11 horas da manhã. Saguão do hotel em Londrina. Contrário à lógica que conjuga o ''horário de músico'' como sinônimo de atraso nos ponteiros, o cantor, músico e compositor mineiro Flávio Venturini, 58 anos, surge de jeans, camiseta e bom humor, pontualmente. O atraso do vôo não exaltou seus ânimos.
Com três décadas de estrada, Venturini, compositor de, entre outro sem fim de sucessos, ''Todo Azul do Mar'' - na trilha da novela das 18h da Globo, ''Desejo Proibido'' - esteve em Londrina na última quinta para apresentação no Village, na noite que marcou a entrega do prêmio ''Top de Marcas''.

O recente trabalho, intitulado ''Canção Sem Fim'' (lançado por seu selo Trilhos.Arte), os planos de gravar dois DVD's, em 2008, a influência dos Beatles, entre outros assuntos, não ficaram de fora do bate-papo da FOLHA com Venturini, revelado pelo Clube da Esquina e integrante dos grupos O Terço e 14 Bis, nas décadas passadas.

Você é natural de Belo Horizonte e residiu por três décadas no Rio de Janeiro. Agora, está de volta à sua cidade-natal. Por quê?
Tinha vontade de sair do Rio de Janeiro, cidade que adoro, onde vivi 26 anos, exatamente. Mas há cerca de dois anos e meio, fiquei doente e reencontrei amigos. Bateu a vontade de voltar para casa. Belo Horizonte é muito perto de São Paulo e tem uma cena musical que me interessa, com uma nova geração de músicos. Estou gostando bastante da volta às raízes. Montei um estúdio em minha casa, onde estou trabalhando.

Você tem seu próprio selo e lançou músicos. O caminho é esse, nos dias atuais?
Lancei o selo para minha carreira e projetos especiais meus. Eventualmente, lançamos um ou outro artista. Somos uma gravadora muito pequena e não é nossa intenção se pautar nisso. Hoje, o mercado está muito diluído. O caminho é esse: todo mundo se lançar e ter uma distribuidora.

Neste seu décimo terceiro trabalho, intitulado ''Canção Sem Fim'', o que podemos destacar? Há duas regravações, entre as 12 faixas, correto?

Trata-se de um CD temático, com canções que eu não havia gravado, com algumas canções novas, inéditas. Correto. Regravei ''Canção Sem Fim'', que dá título ao CD, e ''Fênix'' música minha e do Jorge Vercilo, que ele já havia gravado. Estou há um ano trabalhando e divulgando o CD, que está indo bem, dentro do possível.

Amigos te definem como um ''fiel escudeiro da resistência''. No paralelo com o mercado, como se manter há 30 anos em evidência?
(Risos). Acho que só pode ser a qualidade do meu trabalho. Se não fosse isso, acredito que já teriam me mandado embora há muito tempo (risos).

A Associação Antipirataria Cinema e Música (APCM), revelou, em recente pesquisa, que 40% do mercado fonográfico é tomado pela pirataria, com a perda de mais de 80 mil empregos no setor. Diante de tais dados, como você analisa o mercado fonográfico, atualmente?

Como uma grande confusão. Essa migração para o digital e novos formatos de se comprar e se consumir música converteram a música em item gratuito para o consumo de alguns. Não acho legal e não apóio. Democratizar, sim, mas o direito do autor é uma lei sagrada e foi conseguido a duras penas. Tem de ser respeitado.

Por falar em direitos autorais, você também - e em especial - se destaca como compositor. Ganha muito dinheiro por conta de suas composições?
O direito autoral sempre foi uma parte muito importante do que eu ganho, uma fatia dessa receita. Agora, com a pirataria, diminuiu, com certeza. Hoje eu vivo mais de fazer meus shows do que com o que arrecado com os direitos autorais.

A propósito da composição, você faz parte de uma geração consagrada, que fez e faz muito sucesso até hoje. Há espaço para novos talentos, na seara da composição?
Há bastante espaço e muitos bons projetos. Tem muita gente nova despontando através desses projetos de apoio e de lei, que financiam os CDs. Antigamente, esse incentivo ficava restrito aos festivais, que já não têm tanta importância. Ainda existem bons festivais, mas a febre que era, como jogo da seleção ou concurso de miss, não teve continuidade. De qualquer forma, além de haver mais espaço, temos a internet, que democratizou muito mais esse acesso: todo mundo pode gravar seu CD e divulgar seu trabalho.

''Todo Azul do Mar'', na trilha da novela das 18h. Linda Juventude, Nuvens, Caçador de Mim, Espanhola, entre outras músicas cantadas ou compostas por você. Qual a favorita de Flávio Venturini?
As favoritas são sempre as últimas. Das antigas, gosto muito de ''Princesa'', ''Nascente'' e ''Noites com Sol''.

Os Beatles ainda te encantam?
Sim. Vou participar, no final do ano, de um projeto alusivo ao ''White Álbum'', o ''Álbum Branco'' dos Beatles, convidado pelo Marcelo Fróes, que é um jornalista do Rio de Janeiro, amigo do George Martin. Vou cantar ''Honey Pie''. Lancei um artista, em meu selo, que é o Aggeu Marques, um beatle-maníaco convicto. Os Beatles marcaram demais a minha carreira e ouço sempre que posso. O som deles é eterno e revolucionou a música para sempre.

Você fez parte do 14 Bis, grupo de grande sucesso, antes de seguir carreira solo. Há espaço, ainda, para grupos, no mercado musical?
Há sim. O 14 Bis, por exemplo, está com agenda bastante lotada. Acredito que o mercado está aberto para aqueles que tenham talento.

Mas hoje as músicas estão mais descartáveis, não? Diferente dos tempos do 14 Bis ou de tantas outras formações de sucesso...

O consumidor torna a música mais descartável por conta da velocidade com a qual as coisas acontecem, nos dias atuais. Não é uma questão de qualidade e sim de rapidez. Para ficar na memória, mesmo, só aqueles artistas com sucesso enorme, consagrados.

Hoje, o que mais te influencia?
As coisas que me formaram. Gosto de ouvir coisas novas, mas, depois que você formatou sua cabeça a uma linguagem, você curte isso. Gosto de rock inglês, dos artistas nacionais, como Djavan, Milton, Caetano, Vanessa da Mata, de música comercial americana...

Do tipo...
Gosto dos cantores de música romântica, como a Whitney Houston, o Michael Bolton. A música comercial americana, ou seja, essa linha rythm & blues (R&B), do tipo Mariah Carey, Michael Jackson, me cativa.

E como as músicas chegam até você?
Na verdade é muita informação que consumo pelas beiradas. Ouço música no carro. Em casa, toco mais do que ouço. Na TV, tem muito pouca música de qualidade. Olha-se muito a garotada e se esquece que há um público consumidor de música nacional que ainda não foi descoberto. Meus shows são prova disso: há um público variadíssimo, de todas as idades.

Está com planos de um DVD, certo? O que esperar de Flávio Venturini, para 2008?
Sempre estou compondo, pensando em algo novo. Vou lançar um DVD, em 2008, intitulado ''Retratos'', que faz jus ao título e traz momentos e reencontros importantes de minha carreira. Será gravado em fevereiro ou março, em Belo Horizonte, e o lançamento fica para o meio do ano que vem. Fora isso, planejo um novo DVD, desta vez com o Toninho Horta, um grande compositor reconhecido internacionalmente. Grande parte do show será instrumental.

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