ENTREVISTA - Humor do outro mundo
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de outubro de 2004
Renata Petrocelli<br>TV Press 
Depois de viver o controvertido médico Paulo, de ''Chocolate com Pimenta'', Guilherme Piva não pretendia voltar tão cedo à tevê. Principalmente porque está em cartaz em São Paulo com o espetáculo ''A Aurora da Minha Vida'', de Naum Alves de Souza, e conciliar teatro e novela nunca esteve entre seus ''esportes'' prediletos. ''Sou 'caxias', sofro muito'', justifica. Mesmo assim, o ator não pôde resistir ao convite para viver o mais que esquisito biólogo Márcio Estrela, cuja família povoa o imaginário de Pepê, vivido por Pedro Malta, em ''Começar de Novo''. O autor Antônio Calmon escreveu o papel especialmente para ele, que interpretou o Monstro do Espelho em ''O Beijo do Vampiro''. ''O Calmon tem uma liberdade criativa muito grande. Acho que falamos a mesma língua'', derrama-se o ator.
Na pele do excêntrico chefe de família, Guilherme tem a chance de viver dois papéis ao mesmo tempo, já que os Estrela viram autênticos extraterrestres na imaginação de Pepê. Mas o ator não tem tido tanto trabalho quanto na época de ''O Beijo do Vampiro'', quando passava cerca de três horas se maquiando para habitar o espelho de Bóris, personagem de Tarcísio Meira. ''A composição do ET é bem mais simples. Gasto só de uma hora e meia a duas horas'', minimiza, às gargalhadas.
O Márcio Estrela é o terceiro personagem ''estranho'' que você emenda em novelas. A que atribui este fato?
Gosto de fazer papéis que tenham alguma particularidade, uma diferença que me permita compor, pensar em coisas não naturalistas. Fazer um médico em uma novela, por exemplo, pode ser chato, porque são meses perguntando o que as pessoas estão sentindo e fazendo diagnósticos. Mas, se o personagem tem um traço fora do comum, dá para pirar na hora de fazer a cena, a criatividade trabalha. Acho que os convites vêm em função da minha trajetória no teatro, porque tenho cancha de composição.
É bom voltar a trabalhar com o Calmon?
É ótimo, porque podemos aprofundar uma linguagem que começamos a desenvolver com o Monstro do Espelho. Ele foi o primeiro, eu estava tateando ainda nesta ousadia de fazer um personagem que pode ser qualquer coisa, porque não há uma referência de um monstro verde, ou mesmo de um ET. Em ''Começar de Novo'', já entrei entendendo um pouco mais deste universo fantasioso. E fazendo dois papéis, o que é ótimo, porque um complementa o outro.
Que preocupações você teve na hora de diferenciar os dois personagens?
A questão principal é que não se sabe bem o que é o Márcio Estrela. O ET é um ET na imaginação de uma criança. Mas aquela família pode ser realmente de extraterrestres ou apenas de pessoas excêntricas. O comportamento deles é diferente do habitual, há uma disritmia forte, uma forma estranha de falar, de vestir... Toda esta estranheza faz com que fique a dúvida. Pode ser que haja alguma coisa por trás disso, ou não. Na hora de fazer o ET, eu não tento fazer uma cara de ET, ou um jeito de ET... Procuro manter a estranheza, que é o elemento de ligação entre os dois personagens. Só que aí ela é exacerbada.


