ENTREVISTA - De bem com o tempo
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de janeiro de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O músico Alceu Valença atende ao telefone e pergunta, sussurrando, quem o procura. Ele concordou em dar entrevista à Folha 2, desde que o tempo fosse cronometrado e desde que a reportagem ligasse na hora certa. Pois é o tempo que dá nome ao seu 26º disco solo, o ótimo ''Na embolada do tempo'' (leia texto nesta página) e norteia os trabalhos paralelos do músico atualmente. Antes de se dedicar a uma concorrida agenda de shows do lançamento do CD, Valença prepara fôlego para a intensa programação do Carnaval de Recife e ainda encontra tempo para finalizar a produção do roteiro do longa ''Cordel Virtual''. O filme, já aprovado pela Lei de Audiovisual, deve ser rodado ainda este ano. Além do roteiro, o músico vai assinar a direção (em parceria com o diretor de fotografia Walter Carvalho) e interpretar pelo menos três personagens.
Sobre como faz para conciliar tantas atribuições, o músico canta um trecho da faixa de abertura do seu novo disco: ''O tempo em si, não tem fim não tem começo. Mesmo pensado ao avesso não se pode mensurar''. O cantor e compositor revela que já faz algum tempo que essa questão filosófica do tempo o persegue. Tanto que para fazer o disco, escolheu músicas novas e antigas (todas inéditas), que tinham relação com o tema.
São músicas escritas desde 1970, como ''Noite Vazia'', que ficou de fora de um disco com Geraldo Azevedo, até composições atuais. ''Dona de 7 colinas'', por exemplo, foi composta no estúdio, durante a gravação do disco. Mais fresquinha, impossível. ''Mas o critério de escolha foi pontuado pelo calendário'', conta. Valença tem uma teoria. ''Aliás, não sei se fui eu ou o Gilberto Freyre quem disse primeiro, mas o caso é que vivemos num tempo tríplice, só estamos no presente porque vivemos o passado e só vivemos o presente porque fazemos planos para o futuro'', filosofa.
E os planos para o futuro imediato de Valença é concluir o longa ''Cordel Virtual'', que também tem relação direta com o tempo. O roteiro vem sendo escrito há cinco anos. A história é contada (e cantada) toda em cordel e brinca com duas realidades. Um músico em turnê, que guarda seu novo trabalho um espetáculo a sete chaves com medo da pirataria, encontra a montagem sendo encenada dentro de um pequeno circo de uma cidade que visita.
O roteiro do filme, uma história dentro de uma história, foi escrito em versos, todos na ponta da língua do músico e faz um passeio de 1936 até os dias atuais. Mescla mitos populares, como Lampião e Maria Bonita, aspectos religiosos e outros modernos, como a internet, um dos motes do roteiro. O músico ainda não definiu nenhum ator para interpretar os personagens principais do longa, que deve ter orçamento de R$ 6,5 milhões,
O disco ''Na embolada do tempo'' já é uma prévia da trilha sonora do filme. Três músicas que integram o CD (''Embolada do Tempo'', ''Calendário Vazio'' e ''Samba do Tempo'') vão estar na trilha. As outras músicas também serão assinadas por Valença. Esta não é a primeira incursão do músico no cinema, embora seja sua estréia como roteirista e diretor. Em 1974, o cantor e cineasta Sérgio Ricardo o convidou para interpretar o papel principal do filme ''A Noite do Espantalho'', filmado em Nova Jerusalém, em Pernambuco.
Cantor, compositor e advogado, Alceu de Paiva Valença nasceu em 1º de julho de 1946, em São Bento do Una, nos limites do sertão com o agreste pernambucano. Em 35 anos de carreira, sempre buscou equilíbrio estético entre as bases musicais nordestinas com o universo dos sons elétricos. E para isso, tem uma justificativa: ''Nós brasileiros estamos esquecendo as nossas raízes. Estamos sendo massacrados por uma estética colonialista e nos acostumando a não criar nada dentro da nossa própria cultura'', diz.
Valença ressalta que quando usa intrumentos ou batidas modernas, o faz para complementar a sua prórpia linguagem. ''Essa é a minha marca. Nunca me vendi. Meu trabalho é entre mim e minha obra'', conclui. E lá se vão mais de 30 minutos de entrevista. Mas o tempo, no ritmo de Valença, não acaba nunca.


