ENTREVISTA - Mapa da música brasileira
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segunda-feira, 18 de setembro de 2006
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
Um grande navio musical chamado Brasil representado em nove CDs, um livro e um documentário. Não apenas resultados concretos de um diário de bordo com respostas prontas, mas o princípio de uma longa e essencial viagem permeada de indagações coletivas. Na última sexta-feira, foram apresentadas durante a programação do Festival Literário de Londrina (Londrix) essas e outras ações integradas ao programa Rumos Itaú Cultural na área de música. O capitão dessa empreitada é Edson Natale, coordenador do Núcleo de Música do instituto.
Ao total, 30 mil quilômetros percorridos em todas capitais brasileiras - além de Campinas e Uberlândia - com mais de 110 pessoas discutindo, refletindo, aprendendo e compartilhando aspectos da música nacional. Em um país tão rico artisticamente, fica claro que as diferenças são bem-vindas, principalmente quando se reúnem músicos e produtores locais pertencentes a um mesmo Brasil. ''Quais são os problemas da música em Roraima? E no Rio Grande do Sul? Isso foi também uma tentativa de começar a compreender quais são os problemas regionais, nacionais e quais são os problemas pontuais. Às vezes, a gente tem a sensação de que o problema da nossa cidade ou do nosso estado é exclusivo, o que dá certa agonia. Mas quando você começa a ver que não é somente 'aqui' e que alguns problemas são comuns, você enxerga que tem um outro tipo de abordagem'', ponderou Natale.
O documentário intitulado ''Rumos - Brasil da Música: Pensamentos & Reflexões'' surge anexado ao livro com textos de 31 autores que desenvolvem trabalhos na área musical, como o antropólogo e escritor Hermano Vianna e o presidente da Associação Brasileira de Música Independente, Pena Schmidt. A musicista e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Janete El Haouli assina uma reflexão baseada no mote ''O Rádio Pensa ou só Fala''. Durante a realização dos seminários, o Itaú Cultural recebeu mais de 1.400 inscrições, das quais foram selecionadas 50, que se apresentam no riquíssimo box ''O Brasil em Nove CDs'', representado por sete discos de música (Pop, instrumental, eletrônico, MPB, indígena, música feita com enxadas, entre outros) e dois de audioficções, com produções sonoras baseadas em textos literários publicados. Entre os musicais, a Londrina Big Band integra duas faixas. Segundo o coordenador, ao todo foram distribuídos gratuitamente três mil kits para universidades, pesquisadores, instituições culturais, fundações, rádios, TVs e jornais. Além disso, um convênio com a Rádio França Internacional foi estabelecido para que parte desse conteúdo chegue a mais de 40 países. Enfim, uma bela radiografia para reflexão em conjunto. Veja os principais trechos da entrevista que Edson Natale concedeu à Folha2.
Já foram realizadas quantas edições do Rumos Música?
O Rumos existe desde 1997, mas até 2000 ele tinha um outro formato. Era um projeto com mais ocorrência em São Paulo, na sede do Itaú Cultural. A partir daí ele ganhou essa característica de mapeamento, de abrir edital e receber inscrições do Brasil inteiro, sem nenhuma restrição quanto ao gênero, além dos seminários. Nessa última versão, a gente expandiu as percepções do projeto a partir do que a gente aprende, do que gente conversa, do que a gente reflete, das críticas, das sugestões. Em 2007, lançaremos o Rumos de novo, um pouco mais abrangente e já aprofundando, provavelmente, a relação com outros países também.
Há selecionados de diversos estados brasileiros, inclusive alguns paranaenses que participaram de outras vertentes do Rumos. Mas existe certa dificuldade em trazer as atividades previstas no programa para Londrina. Por exemplo, durante o Londrix, houve o lançamento do song book do Itamar Assumpção. O que inviabilizou a vinda da exposição do Itamar, lançada em julho, na sede o instituto?
A exposição do Itamar não é especificamente do Rumos. Foi um processo interessante, porque a gente nem tinha planejado. Em tempo recorde a gente lançou essa exposição que não rodou para nenhum lugar, ficou restrita aquele momento, aquele período. Em relação à programação geral, a nossa maneira de atuar mais nacionalmente é através do Rumos. No caso da Londrina Big Band, uma das selecionadas, a gente teve a oportunidade de articular, de certa maneira, a Londrina Big Band com o restante do país e outros países, através da Rádio França Internacional. Fizemos 29 seminários. Na próxima versão Londrina está inclusa entre as cidades que receberão um seminário. Não sei ainda como isso vai ser feito, porque na verdade a gente está começando a planejar as ações efetivamente do Rumos. Lançar o kit aqui é uma coisa meio processual. A gente sempre teve uma grande interatividade com a Rádio Universidade FM daqui, e a pessoa de quem nós nos aproximamos com mais velocidade foi a Janete El Haouli, que participou de vários seminários. Dentro da comunicação do projeto, nós não estávamos vindo à Londrina, mas a levamos para 27 capitais da federação. Nossa preocupação é fazer realmente um projeto que tenha um resultado e um resultado dentro de um processo.
Nas edições do Rumos estão envolvidas diversas articulações, como por exemplo uma rede de relacionamentos entre gravadoras. Muita gente pensa que música só se concretiza com a gravação de um CD, mas não é somente isso. Existem muitos outros aspectos nessa cadeia, não?
Uma das características que eu gosto muito do Rumos é que os participantes se inscrevem com duas músicas gravadas e não importa para nós se já foram lançadas há dois, três, cinco anos. A gente parte do pressuposto que um dos problemas da música no Brasil é que as pessoas, às vezes, conseguem chegar até o disco, mas o disco não consegue sair do bairro, da cidade ou do Estado. É um desconhecimento daquela produção pela grande maioria do país e pela grande maioria das pessoas que poderia se interessar por aquilo. Acho que isso é uma restrição do funcionamento do mercado brasileiro, desse país onde as coisas circulam com muita dificuldade. Voltando a Londrina, nos seis DVDs que foram gravados, os músicos daqui falam um pouco da cena musical local, como eles ensaiam, como se formaram. Claro que a gente sabe que não é uma coisa que chega e logo muda a cena. Na verdade, não tem solução imediatista. Pra gente é muito gratificante 'brincar' com essas diversidades. Você vai ver a Londrina Big Band, mas também os índios fulni-ô (PE); você vai ver a Katia B, do Rio de Janeiro, mas depois você vai ver alguém do Piauí.
Essa pluralidade artístico-cultural seria particular do Brasil?
Não acho. O Brasil é um dos grandes celeiros culturais do Planeta, mas quando a gente perguntava nos seminários para os produtores culturais e músicos a respeito da produção musical brasileira, por exemplo, em Santa Catarina, o que se conhecia sobre a música do Rio Grande do Norte ou do Piauí, era um silêncio tremendo. E o contrário também acontecia. Isso foi feito nas 27 capitais e as pessoas se apegavam a isso. Com o Rumos, a gente está colhendo o que já existe, da mesma maneira a gente tem desconhecimento a respeito da produção cultural da América Latina. Eu fui recentemente para a Argentina e vi que o Brasil tem esse reconhecimento lá, porque você entra num táxi e está tocando Sivuca, os argentinos têm noção da Maria Rita Mariano, do Hermeto, Caetano. E a recíproca não é verdadeira. O que a gente conhece da música argentina? A conclusão que a gente chega também é que o Brasil, culturalmente, está de costas para os vizinhos mais próximos. A gente não tem essa veia de trocar para poder conhecer.
Serviço:
- Mais informações sobre as ações e os produtos do Rumos Música pelos telefones (11) 2168-1777 e 2168-1776 ou através do site www.itaucultural.org.br


