pega o telefone, liga, e o cara te atende (risos). Eles te mandam roteiro lá de fora. Muda o entorno. Mas se você deixar o entorno mudar o conteúdo, você se ferra. Se achar que, por causa disso, você ficou melhor do que era, você tá mal. É uma ótima maneira de se perder.
O fato de não poder filmar na Câmara dos Deputados, em Brasília, te chateou?
O que eu ouvi é que existe uma regra no Parlamento que proíbe filmes lá. A Sabrina Sato pode filmar lá. Um cineasta não pode. Se daqui a seis meses rodarem um filme lá, vou achar que é censura. Vou reclamar e espernear.
Então, você ficou chateado.
Fiquei um pouco chateado, sim. Mas nunca me disseram que a preocupação era com a imagem do Congresso. Isso seria burrice, porque eu posso reproduzir igual e filmar. Eu imito o que eu quiser. É que nem o deputado (Alberto Fraga, do DEM-DF) que acha que é personagem do filme. Nada a ver, só se chama Fraga...
Mas é curioso ele ter achado...
Deu o maior samba do crioulo doido em Brasília. Houve um debate no plenário, engraçado pra caramba, no qual o José Genoino disse: ''Temos de investigar esse filme. Não podemos deixá-lo achincalhar uma instituição brasileira''. Isso é grave! O cinema pode, sim, achincalhar instituições brasileiras e ninguém tem nada com isso. Posso achincalhar quem eu quiser. É ficção. Se quiserem me achincalhar no congresso, eles também podem.
O que pode adiantar do ''Nunca antes na história desse país'', seu próximo filme?
Ah, desse todo mundo conhece a história, que é o mensalão (risos). O Nunca antes não se limita à segurança pública. Vai mostrar que o comportamento da classe política não influencia de maneira negativa só segurança pública, mas saúde, educação...
No ''Tropa 2'', o foco também é mais direcionado ao Estado?
Teve gente que viu o ''Tropa de Elite'' e entendeu a má administração. Teve gente que pensou: ''Caramba, olha como é o Bope'' . Teve gente que viu a corrupção. Teve gente até que reclamou da maconha. Mas eu só mostrei que o usuário compra droga do traficante armado da favela. Isso é um fato. O ''Tropa 2'' não se reduz ao Rio de Janeiro. É nacional. Não existe bula pra ver o filme. Não tem posologia. Eu faço cinema sem bula. Público é inteligente, não pensa como manada, como fazem a gente crer.
Seu filho, Guilherme, entrou na onda do Capitão Nascimento?
Meu filho é pequeno, tem apenas 7 anos, não gosta de filme de arma. Ele fica com medo. Mas na filmagem do ''Tropa 2'' aconteceu uma coisa engraçada. Ele tinha acabado de ganhar uma pistola de água e pediu pra ir assistir à filmagem do Nascimento. Chegou lá, levou a arminha para o Wagner e falou: ''Toma, usa essa aqui.''
Teve alguma situação envolvendo polícia que foi estranha?
Durante o ''Tropa 2'', aconteceu o que acontece normalmente com a polícia do Rio de Janeiro. É normal você estar filmando com autorização e vir um policial criar dificuldades. Isso é normal. O cara chegou, falou que não podia, mas disse: ''Vamos acertar...''
Isso aconteceu no ''Tropa 2''?
Estávamos filmando na Barra da Tijuca, com um carro que o Bope cedeu pra gente, com dois policiais do Bope de verdade. Aí chegou um PM e disse que não podíamos filmar lá. O Batista, major do Bope que estava ajudando a gente, foi lá conversar com o PM, mas nada do cara sair de lá. E o tempo do set passando. Tempo valiosíssimo, R$ 100 mil por dia. Fui falar com ele, e ele me deu o maior esporro. O major do Bope viu e veio tirar satisfação. Com um fuzil do Bope na mão. E não é que o PM deu esporro nele também? Achou que era um figurante! Os dois quebraram o maior pau. O PM quase foi preso por tentar pegar dinheiro da gente.
É interessante estrear em meio à eleição presidencial?
Vai depender se teremos segundo turno ou não... (A entrevista foi concedida antes da eleição) Alguma coisa vai ter, mas não sei dizer o que. Só vamos saber quando o filme estrear. Muita gente vai espernear com o filme. Mas fazer o quê? No Brasil, todo mundo leva filme a sério. Graças a Deus.


