ENTREVISTA - Maturidade artística
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segunda-feira, 09 de janeiro de 2006
André Bernardo<br>TV Press 
Até pouco tempo, o ápice da satisfação para Cauã Reymond era pegar um bom ''tubo'' equilibrado sobre uma prancha. No linguajar dos surfistas, a manobra consiste em atravessar um túnel d'água. O conceito de prazer de Cauã, porém, mudou bastante. Embora continue em busca da onda perfeita, ressalva que, hoje em dia, uma boa cena vale mais que tudo. Quando ela vem acompanhada de um elogio de Irene Ravache ou Leopoldo Pacheco, então, melhor ainda. ''Tenho de correr atrás, ainda mais numa novela com tanta gente boa. Você não vê um Lima Duarte mandando mal. Para ele, não tem tempo ruim'', brinca.
A mudança no conceito de satisfação de Cauã Reymond coincide com o seu atual momento profissional na tevê. Na novela ''Belíssima'', de Sílvio de Abreu, ele interpreta aquele que considera, desde já, o seu mais complexo trabalho em modestos quatro anos de carreira: o michê Mateus. Para não fazer feio em sua primeira incursão no horário das oito, saiu às ruas para conversar com inúmeros garotos de programa. ''Muitos deles nem precisariam fazer programa para sobreviver. Só entraram nessa por causa do vício. Aí, começam a vender o corpo para conseguir droga'', lamenta o ator, de 25 anos..
Nove entre dez atrizes sonham em interpretar uma prostituta. Com os atores, acontece a mesma coisa?
Acontece, sim. Sempre sonhei em interpretar um tipo desses, manipulador e amoral. Graças a Deus, tive a felicidade de interpretá-lo na idade certa. Já imaginou? Daqui a alguns anos, não vou ter idade para isso... Não poderia esperar nada melhor para 2005 e 2006. Fiquei feliz quando soube que o Silvio de Abreu escreveu o personagem para mim. E mais ainda quando soube que a Denise (Saraceni, diretora de ''Belíssima'') também estava louca para trabalhar comigo novamente. Fizemos ''Da Cor do Pecado'' juntos, que foi uma experiência muito legal. Fiquei lisonjeado! Vamos falar sem hipocrisia? Para um jovem ator como eu, emendar um trabalho no outro é sempre fantástico.
Desde que a novela estreou, você notou alguma mudança no assédio do público feminino. Você passou a despertar o interesse de mulheres mais velhas, por exemplo?
Passei sim. Volta e meia, me deparo com uns olhares na rua e, aí, eu penso: ''Meu Deus, mas tinha idade para ser a minha avó!''. (risos). Felizmente, ando bastante de carro. Ou seja, quase não dou margem para esse tipo de abordagem. Mas, quando vou à casa de meus avós no Leblon, ouço muita coisa por onde passo. Num quarteirão só, são inúmeros os comentários. Mas, tudo bem! É natural e encaro o assédio sem problemas. Desde que não puxem meu cabelo... (risos).
De que forma você se preparou para interpretar o Mateus de ''Belíssima''? Chegou a conversar com garotos de programa?
Sem dúvida. Saí à rua para colher depoimentos para a minha composição. Mas também não me limitei a isso. Tive a curiosidade também de ver filmes que, de alguma maneira, têm a ver com o tema. Quer um exemplo? ''O Talentoso Mr. Ripley'', que fala de um cara extremamente dúbio. Revi também o ''Ligações Perigosas'', para observar mais atentamente a atuação do John Malkovich. Puxa, é até pretensão minha falar desse jeito... (risos). Mas, se você reparar bem, eles são bem parecidos entre si. Os dois são sedutores, manipuladores, mentem descaradamente...
Mas, no que diz respeito aos garotos de programa, o que mais chamou a sua atenção?
Bem, pude constatar que alguns realmente fizeram uma opção de vida. Muitos sequer precisam fazer programa, mas fazem. Não concordo, nem discordo. Só respeito. No fundo, fico triste ao constatar que, infelizmente, muitos entram nessa por causa do vício. Acabam vendendo o corpo para comprar drogas. Isso me incomodou. Mas a verdade é uma só: a prostituição é a profissão mais antiga do mundo. Não há muito o que fazer para mudar isso...
Antes de se firmar como ator, você trabalhou como modelo em Milão, Paris, Nova Iorque... Qual é a lembrança mais forte que guarda dessa época?
Puxa, se tivesse de escolher uma só lembrança escolheria o desfile que fiz para o Jean Paul Gaultier. Foi fantástico! E muito louco também. Num dia, estava ali, desfilando num dos lugares mais chiques de Paris. No outro, estava no metrô, sozinho e duro. Aí, eu pensava: ''Meu Deus, como é que são as coisas... Do glamour à realidade em apenas um dia!''.


