Com 15 livros editados em 40 países, um dos escritores mais lidos do momento, o psiquiatra Augusto Cury, 46 anos, defende uma medicina mais humanizada, que valoriza o paciente e não rotula as pessoas pelas doenças que possam manifestar. Em Londrina, recentemente, para o lançamento de 'O futuro da humanidade'', ele debateu sobre a qualidade de vida e fez um alerta: ''as sociedades modernas estão se tornando grandes hospitais psiquiátricos. Estamos adoecendo coletivamente e precisamos ter consciência da co-responsabilidade para o andamento das nossas vidas''.
Entre os fatores que aponta como causadores desse colapso, está o processo globalizante da comunicação. Segundo Cury, o excesso de informação está gerando a Síndrome do Pensamento Acelerado. A falta de sono reparador, a agitação da mente, as preocupações exageradas com o futuro e a incapacidade de sentir prazer nas pequenas atividades do cotidiano são apenas alguns dos sintomas dessa síndrome que pode ser o início de outros problemas mais graves como depressão e transtornos obsessivos.
Devido aos compromissos que está assumindo como escritor, o psiquiatra reduziu o seu trabalho clínico, mas continua treinando profissionais da saúde para uma medicina mais sensível, além coordenar cursos de pós-graduação. Confira abaixo os melhores trechos da entrevista que Cury concedeu à Folha.
Como o senhor classifica seus livros?
Os meus livros divulgam ciência, dão ferramentas para os leitores terem condições de deixar de ser vítimas das suas histórias, mazelas psíquicas e se tornar autores da sua própria história. Infelizmente, no mundo todo, a educação passa por uma crise sem precedentes. Da pré-escola até à pós-graduação nós estamos formando repetidores de idéias e não pensadores que possam transformar a sociedade. Nós já acumulamos tanto conhecimento e estamos gerando uma paralisia intelectual. Então, os meus livros divulgam uma nova teoria, que estuda o funcionamento da mente, a construção de pensamento na área de inteligência multifocal, que hoje é usada em várias teses de mestrado e doutorado em vários países.
Do que trata o 'O futuro da humanidade', seu livro mais recente?
É uma ficção que começa em uma sala de anatomia, onde o jovem estudante de medicina, Marco Polo, questiona a existência humana ao ver a maneira como eram tratados os corpos que seriam dissecados. Após ser ridicularizado pelo seu professor, começa a investigar a história de vida daquelas pessoas. Entre os personagens, descobre O Poeta, que foi um grande cientista, que após perder a esposa e os filhos, entra em depressão profunda. Tratado apenas com medicamentos, sem receber apoio emocional, acaba saindo sem destino pelas ruas e se torna um mendigo. Seu amigo Falcão, um grande filósofo que superou um tipo de psicose, é a ponte para que o jovem Marco Polo reflita sobre a vida e questione os rumos da medicina.
E o que acontece com Marco Polo?
Ele se torna um excelente estudante de medicina e questiona os paradigmas da profissão que dão um diagnóstico e não percebem que por trás de um diagnóstico existe um ser humano que tem sonhos que estão sendo dilacerados, uma angústia que está contraindo e controlando as emoções. Ele se especializa em psiquiatria e descobre que na realidade todos nós estamos doentes nas sociedades modernas. Ele começa a dar palestras mostrando que a humanidade está adoencendo rápido e coletivamente e descobre uma coisa gravíssima: que a indústria de anti-depressivos e traquilizantes está se tornando a mais poderosa da atualidade na esteira do adoecimento da humanidade, no silêncio, mais do que as armas e o petróleo e ela investe bilhões de dólares para produzir novos medicamentos, mas investe míseros dólares na prevenção.
O livro é um desabafo?
É um grito de alerta, mostrando que, infelizmente, a psiquiatria e a psicologia clínica se tornaram curativas e isso é injusto. Nós temos que aprender técnicas, ferramentas, leis de qualidade de vida para que possamos gerar crianças saudáveis, adolescentes livres no teatro da sua mente e adultos que se tornam agentes modificadores da sociedade.
No livro o senhor também critica a indústria do preconceito na psiquiatria.
Sim, critico, porque há uma tendência geral de se condenar as pessoas pelos diagnósticos clínicos, que acabam por contrair a sua auto-estima, seu prazer de viver e a sua capacidade de ser líder. Uma pessoa com depressão é um ser humano digno de todo valor. Frequentemente as pessoas portadoras de depressão são as melhores da sociedade, são ótimas para os outros, mas péssimas para si mesmas. Se doam excessivamente, vivem a dor dos outros, se preocupam com o amanhã, ou seja, são altruístas, vivem para a sociedade, mas não sabem proteger a sua emoção. Isso é um dos grandes fatores que as levam a produzir depressão e não apenas, como a psiquiatria amplamente proclama, que elas têm depressão pelo déficit de serotonina na sinapse nervosa, no cérebro. Isso é uma hipótese teórica e a sua difusão errônea tem feito com que haja atrocidades no seio da psiquiatria. Existem muitos profissionais que só ministram medicamentos, não dialogam com seus pacientes e não estimulam o resgate de sua autonomia.
E o que o senhor tem a dizer sobre o livro 'A inteligência multifocal'?
De maneira geral, o livro tem o objetivo de responder às funções mais importantes da inteligência tais como aprender a pensar antes de reagir, aprender a expor e não impor as idéias, trabalhar perdas e frustrações, aprender a navegar nas águas da emoção, a ser um empreendedor que lida com desafios e dificuldades na vida. O livro também ajuda na prevenção das doenças psíquicas mais importantes da atualidade como depressão, síndrome do pânico, transtorno obsessivo, e também acredito que se as crianças aplicarem desde pequenas a arte de gerenciamento de pensamentos, a capacidade de proteger a emoção nos focos de tensão, assim é possível prevenir psicoses.
Há uma maneira de combater os pensamentos negativos?
No silêncio da mente, quando você tem uma idéia perturbadora.
A nossa tendência em gravitar em experiências negativas é por causa do registro RAM (Registro Automático da Memória) que arquiva tudo o que tem alto volume emocional. Então uma perda, um acidente, uma traição, ficam disponíveis na janela 'killer', que assassina o prazer. Quando a pessoa entra naquela janela, ela começa a produzir idéias ligadas ao seu conteúdo que foi arquivado com alto volume de tensão. Infelizmente, a imprensa, principalmente a TV, tornou-se especialista em divulgar as notícias ruins, então, culturalmente isso acaba afetando a qualidade de vida. Além disso, os noticiários, principalmente da TV, descobriram intuitivamente que as idéias negativas geram alto volume de tensão, desaceleram o pensamento e fazem com que as pessoas se concentrem nesse tipo de coisa. Há um fascínio mórbido por causa desse registro. E todo esse processo tem a ver com a Síndrome do Pensamento Acelerado.
Como se estabelece essa síndrome?
No passado, o conhecimento dobrava-se a cada 200 anos, hoje, a cada cinco anos. O excesso de estímulo proveniente do conhecimento, da TV, do capitalismo selvagem, da paranóia da estética, da preocupação excessiva com o corpo, bombardeia a memória com um volume de informações como nunca as crianças e adolescentes tiveram no passado, gerando uma hiper produção de pensamentos que rouba energia do córtex cerebral e dá os sintomas com que muitos se identificam: cansaço físico exagerado, acordar cansado, mente inquieta, agitada, sofrimento por antecipação, preocupação excessiva com as atividades diárias, déficit de concentração, de memória, dificuldade de ter prazer nos pequenos estímulos da rotina diária. Tudo isso é um grito de alerta, evidenciando que essa síndrome nos atingiu coletivamente. Deu-se um salto impressionante para conhecermos o universo em que estamos, mas não conhecemos o universo que somos.
O que podemos fazer para tentar reverter essa situação angustiante?
Exercer nosso papel de co-responsáveis. Humildemente, espero que meus livros possam contribuir, assim como as conferências e espero que os milhares de pensamentos de cientistas contagiem as pessoas formando uma massa de seres humanos que não estejam preocupados apenas em ganhar dinheiro, mas sim com o caminho que a humanidade está construindo. Precisamos de pessoas que façam intervenções humanistas, se tornem poetas da vida. Não precisamos de mais servos do sistema.

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