ENTREVISTA - Doce balanço a caminho do mar
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sexta-feira, 24 de dezembro de 2004
André Bernardo<br> TV Press 
Maria Fernanda Cândido está se sentindo a mais carioca das paranaenses. Desde que se mudou para o Rio em 1999, quando interpretou a sensual Paola em ''Terra Nostra'', a londrinense nunca pôde aproveitar o verão carioca como gostaria. Por conta das personagens de época que fazia, era sempre aconselhada pelos diretores a não ir à praia ou pegar sol. Hoje, graças à exuberante Lavínia, de ''Como Uma Onda'', ela virou quase uma ''rata de praia''. ''Sempre que posso, dou um mergulho no mar antes de ir para o Projac. Se eu chegar ao estúdio com o cabelo cheirando a sal, não tem problema. Faz parte da caracterização da personagem'', diverte-se.
De fato, a pescadora Lavínia, de ''Como Uma Onda'', é a primeira personagem contemporânea numa galeria marcada por tipos de época, como a cantora Isa Galvão, de ''Aquarela do Brasil'', ou a operária Nina, de ''Esperança''. Mas essa não é a única novidade. Pela primeira vez também, a atriz atua numa novela das seis, interpreta a mãe de uma adolescente e estréia como protagonista de uma novela da Globo. Antes, ela só havia protagonizado a minissérie ''Aquarela do Brasil'', em 2001. ''Protagonizar novela é trabalho para poucos. É difícil porque o volume de trabalho é muito grande e quase não sobra tempo para mais nada'', pondera.
Mas, aos poucos, ela acredita estar provando que beleza e talento são virtudes compatíveis entre si. Não por acaso, a modelo que já ganhou o título de ''Musa do Século'', do ''Fantástico'', fala com orgulho do Kikito que levou por sua atuação no filme ''Dom'', de Moacyr Góes. ''Graças a Deus, sempre tive os dois pés no chão. Fico feliz com esses prêmios, mas não deixo que eles subam à cabeça e ganhem uma proporção maior do que, na verdade, eles são'', garante.
Lavínia é a primeira personagem contemporânea de sua carreira. Você já andava cansada de só fazer trabalhos de época?
Bem, cansada não é exatamente a palavra, mas eu confesso que tinha vontade de variar um pouco. Mudar de ares. Já me perguntaram até por que eu só fazia trabalhos de época e eu nunca soube o que responder. Mas, sem dúvida, novela contemporânea é muito mais fácil de fazer do que novela de época. Desde a postura até o vocabulário. Nem se compara... Quando você faz uma novela de época, por exemplo, não pode ir à praia, ficar bronzeada, essas coisas. Para piorar a situação, meus trabalhos coincidiam sempre com o verão. Ou seja, fazia o maior calorzão no Rio e eu não podia aproveitar...
Além do fato de ser a primeira personagem contemporânea de sua carreira, a Lavínia é também mãe de uma adolescente. O que você achou disso?
Achei ótimo! A Lavínia é o tipo de personagem que sofreu muito no passado. Ela teve uma filha aos 14 anos, mas logo foi abandonada pelo marido. Nem por isso ficou uma pessoa amarga. Muito pelo contrário. Ela tem uma enorme alegria de viver e um ótimo senso de humor. Um tipo bem diferente daquele que o público está acostumado a me ver fazer na televisão. Já a Júlia é uma adolescente que vai passar por uma série de questionamentos e a Lavínia vai tentar ajudá-la ao máximo. A cumplicidade entre as duas é enorme. É uma experiência totalmente nova para mim...
Pela primeira vez também, você protagoniza uma novela na Globo. Qual é a dor e a delícia de ser protagonista de novela?
Olha, é muito gostoso protagonizar um projeto. Principalmente quando ele é bacana como esse. Como você mesmo disse, a Lavínia é a minha primeira personagem contemporânea, é mãe de uma adolescente, estou atuando na minha primeira novela das seis e assim por diante. Ou seja, é uma novidade atrás da outra. Desde que li a sinopse, já fiquei encantada. Por isso, aceitei na hora. É uma delícia? É. Mas é uma grande responsabilidade também. Afinal, você está ali à frente do grupo, encabeçando o elenco. Protagonizar novela é trabalho para poucos. Tem gente que diz que fazer televisão é fácil, mas eu não concordo. É um trabalho realmente difícil, porque temos um volume de cenas muito grande e quase não sobra tempo para mais nada. Mas, dificuldades à parte, garanto que ser a protagonista é mais delicioso do que doloroso...
A Ana Paula Arósio, com quem você já trabalhou em ''Terra Nostra'' e ''Esperança'', costuma dizer que atrizes bonitas têm trabalho dobrado para provar seu talento. Você concorda com ela?
Concordo, sim. Mas a dificuldade que as pessoas têm de conciliar beleza e talento não é de hoje. As pessoas não aceitam que beleza e talento sejam virtudes que possam coexistir pacificamente. Oscar Wilde, em ''O Retrato de Dorian Gray'', já dizia que beleza não combina com inteligência. Imagina... O que não dá é para esse tipo de cobrança interferir no meu trabalho. Procuro desenvolver o meu trabalho, ser uma profissional aplicada e seguir a minha vida, independentemente desses ou de outros ''pré-conceitos''...
Você ficou surpresa ao ser premiada no último Festival de Brasília por sua atuação no filme ''Dom''? O que aquele Kikito representou para você?
Eu confesso que foi uma surpresa mesmo. Sinceramente, eu não esperava ganhar. Principalmente por ser a minha estréia no cinema. Mas eu gosto do filme. Acho que ele estabelece um bom canal de comunicação com o público porque aborda temas como amor, paixão, amizade e ciúmes. Quanto ao prêmio em si, ele não representa qualquer mudança na minha carreira. Vou continuar conduzindo a minha carreira do jeito que eu sempre conduzi. O Kikito que eu ganhei pode fazer diferença para os outros. Para mim, não.


