''Se me perguntarem a que religião eu pertenço vou dizer que não pertenço a religião alguma. Mas como dizem que o ateu perfeito não existe, eu faço da dança minha religião... Trabalho um instrumento que foi criado por aquele deus, que é o corpo humano. Utilizo meu corpo para me mexer da maneira mais divina possível''. Aos 76 anos de idade, o coreógrafo e professor argentino Ismael Guiser, radicado no Brasil, ainda persegue a idéia que o levou a trilhar uma carreira de 57 anos. Um dos mais conceituados nomes da dança clássica no País, Guiser encerrou ontem sua participação no 1º Festival de Dança de Londrina, no qual ministrou uma oficina e integrou o júri.
Nascido em Buenos Aires, Ismael Guiser iniciou sua aventura profissional, como ele mesmo diz, aos 19 anos, nos teatros Colon e Argentino de La Plata. Foi bailarino em diversos países da Europa, como França, Itália e Suécia, e chegou no Brasil há 50 anos, convidado para ser solista do Ballet do IV Centenário de São Paulo.
Logo de cara, não gostou do que encontrou: ''Vi meninos que eram totalmente amadores em dança. A diferença de formação era muito grande e pedi para voltar. Mas com o passar dos dias vi que eu seria necessário aqui''.
Guiser deu aulas e, em pouco tempo, estava criando coreografias para a TV Tupi. Foi mestre de balé e coreógrafo nos Teatros Municipais de São Paulo e Rio de Janeiro. Vieram novos musicais e outros trabalhos na TV Rio e Record. Atualmente, dá aulas na Cia. de Dança Cisne Negro, no Ballet Stagium e em sua escola, o Ballet Ismael Guiser, além de participar como jurado e professor em festivais de dança do País.
Para Ismael Guiser que tem como ícones da dança no século 20 a norte-americana Martha Grahan e o russo George Balanchine trabalhar com dança clássica sempre foi um transe. ''Minha personalidade na sala de aula não é minha personalidade na vida. Não tem nada a ver comigo. Eu sou uma pessoa muito menos agressiva. Na aula sou muito exigente, pois acredito que para fazer bem é preciso tentar ser o melhor''. A seguir os principais trechos da entrevista que Ismael Guiser concedeu à Folha2
O que faz um bom bailarino?
Em primeiríssimo lugar vem algo inexplicável, chamado talento. Esse talento é uma soma de coisas. O talento não resolveria tudo sozinho, mas é a chave-mestra, que abre o corpo. Também é preciso uma persistência de cão e ter uma paixão ilimitada pelo que se faz, além do fator sorte (para não se machucar, para ter uma saúde física, para estar no lugar certo no momento certo). Sem contar a disciplina, que é ponto pacífico. Sem ela, nada é possível.
O Brasil imprimiu algumas peculiaridades à dança clássica ou segue à risca as normas ditadas pelas escolas mundialmente conhecidas?
Algumas pessoas pretendem fazer isso, inclusive escolas estrangeiras, seja a inglesa, a russa ou a cubana. Na minha opinião é um erro fatal, porque a gente deve tirar de cada escola o melhor e criar a escola clássica brasileira. É o que eu tento há muitos anos, acho que já faço isso. O físico do brasileiro é diferente, a cultura, a alimentação, a educação. Em alguns casos isolados já temos essa escola brasileira, mas não é declarada. Você já viu um bailarino brasileiro reconhecido, mas não como os cubanos que criaram a escola deles e marcaram no carimbo. Existe no mundo muitos bons professores saídos do Brasil, mas não carregamos essa qualificação de ser professores brasileiros. Eu me considero um professor brasileiro. Mesmo não tendo nascido no Brasil, eu sou um fruto daqui.
Por que escolheu o Brasil?
Não fui eu quem escolheu o Brasil, foi o Brasil que me escolheu. Eu tinha trabalhado com Aurell Millos na Argentina e ele estava sendo convidado para formar o balé do IV Centenário de São Paulo, em 1954. Ele foi contratado e me convidou. Vim de Paris como bailarino solista. Não conhecia o Brasil e queria rever meus pais na Argentina. Achei que ficaria alguns meses e voltaria para a Europa. Quando cheguei aqui, detestei. Vi meninos que eram totalmente amadores. A diferença de formação era muito grande e pedi para voltar. Mas com o passar dos dias vi que seria necessário aqui. Começaram a aparecer companhias que queriam aulas, noções claras de metodologia. Poucos meses depois me chamaram para ser coreógrafo da TV Tupi.
De musicais?
Conheci Abelardo Figueiredo que era produtor de musicais e começamos a nos apresentar. Depois fui para o Rio de Janeiro trabalhar no Municipal. Deixei o Brasil por três vezes, atrás de novas aventuras. Mas o vírus brasileiro já estava no meu sangue. Tomei amor pelas pessoas. Já me sentia um estranho na Europa. Trabalhei em várias companhias e todas as experiências me enriqueceram. Mas sempre com um pequeno saldo de amargura na boca, um pequeno desgosto pela falta de estrutura, de recursos, pela ignorância de muitas pessoas... tive de trabalhar com bailarinos que, depois de formados, não eram aproveitados no Brasil porque o mercado não existia. Recebiam propostas e iam para fora. Essa é uma das coisas que a gente tem de se preocupar: não perder os grandes talentos.
Qual é o público da dança hoje no Brasil?
A diferença de 50 anos atrás é imensa. Antes ninguém falava em dança, não se comentava, os teatros eram vazios, não havia público. Não é a realidade de hoje. Em cada grande cidade do Brasil temos um público, existe uma vontade de assistir à dança. O panorama mudou muito, mas ainda não estamos nos termos ideais. Nos Estados Unidos, para ver o New York City Ballet é preciso garantir ingressos, que se esgotam uma semana antes. No Brasil, para lotar um teatro como Municipal de São Paulo com uma companhia nacional é preciso colocar ingressos a R$ 5,00. Se vem um Bolshoi, o ingresso custa R$ 150,00, R$ 250,00. As coisas vêm melhorando, o público aumentou, mas ainda temos esse preconceito de que o brasileiro não é tão bom quanto o estrangeiro, o que não é verdade.
Quais os grandes nomes da dança clássica no Brasil?
Porque no Brasil não temos grandes nomes da dança? É porque a imprensa não se encarrega de divulgá-los. Aqui os artistas, via de regra, são massacrados pela imprensa porque nem ela acredita na arte brasileira, o que é um profundo erro. Poucas pessoas conseguem se destacar: Ana Botafogo, por exemplo, se encarrega de ter uma mídia muito grande. Além de ser uma pessoa muito especial, ela conseguiu o título de baillarina. Entre os coreógrafos, o argentino Luis Arrieta é um grande criador. Na Europa, Jiry Kylian é um dos grandes da atualidade.
O que o senhor acha das mostras competitivas nos festivais?
Uma arma de dois fios. Um mal necessário porque não temos mercado e oportunidade, mas temos alunos com muita vontade de dançar. Ao mesmo tempo, o lado competitivo pode criar uma espécie de egocentrismo que o artista não deveria ter.
O que não pode faltar em um bom festival de dança?
Uma boa organização e não se pensar somente na parte financeira. Acho que na arte não se pode pensar em lucro. É preciso tentar melhorar o ser humano.
Londrina está começando bem?:
Como primeiro festival já é um sucesso. Teve casa lotada, 800 bailarinos... Mesmo sendo a primeira experiência já está se desenvolvendo como qualquer outro festival. Não se pode pedir nada mais que isso.

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