ENTREVISTA - Humor refinado
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de junho de 2003
André Bernardo <br>TV Press 
Na série Os Normais, Selton Mello está tendo a oportunidade de unir o útil ao agradável. Como o cantor de barzinho, Bernardo, ele pode aparecer no vídeo fazendo o que mais gosta: cantar e tocar violão. Por coincidência, foi exatamente assim que Selton Figueiredo Mello apareceu na tevê pela primeira vez. Ele tinha sete anos quando a mãe o inscreveu no programa Raul Gil para cantar um sucesso qualquer de Roberto Carlos. Logo, o olheiro de uma agência contratou o menino para fazer comerciais. Em pouco tempo, ele estreava na novela Braço de Ferro, da Band. Às vezes, eu me sinto um sobrevivente. Estou fazendo o que gosto há 20 anos. Num mercado tão competitivo como o artístico, se você não tiver algo a acrescentar, você dança, adverte.
Ao longo de 20 anos de carreira, Selton percorreu o caminho inverso dos jovens atores de sua geração. Enquanto muitos ambicionavam o papel de galã, ele perseguia tipos outsiders, como o limítrofe Emanuel, de A Indomada, e o mentiroso Chicó, de O Auto da Compadecida. Por isso mesmo, preferiu abrir mão dos vencimentos no final do mês a ser obrigado a fazer o que não queria. Contratado por obra certa, ele só aceita aquilo que lhe dá prazer. Como a série Os Normais, que considera anárquica e irreverente. Se um trabalho me emociona, vou saber emocionar o público. Se ele me causa indiferença, não vou saber tirar leite de pedra. Tenho poucos, mas consistentes trabalhos, avalia.
Além do gosto pela música, o que você e o Bernardo têm mais em comum?
Ah, não sei. Devo ter algo em comum com ele, mas não sei dizer exatamente o quê. As situações vividas pelo Bernardo são bem mais esdrúxulas e surreais do que as minhas. Não tem nem comparação. Uma namorada minha, por exemplo, jamais ficaria com um piercing genital preso na marcha do carro... Ele ganha longe!
Paralelamente à carreira de ator, você nunca pensou em investir na de cantor também?
Não. Na série, dou apenas uma enganada. Já tive banda, mas nunca curti esse negócio de gravar CD. Eu acho que essa coisa de ator-cantor não dá muito certo. Pelos exemplos que temos aí, quem faz as duas coisas ao mesmo tempo não faz bem nem uma coisa nem outra. Prefiro me dedicar apenas à minha área. Já a música eu vou levando apenas como um hobbie, uma curtição mesmo.
Você é um ator bissexto na Globo. O que um projeto tem de ter para você acreditar nele?
Não tenho um critério específico. Um bom diretor, por exemplo, pesa muito na decisão. Quando o Guel Arraes e Luiz Fernando Carvalho me chamam para fazer alguma coisa, eu nem pergunto o que é. Topo na hora. Mas o critério é mais intuitivo. É muito de eu ler o texto e pensar: Puxa, que barato!. Se eu consigo me divertir ou me emocionar com aquilo, vou conseguir divertir e emocionar o público de casa também. Geralmente, só aceito trabalhos que me dão prazer. No caso de Os Normais, sempre quis trabalhar com o Luiz Fernando Guimarães. Ele é uma referência para mim. Afinal, cresci assistindo ao TV Pirata.
Mas o fato de não ter um vínculo empregatício com a Globo não gera uma certa instabilidade financeira no final do mês?
Ah, claro que sim! A vida não está fácil para ninguém. Mas eu sou capricorniano. Pareço aquelas formiguinhas que trabalham no verão e guardam para o inverno. Ao longo do tempo, juntei uma graninha que me possibilita escolher os trabalho que quero fazer. Comprei uma casa para mim, outra para os meus pais e isso já é suficiente para eu viver bem...
Quando não está trabalhando, você raramente freqüenta eventos sociais ou aparece em revistas de fofocas. Como consegue manter a discrição?
Eu sou de Passos, Minas Gerais. Mineiro é, naturalmente, um sujeito mais recatado. Mas, infelizmente, a gente vive numa época em que as pessoas têm um discurso muito raso. Para continuar no mercado, elas têm de mostrar suas posses: Olha eu aqui na banheira! ou Veja o carro que eu comprei! Pessoalmente, acho isso de quinta categoria...


