Ela não tem vergonha de levantar a bandeira do feminismo através da literatura moderna. Com bom humor, uma linguagem que lembra a dos blogs, a advogada paulista Eugenia Zerbini, 52 anos, estreou no mundo das letras com ''As Netas de Ema'' (Editora Record) e começou bem, vencendo o Prêmio Sesc Literatura 2004. Em Londrina recentemente, em um evento promovido pelo Sesc para divulgar uma feira de livros promovida pela entidade, ela falou com professores e alunos sobre a arte literária.
Filha de pais prisioneiros militares, tingiu a narradora do livro com a própria experiência, mas é na reunião de um grupo de mulheres 'baby boomers' - nascidas logo após a Segunda Guerra - que vai esmiuçando o universo da vida de uma grande geração de mulheres que foram criadas em um ambiente econômico de crescimento e de ascensão social, tiveram as portas das universidades abertas, acesso à educação sexual e à pílula, mas ainda têm fantasmas românticos do passado que rondam-lhes as barras das saias.
Não é à toa que escolheu Ema Bovary, a magistral personagem de Gustave Flaubert, em 'Madame Bovary', como referência sutil e instigante ao título do seu livro de estréia. O desejo de querer mais e se inconformar se somam às memórias pessoais e de uma reflexão de uma geração feminina - hoje 'aged boomers' - tão atuante. Além disso, o livro também questiona o próprio ato de escrever, a racionalidade da literatura comparada ao surpreendente absurdo da vida. Confira abaixo trechos da entrevista que a escritora concedeu à Folha de Londrina.

Toda mulher ainda tem um pouco de Ema Bovary?
Creio que sim. Eu digo que a primeira Ema foi Eva, porque Eva, se fosse acomodada, satisfeita com o que tinha, teria o paraíso - e ela tinha um homem só para ela. Mas não. Ela quis comer a maçã! Ela queria mais, ela aspirava mais. Queria experimentar a árvore do conhecimento. Tinha uma insatisfação que leva à curiosidade, uma mola que projeta a sair da zona de conforto, a tomar atitudes na vida, que na época da Madame Bovary eram baseadas em homens. Hoje esse discurso é diferente. As mulheres não procuram um homem ou algo fora. Elas procuram dentro de si mesmas. Nas crises, elas se reinventam.

Você enquadraria o seu livro como feminista? Essa definição a incomoda?
Não me incomoda. Ao contrário. A maior parte das mulheres, e da opinião pública em geral, tenta ridicularizar as feministas dizendo ''ah! aquelas mulheres doidas do século passado que queimaram sutiãs...'' e eu digo que se não fossem as feministas nós não estaríamos onde estamos. Foram pioneiras em todo esse movimento que, se não tivesse muito impulso, não fosse radical, não causaria o impacto que criou. Acho que devemos muito às feministas e é um engano achar que nós conquistamos tudo. Existe um terreno muito grande a ser conquistado. Uma coisa que me choca muito hoje é ver como as mulheres aceitam de forma plácida a maneira como a mídia as coloca, como se fossem uma porção de carne atrativa.

Na palestra com os educadores, a senhora conseguiu abordar a importância de estimular a leitura nos jovens, cada vez mais fascinados pela imagem em detrimento do texto impresso?
Enfatizei que as histórias, as palavras, a literatura não só ensinam coisas para nós, mas têm um poder restaurador muito grande. Através dos livros você vê que não é o única a viver determinadas situações. Há o desafio, as passagens mais sombrias, e também as luminosas. A literatura dá um substrato que enriquece muito a vivência humana. Com os adolescentes, tentei abordar o quanto é difícil essa fase, quando a gente troca a pele de criança pela de adulto. É um processo doloroso, a literatura pode ser uma ponte nessa travessia.

A personagem Ema Bovary, que a inspirou, acaba se suicidando por não suportar a realidade na qual estava inserida. Que paralelo podemos fazer com a mulher moderna?
Eu acho que nós conseguimos ficar mais centradas porque as pressões são menores, o mundo é menos patriarcal do que foi há 150 anos. Pelo menos nós temos o poder de nos expressar com a nossa própria voz. Pensando na época em que a história da Ema Bovary se passa, podemos lembrar da figura da histérica, do Freud, em que ele dizia que as mulheres dos meados do século 19 até o começo do século 20 eram tão recalcadas, o espaço público e privado dado a elas era tão exíguo, que a única forma delas se expressarem era através da histeria. A Ema foi exemplo disso. Hoje, até nas escolas é possível observar o quanto as meninas já se posicionam, o que considero um acerto de contas de séculos de opressão.

mockup