Curitiba - Sem dúvida ele é um dos mais instigantes diretores teatrais em atividade hoje. Mas Curitiba, uma ''cidade arrogante e provinciana'', segundo sua definição, deixou ele escapar. Atualmente, o catarinense Fernando Kinas, que já fixou residência na capital paranaense, mora em São Paulo e retorna à cidade para mais um espetáculo da Kiwi Produções. Em ''O Bom Selvagem'', em cartaz no Teatro José Maria Santos até 17 de setembro, o diretor volta a trabalhar com o ator Clóvis Inocencio. Mestre em Teatro e Artes do Espetáculo pela Sorbonne Nouvelle, de Paris, Kinas falou à Folha sobre esse projeto e outros em andamento. Acompanhe a entrevista:
Quem é o ''bom selvagem''?
O ''bom selvagem'', originalmente, é uma referência às idéias de Jean-Jacques Roussseau sobre os primeiros habitantes das Américas. O contato entre europeus e os chamados ''índios'' americanos estimulou o pensamento iluminista sobre a existência de uma humanidade não contaminada pelos vícios da civilização, mas em contrapartida, esta ''outra humanidade'' seria ''selvagem''. O tema é vasto, mas vale dizer que a idéia do ''outro'' como ingênuo, primitivo, diferente, perigoso, bárbaro, tudo ao mesmo tempo, atualiza-se nas atuais relações entre norte-americanos e iraquianos, ou entre sulistas e nordestinos no Brasil. O tema envolve mistificações, idealizações, simplificações, além de muita avidez e violência.
Apesar de datada do século 16, a idéia - e idealização - de um pensamento selvagem, primitivo e mais próximo das emoções e sentimentos atravessou gerações e se renova continuamente. Como a concepção e a direção do espetáculo trabalhou a contemporaneidade do tema?
Como está escrito no texto do espetáculo, ''o mundo do século 16 é parente do mundo do século 21.'' Dominação política, exploração econômica e doutrinação apenas mudam de endereço ou recebem outro verniz, mas têm nos acompanhado sem trégua nestes últimos 500 anos.
E como surgiu esse projeto? Essa é a segunda vez que você trabalha com esse ator. Coincidentemente, ''Um Artista da Fome'' também era um monólogo. Isso facilita ou limita a direção?
O Clóvis não é, para mim, apenas um ator, é um amigo e um parceiro. A idéia original partiu dele, fundamentada em dois livros (''Vinte Luas'', da Leyla Perrone-Moisés e ''O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa'', do Afonso Arinos). Durante dois anos eu pesquisei sobre o tema para chegar neste formato que não é ''dramático'', no sentido clássico do termo, mas uma espécie de pensamento encenado, seguindo os passos da ''Carta Aberta'' (1998), do ''Um Artista da Fome'' (1998) e de espetáculos mais recentes que eu dirigi. Este é nosso terceiro trabalho juntos, você esqueceu o ''Tudo o Que Você Sabe Está Errado'', encenado em 2000/2001. É não só mais fácil, como prazeroso repetir estas parcerias, independente de serem monólogos ou não.
Seus espetáculos não costumam ter personagens. Como você trabalha esse conceito no teatro ou em um 'fazer teatral'? Em ''O Bom selvagem'' especificamente...
Você tem razão, a idéia clássica de personagem não me satisfaz no teatro. ''O Bom Selvagem'' é uma sucessão de quadros, no bom estilo brechtiano, em que o ator executa ações que podem, eventualmente, construir protótipos, indicações ou paródias de personagens. Este método me parece mais rico para falar do mundo de hoje.
Você trabalhou muito tempo em Curitiba e agora está morando em São Paulo. Esse é um caminho natural quando se analisa o mercado paranaense? Não digo especificamente sobre a capital paulista... mas sobre o Paraná não conseguir manter em casa os seus talentos...
Obrigado pelo ''talento''. Eu não tenho nenhuma simpatia especial por Curitiba, que me parece arrogante e provinciana ao mesmo tempo. Gosto de muita gente que está aí, mas elas não conseguem desfazer esta impressão que a cidade me provoca. São Paulo é uma das cidades mais feias e violentas que eu conheço, mas é muito bom viver e trabalhar aqui. Vá entender...
Época de eleições...Para você qual o ideal de uma boa política cultural?
Excelente pergunta! E a resposta ocuparia muito espaço. Algo que posso dizer sem ser superficial é que o modelo de produção artística pela renúncia fiscal é escandaloso. Em São Paulo os artistas se mobilizaram em torno de um movimento, o ''Arte Contra a Barbárie'', que permitiu a aprovação da ''Lei de Fomento ao Teatro''. Esta lei valoriza os trabalhos continuados de grupos que fazem pesquisa. É um começo de mudança de paradigma nos modos de produzir arte.
Você também tem um trabalho consistente na área audiovisual. Tem algum projeto em andamento atualmente?
Infelizmente não, são apenas idéias na cabeça. Fazer teatro dá muito trabalho, mas o cinema parrece ser ainda mais difícil.
E no teatro, qual é o próximo passo? Algum plano de voltar para Curitiba?
São muitos trabalhos até o final do ano. ''Teatro/Mercadoria'' em dezembro, no Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro, e ''Linha'', em São Paulo, além de uma curta experiência teatral na reabertura do Teatro Novelas Curitibanas, ''Casulo'', que estréia dia 14 de setembro. Para o ano que vem, além da continuação das temporadas, queremos consolidar a Kiwi em São Paulo. São muitas idéias em andamento, incluindo ciclo de leituras, debates e uma nova peça.
''O Bom Selvagem'', direção de Fernando Kinas no Teatro José Maria Santos (Rua Treze de Maio, 655), de quinta à sábado às 21 horas e domingo às 20 horas. Ingressos a R$ 10,00 e R$ 5,00.

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