ENTREVISTA - Maracatu unido pelas mãos de NANÁ
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segunda-feira, 04 de setembro de 2006
Lauro Lisboa Garcia<br> Agência Estado 
Para quem acompanha a carreira do percurssionista Naná Vasconcelos, a figura aglutinadora sobressai-se com uma potência moral raramente vista no meio musical brasileiro. Agente catalisador até de forças incompatíveis, ele se lançou ao desafio de conciliar as nações de maracatu do Recife, sua terra natal, que há cinco anos se juntam para abrir o carnaval. Em entrevista, ele fala de suas influências nesse universo cultural.
Houve uma saturação do gênero maracatu depois do movimento mangue beat?
O maracatu, maracatu mesmo, vai ficar sempre como é. Nas comunidades deles isso é importantíssimo, porque eles abriram um pouco o tradicionalismo deles lá. Você vê muitas crianças, tem os maracatus mirins, que antes não existia e tal. A questão do mangue beat é que o Chico Science foi o primeiro a fazer e foi o único a fazer. Os outros não encontram idéias diferentes, se prenderam àquela idéia do Chico e não encontram outra maneira de lidar com o mesmo elemento. Acho que é muito mais por aí. Porque mesmo os maracatus dentro do tradicionalismo vêm se renovando. Tem grupos que estão usando instrumentos que não são necessariamente do maracatu e isso está criando uma certa polêmica.
Isso se deve à sua atuação lá?
Também sim, e também ao mangue beat e a mestres jovens, que são filhos de mestres, mas que vieram com outra cabeça, com novas convenções rítmicas. Antes também não havia mulheres e crianças tocando e isso já criou polêmica entre eles. Eles têm de manter a coisa religiosa, porque todo maracatu de certa forma sai de um terreiro de macumba, de um candomblé, tem suas obrigações. O maracatu só tem em Pernambuco, é uma África que só deu lá. Sempre falo que muita coisa veio da África para o Brasil e hoje não existe mais na África, porque os colonizadores acabaram. Mas o ponto mais importante é que muitas coisas se encontraram aqui pela primeira vez porque vieram de diferentes partes da África. Capoeira veio de um local, berimbau veio de outro. Os maracatus estão se renovando entre eles. Agora, os jovens, essa turma alternativa que lida com música eletrônica, etc., não têm paciência para ir lá ver um pouco e dali tirar uma idéia nova. A idéia do Chico foi simplesmente pegar o ritmo do maracatu e ali dentro colocar a fórmula de hip-hop, de rap, essas coisas assim. Com isso se propagou muito - hoje tem maracatu no Rio, em São Paulo, tem bastante em todo lugar. O que fiz foi encontrar os extremos: maracatu e orquestra sinfônica tocando Villa-Lobos e até Bolero de Ravel, por exemplo. Vejo que está evoluindo muito, acabou um pouco a discriminação contra mulheres tocando. E tem uns mestres jovens que estão realmente mudando o baque, como eles chamam.
Que instrumentos você trouxe que foram incorporados ao maracatu?
Eles estão agora incorporando o djembê, que nem é do afro-brasileiro, é africano mesmo, a timba, o abê, que é aquele que chamam de xequerê. E as convenções que não existiam antes. Comecei a fazer convenções onde os batuqueiros têm de aprender um poema onomatopaico e transpor esse poema para o instrumento. Você não pode imediatamente mudar uma coisa. Vai lá beijar o pé do mestre, digamos assim, se aprofunda um pouco, procura conhecer melhor a coisa, pra dali tirar uma maneira de compor, porque a maneira melódica e maneira rítmica das melodias são diferentes.


