Assim como Marco Dilthey, o protagonista de seu livro ''As Almas que se Quebram no Chão'', você viveu um longo período como bolsista na Alemanha. Quanto de autobiográfico tem esse seu romance de estreia?
Acredito que, como romancistas, escrevemos melhor quando as experiências narradas nos são próximas. O trabalho de um escritor se constitui de vivências, observações e muita leitura. ''As Almas que se Quebram no Chão'' tem muito de observação! Enquanto eu me preocupava, feito um louco, para dar conta de meus cursos universitários, numa língua difícil, o alemão, observava a vida dos estudantes brasileiros, bolsistas, como eu, do governo alemão oriental... Como eles iam, um a um, naufragando no fracasso por incapacidade, ou indolência mesmo, em adaptar-se às mudanças por quais passavam a Alemanha, a unificação, o fim do comunismo na Alemanha Oriental, no leste europeu. O caminho das drogas, da desordem, da violência, do comodismo, é sempre mais fácil... A disciplina e o esforço próprio, caminhos de Sísifo, mas necessários. Eis um fato. Então a maioria das personagens do livro é baseada em pessoas reais, o que as torna, é claro, bem mais ricas e complexas. Bocas, por exemplo, talvez seja o personagem mais demoníaco da literatura brasileira, e Marcos Dilthey, o protogonista, o mais trapalhão. Eu costumo dizer, quando perguntado, que a minha simpatia, como pai de todos eles, direciona-se ao Barad. Ele é o único dotado de fortes convicções; procura fazer, com seriedade, algo de si mesmo; leva os estudos a sério. Seguidor de Nietzsche - como eu era na época -, ele usa a sua filosofia como suporte para enfrentar as dificuldades da vida, para dar um sentido a ela. A questão que coloco: possui a filosofia do Nietzsche força e qualidade suficientes para nos proporcionar isso? Os estetas respondem certamente que sim. ''Barad'' durante grande parte de sua vida, também. Agora, o que acontece com ele no livro, uma resposta a esta questão, deve aqui permanecer em aberto. Não posso estragar o gozo estético de meus futuros leitores. Enfim, com a vida de Barad eu discuto a capacidade nietzschiana em responder as angústias humanas.

Quais são suas influências literárias? A literatura beatnik está entre elas?
Leitores do meu livro encontram nele traços de Dostoiévski, Milan Kundera, Louis-Ferdinand Céline, dos beatniks... A presença beatnik talvez esteja relacionada ao estilo: violento, desordenado e incisivo. Mas é porque o livro faz parte de uma trilogia baseada nos estágios da existência segundo Kierkegaard. Como eu discuto a existência estética no ''As Almas que se Quebram no Chão'', procurei um estilo que a correspondesse. No meu próximo romance, ''O Advento'', a linguagem é mais contida, pois reflito a existência ética.

O que você está lendo atualmente?
De um modo geral minhas leituras não seguem uma ordem específica. Leio ao mesmo tempo três a cinco livros, e de diferentes áreas. No momento leio ''Os Emigrantes'' de W. G. Sebald e releio a ''República de Platão'' e a ''Odisséia'' de Homero. E é claro, e sempre, a Bíblia. No entanto, de um modo geral, no âmbito da Literatura, minha leitura gira sempre em torno dos mesmos (grandes!): Dostoiévski, Tólstoi, Cervantes, Shakespeare e padre Vieira. Ocasionalmente leio os modernos, em especial a literatura norte-americana: Flannery O'Connor (ela é grande escritora depois de Jane Austen e Emily Bröonte, milhares de degraus celestes acima de Virgínia Woolf e de nossa querida Clarice Lispector), William Faulkner e Philip Roth. E dos poetas, W. B. Yeats, Georg Trakl e John Keats. Leio também Ernst Junger e August Strindberg. E o último autor que muito me impressionou foi Nikolae Steinhardt; o seu ''Diário da Felicidade'' é o que de melhor se publicou no Brasil nos últimos dez anos. Bem, minha influências estão no meio desses puros-sangues.

Li que voce escreveu quatro romances antes de conseguir publicar ''As Almas que se quebram no Chão''. Pretende lançá-los?
Sim, eu pretendo publicá-los, embora eu precise relê-los, fazer algumas correções. Um deles, ''O Bosque do Meio-Dia'', logo após ''O Advento''. Pois com ele eu concluo a trilogia kierkegaardiana. A partir da difícil infância de um garoto, discuto a existência religiosa. Após a trilogia, há romances engatilhados. Um deles, a saga de uma família alemã no Paraná e no Rio Grande do Sul. Uma história de filhos indesejados, mulheres escolhidas por meio de apostas... O mal, provenientes de escolhas precipitadas, transmitido a gerações posteriores. Claro que não é um enredo tirado da minha cabeça; é verídica. É a história da família da esposa de um grande amigo meu. Isso me encanta em especial por ser uma história escrita por um cearense, eu.

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