A Rádio Universidade FM não está mais sob a direção de uma das musicistas, pesquisadoras e educadoras mais prestigiadas em sua área no Brasil e até mesmo no exterior. Janete El Haouli foi oficialmente desligada de sua função no dia 17 de março, por volta das 17 horas, pela reitora da Universidade Estadual de Londrina, Lygia Pupatto. O motivo: ''discordância administrativa''. Ela estava no cargo há quase quatro anos. O assunto pegou muita gente de surpresa e gerou discussões, inclusive entre os colaboradores, sobre quais serão os rumos da emissora que tem um público consolidado em Londrina e região. O diretor da Casa de Cultura Kennedy Piau responde interinamente pela função.
Sabe-se apenas que Janete questionou a extinção da rádio como órgão de apoio da UEL e sua vinculação direta à Coordenadoria de Comunicação Social (COM), da instituição. ''Eu entendo que meu afastamento se deu porque eu discordei dos encaminhamentos, das posturas diante das idéias do grupo de trabalho em relação à política de comunicação'', diz Janete. Segundo ela, as discussões do grupo acabaram centrando-se mais em torno de uma política de difusão de notícias do que propriamente de uma política de comunicação mais abrangente. ''Eu entendo que se deva pensar os rumos, os princípios de como tratar a comunicação da UEL com a comunidade universitária e a sociedade'', analisa.
Ligada ao Departamento de Música e Teatro, criado há um ano, Janete El Haouli integra o quadro docente da UEL há 24 anos. Mesmo quando estava à frente da emissora, continuou como professora. Graduada em música ela é pianista por formação , com mestrado em Ciências da Comunicação e doutorado em Artes/Rádio, ambos títulos pela USP de São Paulo, ela sempre foi uma pessoa intelectualmente inquieta. De temperamento forte, mas democrático, a musicista e radiomaker termo com o qual também gosta de ser apresentada foi inovadora ao colocar no ar o ''O Música Nova rádio para ouvintes pensantes''. Trata-se do mais antigo programa de música contemporânea do Brasil, que ficou no ar durante 13 anos na Universidade FM e foi suspenso por ela diante da ''falta de prazer em produzi-lo'' devido ao impasse da subordinação da emissora à COM. Sua experiência com radiofonia é uma referência no Brasil, e a isso muita gente discordante de seus pensamentos terá que dar o braço a torcer. Suas noções estéticas nunca se cristalizaram. A expansão de pensamento talvez tenha começado com a convivência de dez anos de estudos com Hans Joachim Koellreutter, precursor da música contemporânea. ''Ele foi uma das pessoas mais importantes na minha formação musical no sentido mais amplo. Koellreutter me fez pensar a música relacionada a outras áreas de conhecimento: antropologia, sociologia, por exemplo'', diz. Outro contato importante foi com Murray Schafer, compositor canadense que criou a ecologia acústica ela o conheceu em 1990, em São Paulo.
A seguir os principais trechos da entrevista que Janete El Haouli concedeu à Folha2 em que fala sobre as mudanças na Universidade FM, aprofunda conceitos sobre rádios educativas e também faz planos futuros, que incluem um novo livro sobre idéias radiofônicas e a versão para o espanhol e francês - e respectivo lançamento - de seu livro sobre o cantor e performer Demetrio Stratos.
Você acha que houve alguma conotação política quanto ao seu afastamento da direção da rádio ou foi apenas uma questão de discordância de pensamento?
Pelo fato de eu ter uma trajetória apartidária e areligiosa eu quero acreditar que não esteja havendo nenhuma conotação política. Se estiver havendo, eu lamento.
Você absorveu bem seu afastamento?
Estou tranquila porque tenho sido coerente com minhas atitudes, com as minhas falas e com minha postura nesses 24 anos de UEL. É um momento de aborrecimento, de dor pelo fato de deixar um trabalho que estava em plena construção.
Como é que a gente pode entender essa ''discordância administrativa''?
Houve uma alteração regimental do ponto de vista administrativo. A Rádio deixa de ser um órgão de apoio e passa a estar vinculada à Coordenadoria de Comunicação Social (COM). Essa política de comunicação, dizem, será discutida. Mas eu entendo que esteja pronta na medida em que em 18 de fevereiro deste ano o Conselho Universitário aprovou essa mudança administrativa da rádio sendo que esse assunto não estava pautado para essa reunião, sendo incluída, no momento dessa reunião do conselho, a inclusão da rádio para que passasse a ser coordenada pela COM. Isso não passou por uma discussão com a comunidade universitária, muito menos com a equipe e direção da rádio.
Foi uma decisão imposta?
Entendo que foi uma decisão arbitrária. Então existe uma incoerência quando se fala em discutir a política de comunicação. A minha discordância, num primeiro momento, era de idéias, de postura, de atitude, de encaminhamento.
Em qual ponto crucial você discorda?
Me preocupa o fato de a Rádio estar vinculada a uma coordenadoria de comunicação social cujo projeto de implementação, que foi aprovado pelo Conselho Universitário, prevê a captação, a difusão, o controle da notícia. Captar, produzir, coordenar as notícias para manter uma imagem positiva da instituição são preocupações que apresento.
Você acha que essa vinculação à Coordenadoria, o COM, pode trazer alguma descaracterização do perfil da rádio Universitária, que é uma emissora educativa?
Eu acredito que sim.
Que tipo de descaracterização?
De controle de informação porque o jornalismo da Rádio não pode ser o jornalismo feito pelo ''Notícias'' (boletim oficial feito pelo COM), por exemplo. São veículos diferentes. O ''Notícias'' cumpre sua função de difundir notícias de professores que vão a congressos, projetos institucionais... Enfim, raramente você vê no ''Notícias'' algo que leve ao confronto de idéias. A Rádio Universidade é mantida pelo Estado com dinheiro público, mas é regida pela legislação de radiodifusão educativa, portanto uma lei federal, e está subordinada ao Ministério das Comunicações e à Anatel. A Universidade possui uma outorga, uma concessão para ter a emissora funcionando. Quero dizer que a Rádio Universidade é um orgão híbrido, que cumpre uma função entre a UEL e a sociedade. E o boletim ''Notícias'' não dialoga com a sociedade.
Qual o eixo principal de uma rádio educativa universitária pública, como é o caso da emissora da UEL?
Provocar uma ação pensante. Uma rádio educativa universitária pressupõe que tenhamos pessoas pensando e agindo em relação ao fazer radiofônico. Essa ação exige comprometimento com os princípios de uma universidade. No Brasil há 327 rádios educativas, das quais 47 são enquadradas como rádios educativas universitárias públicas ou privadas. E de acordo com a Anatel há 15 mil rádios comunitárias.
Há alguma rádio no Brasil que possa servir de referência dentro desse enquadramento de Rádio Educativa Universitária Pública?
No ano passado tive a oportunidade de ser convidada pelo Itaú Cultural, através do projeto Rumos, para participar de discussões sobre comunicação e música em dez capitais. Nessas andanças eu pude perceber que as pessoas não pensam a função desse tipo de emissora. Existe um aprisionamento em relação ao modelo de rádio comercial.
Mas não há uma que sirva de referência, de exemplo?
Eu não conheço, mas isso não significa que eu esteja afirmando que não exista. As pessoas sempre nos procuraram em Londrina...Eu recebo cartas, telefonemas, e-mails pedindo consultoria, assessoria em relação às nossas idéias. Eu transito entre Rádio Educativa Universitária Pública, rádio comunitária e rádio arte.
Em que patamar a emissora da UEL está dentro desse conceito de Rádio Educativa Universitária Pública?
A Rádio Universidade estava caminhando para a construção de uma referência eu não acredito em padrão, em modelo do que talvez venha a ser uma Rádio Educativa Universitária. Eu estou questionando o que é rádio? É o rádio enquanto transmissor/receptor, mas também é o rádio enquanto linguagem, enquanto discurso, enquanto conteúdo. E é por meio deste conteúdo que eu vou realmente acreditar que posso levar as pessoas aos ouvidos pensantes.
Há colaboradores da emissora protestando indiretamente à sua saída, mas diretamente à essa vinculação da rádio à Coordenadoria de Comunicação Social da UEL. O que você tem a dizer?
É muito cedo para afirmar que a maior parte dos colaboradores vai sair. No entanto, eu penso que essa decisão deva ser individual. Dos 30 colaboradores, 21 não pertencem ao quadro de funcionários da UEL. Então, ao meu ver, compreender essas mudanças administrativas não vai ser tão simples assim. Tenho amigos, colegas, pessoas que sequer conhecia muito bem e todos encaminharam projetos para a rádio. Alguns foram aceitos, outros não em função de um projeto em que se queria difundir a diversidade, a pluralidade do ponto de vista da música. Música pra mim é informação.
E você não volta ao ar com seu programa ''Música Nova'', já que tem alguma coisa a acrescentar, por ser uma proposta inovadora que deu certo?
Nesse momento eu suspendi o ''Música Nova'' porque perdi o prazer de produzi-lo. Eu entendo que se instalou nessa crise uma situação de desconforto. Nada é definitivo na minha vida. Nada! Portanto, não estou dizendo que definitivamente o Música Nova não voltará. Por outro lado, é um programa que ficou 13 anos no ar, no gênero é o mais antigo do Brasil porque nenhuma outra rádio manteve um programa de música contemporânea por tanto tempo. Nesse momento posso dizer que estou com outros projetos.
Quais são esses projetos?
Há quase dez anos estou envolvida com rádios comunitárias e eu pretendo dar encaminhamento com muito mais intensidade, com mais garra a esse trabalho com as rádios comunitárias não só de Londrina como da região. Tenho convites para desenvolver projetos de rádio no Rio de Janeiro, São Paulo, Alemanha e França e que agora terei a possibilidade de fazer isso com maior empenho. Meu livro ''Demetrio Stratos - em busca da voz-música'' está sendo traduzido para o espanhol e francês e estou acompanhando as traduções que devem ser lançadas no ano que vem em Paris e na Cidade do México. Além disso, vou dar início a um outro livro sobre idéias radiofônicas.
Mais alguma coisa?
Estou livre para fazer rádio livre.

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