ENTREVISTA - FERNANDO MORAIS
O tema abordado em seu novo livro, ''Os Últimos Soldados da Guerra Fria'', chegou ao conhecimento público à epoca dos acontecimentos nos anos 1990? A mídia brasileira tratou do assunto?
Teve cobertura da imprensa dos Estados Unidos. No Brasil, publicaram notas. Aliás, soube da prisão dos mercenários através do rádio. A grande imprensa praticamente ignorou o episódio. Quando iniciei as pesquisas para o livro, não encontrei nada.
Há quem diga que seus livros-reportagem fazem sucesso justamente por suprirem uma lacuna na grande imprensa, que teria deixado de trazer grandes narrativas. Você concorda com essa avaliação?
Concordo. Hoje a grande imprensa abre espaço para os grandes temas, como a ''Primavera Árabe'', por exemplo. Há aí uma ampla cobertura, com envio de correspondentes e páginas inteiras em dias seguidos. Mas são temas inevitáveis. Você não vê investimento na grande reportagem que tenha sido descoberta pelos próprios jornais, salvo as exceções de praxe. E aí há um problema complicado para a mídia impressa, que é a concorrência da internet. Hoje mesmo abri três jornais e percebi que 90% do que está ali já vi ontem na internet e com a vantagem de ter imagens em movimento.
Você acredita que a internet vai acabar com os jornais?
Não chego a tanto, mas os jornais terão que buscar um outro rumo e se adaptar aos novos tempos sob o risco de derreterem. Precisam investir em reportagens e opinião porque a competição é desigual. Os três jornais deram amplo espaço para o discurso de Dilma na assembléia da ONU, mas isso eu já vi ontem online, inclusive com links para a íntegra do discurso. Para que, então, eu vou perder meu tempo lendo os jornais?
Seu novo livro pinta um quadro favorável ao regime cubano. Você continua fiel defensor da política de Fidel Castro? Mantém suas convicções comunistas?
Continuo solidário à revolução cubana. Sei que existem mazelas, mas elas estão sendo corrigidas agora por Raúl Castro. Por outro lado, as conquistas são indiscutíveis. Nesta semana, a Unicef divulgou dados sobre a desnutrição de crianças no mundo e o único país do Caribe e da América Latina que eliminou por completo a desnutrição foi Cuba. No começo deste ano, divulgou-se também dados sobre mortalidade infantil. Em Cuba há 4,5 mortes de crianças em 1 mil, sendo que nos Estados Unidos o índice é de 6 em 1 mil e no Brasil é de 22 em 1 mil. Veja que estamos falando de Cuba e não de Noruega ou Dinamarca. É um país modestíssimo, pequeno. Raúl Castro está realizando mudanças na economia, mas não planeja alterar o regime político enquanto houver o bloqueio econômico dos Estados Unidos a Cuba.
Você foi deputado e secretario de Cultura e Educação no Estado de São Paulo. Que avaliação faz dessas experiências? Se fosse convidado, voltaria a se candidatar ou a exercer um cargo oficial?
Não. Hoje sou um ativista político independente. Escolho as causas e os candidatos para apoiar, assim como escolho os temas de meus livros. Fiz campanhas para Lula, Dilma, Marta Suplicy e para Roque Camello, que foi candidato a prefeito de minha cidade natal (Mariana-MG) pelo PSDB. Além do mais, prefiro andar de tênis do que de gravata e paletó. É meu estilo de vida. Quando sou convidado para cerimônias oficiais, alugo ternos em lojas.
Você já assistiu à adaptação do livro ''Corações Sujos'' para o cinema?
Vi no festival de Paulínia (SP) e soube que foi aplaudido de pé no festival de Montreal, no Canadá. É muito bonito. Consegue ser suave, afetivo e com um pano de fundo de violência. O diretor Vicente, que é filho do Ministro da Defesa Celso Amorin, trouxe atores do primeiro time do Japão para compor o elenco. São os mesmos que atuaram em ''Kill Bill'' do Tarantino e em ''Cartas de Iwo Jima' do Clint Eastwood. No dia 13 de outubro, ele vai participar como hours concours do Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro.
Quais são seus projetos literários atuais? O que vem por aí, uma nova biografia ou um novo livro-reportagem?
Até meados de novembro vou continuar a maratona de lançamento do ''Os Últimos Soldados da Guerra Fria''. Mas já tenho algumas ideias para novos livros. Há um projeto de escrever sobre os bastidores do governo Lula. Um outro sobre o ex-presidente João Goulart, que seria uma investigação sobre as causas de sua morte, já que há indícios de que ele não teria morrido de causas naturais. Um terceiro projeto é sobre Darcy Ribeiro, um amigo e um grande personagem.





