ENTREVISTA - 'Exploram o medo para limitar a liberdade'
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de setembro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza, especial para Folha 2 
Por que decidiu fazer agora, já no século 21, um filme sobre o maccartismo?
Porque principalmente vejo muita semelhança com os erros que se cometem hoje, explorando o medo para limitar nossa liberdade. Se a nova proposta sobre segurança nacional passar no congresso americano, um agente do FBI, qualquer agente, com um simples mandato, poderá por qualquer razão investigar secretamente o estado de saúde de qualquer pessoa, ou as despesas que seriam debitadas em seu cartão de crédito. A pessoa em questão não teria o direito de saber nada. Um passo muito perigoso na direção errada. Me parece o momento muito próprio de conversar também sobre a responsabilidade de informação.
Em sua opinião, qual deveria ser o papel da mídia?
A informação era chamada o quarto poder, e seu verdadeiro dever era controlar os outros poderes. Não é apenas um direito, mas uma responsabilidade. E ao contrário, quais são hoje as perguntas que interessam? Quem produziu e assinou os documentos que afirmavam que Sadam Hussein estaria comprando urânio da Nigéria? Sabemos que foi uma invenção, mas quem foi o autor? Ninguém coloca essas perguntas.
Já lhe chamaram de traidor por ter feito declarações se opondo a guerra no Iraque. Qual é o preço que o senhor deve pagar para exprimir livremente suas idéias?
A coisa que mais amo no meu país é a possibilidade que tenho de me exprimir livremente. Mas a cada trinta anos, mais ou menos, sufocamos as liberdades civis. Acontece sempre por medo, sempre após qualquer catástrofe. Depois recolocamos as coisas nos lugares, geralmente de modo pacífico, o que em outros países não ocorre com frequência. E o principal motivo é a nossa liberdade de expressão. Se dizem ou não coisas sobre mim, não me importo, não considero grave.
Por causa do trabalho de seu pai como âncora na tevê americana, sua familiaridade com um estúdio de televisão não foi nenhum segredo. A experiência valeu quando começou a filmar a série ''Plantão Médico'' e principalmente agora em ''Good Night. And Good Luck''?
Cresci na redação de um noticiário. O jornalismo televisivo sempre foi importante na minha vida. E presenciei vários momentos extraordinários que influenciaram a história americana. Como quando Walter Cronkite, um homem em quem os americanos confiavam cegamente, voltou do Vietnam e disse que aquela guerra era um erro. Um outro foi quando Edward Murrow disse que McCarthy era um criminoso. A questão não era se ele tinha ou não razão ao acusar as pessoas de espionagem ou de serem comunistas. O ponto era que, no momento em que dizia aos acusados que não podiam se defrontar com seus acusadores e que as provas da acusação estavam num envelope lacrado e inacessível, ele destruía tudo aquilo que tinha tornado os Estados Unidos um grande país.
Como diretor, como foi sua aproximação do tema de ''Good Night. And Good Luck''?
Queria que o filme tivesse a feição de um documentário, em plena integração e harmonia com o material de arquivo do senador McCarthy, em preto e branco, porque queria que fosse ele mesmo a interpretar a si mesmo. Mas a princípio ninguém queria um filme em preto e branco sobre o maccartismo. Por isso ganhei um dólar pelo roteiro e meu salário como diretor foi pago pelo estúdio (NR: o filme foi produzido pela Warner Independent). E como ator recebi pela tabela do sindicato, como todos os outros.


