ENTREVISTA - Cultura quer ampliar sua rede
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quinta-feira, 06 de janeiro de 2005
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Promessas, promessas não há. Mas ao contrário do ano passado, os proponentes dos projetos aprovados em 2005 pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura não precisam, por enquanto, se preocupar com cortes ou atrasos no repasse de recursos. ''A perspectiva é de normalidade'', diz o recém-empossado secretário municipal de Cultura, Luciano Bitencourt. Garantia mesmo apenas a de que o tão elogiado programa de política cultural pode passar por possíveis aperfeiçoamentos durante sua gestão, mas sem mudanças estruturais bruscas.
Algumas novidades em termos de empreendimentos comunitários em breve poderão ser vislumbradas. Uma delas é a implantação da Rede da Alegria, um programa de animação cultural a ser desenvolvido em vários pontos da cidade. A formatação vai depender de discussões, planejamentos e, principalmente, do fluxo de recursos. Outro ponto inédito, e sem previsão de início, é a elaboração de uma lei de patrimônio histórico que, dependendo da aprovação da Câmara de Vereadores, concederia ao Município prerrogativas de tombamentos de prédios e edificações da cidade.
O Teatro Municipal, de acordo com o novo secretário, também sairá do papel. Quando? Bem, o tempo vai dizer. ''É um compromisso do prefeito Nedson'', avisa ele. Aos 37 anos, o jornalista Luciano Bitenrcourt é formado em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina e atuou como editor do jornal Paraná Shinbum. Foi também assessor de imprensa do então deputado federal Nedson Micheleti, hoje prefeito de Londrina. Em cargo público ocupou o posto de Coordenador do Núcleo de Comunicação da Prefeitura entre 2003 e 2004 e implementou e coordenou, entre 2001 e 2003, a Rede da Cidadania. Na área artística, foi durante seis anos e ator e produtor do grupo de teatro Boca de Baco. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida à Folha2.
Na primeira reunião com o secretariado, anteontem, houve alguma recomendação ou determinação do prefeito Nedson Micheleti para essa gestão?
A principal determinação é de que será um ano de forte rigor e controle nos gastos públicos.
Você participou diretamente da gestão anterior da Secretaria da Cultura. Podemos dizer que a linha condutora será a mesma ou haverá alguma novidade?
É um trabalho de continuidade como um valor positivo, uma coisa inclusive desejada pela comunidade cultural e pela sociedade em geral. Mas com avanços, com novidades.
Por exemplo?
Eu tenho colocado e vou debater com o Conselho de Cultura que essa gestão terá alguns eixos. O primeiro é consolidar e fazer avançar as conquistas que tivemos no primeiro mandato: Promic, Rede da Cidadania e outras políticas que fizemos. Em decorrência do crescimento da participação da sociedade como um todo na produção cultural, algumas demandas da cidade de cara começaram a despontar, algumas históricas e que formam outro eixo: o de investimento na infra-estrutura da cultura. Aí entram projetos que começamos a fazer, mas nos quais precisamos avançar. Estes projetos vão da construção do Teatro Municipal à criação do Centro Cultural da Região Sul, que é um projeto que consta no programa de governo do prefeito Nedson.
Há datas para isso sair do papel?
Estabelecer uma data para algumas obras de infra-estrutura como o Teatro Municipal é uma temeridade. A gente trabalha com a perspectiva de iniciar o mais rápido possível e dar continuidade na obra. É uma temeridade porque depende da liberação de recursos.
Mas secretário...
Um momento, só para concluir o raciocínio. Outra proposta prevista no programa de governo do prefeito Nedson são as Vilas Culturais.
Vilas Culturais?
Um exemplo são as ocupações de barracões nos bairros tradicionais da cidade como espaços para desenvolvimento de atividades artísticas e culturais. Trata-se também da valorização desses espaços dos bairros. O outro eixo é a implementação do programa Rede da Alegria, que é um desdobramento da Rede da Cidadania e que seria a animação cultural em espaços da cidade com objetivo de propiciar lazer de qualidade.
Que tipos de lazer?
Baseado na arte principalmente.
E até que ponto isso não se chocaria com as atividades da Rede da Cidadania?
A Rede da Cidadania terá um foco, principalmente articulado com as políticas de inclusão social.
Só pra aproveitar a brecha. A Rede da Cidadania vai continuar trabalhando com essa questão de inclusão social ou terá também um outro enfoque?
O enfoque de inclusão social será mantido porque foi bem-sucedido.
Ok, então vamos voltar à questão da Rede da Alegria..
A Rede da Alegria seria um programa mais focado na animação cultural.
Eventos?
Eventos, eventos sim. É o chamado lazer de qualidade que as manifestações artísticas podem propiciar com muita propriedade.
Isso em todo os pontos da cidade? E deve começar quando?
Em todos os pontos e deve começar o mais breve possível. Depende do fluxo de recursos e planejamentos. Há outros eixos de trabalho e isso não tem prazo para começar porque depende da Câmara dos Vereadores como é o caso da Lei do Patrimônio Histórico que vai conceder ao municipío algumas prerrogativas como, por exemplo, o tombamento de prédios e edificações históricas.
Gosto de exemplos. Algum em vista?
Esse prédio da Secretaria da Cultura ainda não é tombado. Temos, por exemplo, o prédio do Colégio Mãe de Deus que é histórico e precisa ser preservado e assim várias outras edificações.
O Programa Municipal de Incentivo à Cultura - Promic - foi saudado como um modelo de política cultural que continua dando certo. O impasse que se deu foram os atrasos, no ano passado, nos repasses a alguns proponentes de projetos...Como fica essa questão daqui para a frente?
Isso foi zerado no final do ano. Não falta mais ninguém para receber.
Quais garantias os proponentes de projetos aprovados terão este ano de que não vai haver atraso nos repasses ou mesmo cortes nos valores?
Nesse ano a perspectiva é de normalidade. O que tivemos no ano passado? Foi investida uma soma de recursos bem maior que a do primeiro ano. Os cortes aconteceram, mas houve investimento de R$ 2,9 milhões em projetos culturais independentes e estratégicos. No ano passado tivemos duas situações atípicas. A primeira foi a diminuição inesperada de repasse de fundos federais ao município. O segundo foi o fator eleitoral. Havia um candidato adversário que alimentou a idéia de que se chegasse ao governo as pessoas não precisariam pagar imposto. E muitas pessoas, infelizmente, acreditaram nisso e atrasaram os pagamentos e houve queda de arrecadação. Com isso toda a gestão foi afetada.
O setor teatral está consolidado na cidade. O cinema é um movimento que começa a se organizar. A Secretaria da Cultura tem algum plano para fomentar esse área, seguindo as diretrizes nacionais que dão atenção maior ao audiovisual?
O segmento em Londrina se organizou numa Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). A Secretaria de Cultura é parceira desse projeto. As pessoas já estão discutindo coletivamente a soma de esforços para direcionar toda ação desse segmento num projeto só. Com isso, eles ganham em capacidade de conquistar recursos porque estão articulados, juntos. Nós da secretaria oferecemos mecanismos e estimulamos as pessoas a estarem se organizando e apresentando projetos. Mas temos que ter uma avaliação do que é o cinema numa cidade como Londrina.
E o que é, então?
Trata-se de uma produção cultural que deve buscar as características de um cinema a ser feito em Londrina. E um cinema que pode ser feito em Londrina não é o mesmo necessariamente que é feito nos grandes centros. Nós somos um centro médio.
Você está falando em termos de estrutura ou de linguagem?
De estrutura e de linguagem, por que não? Não estou querendo aqui bancar o professor dessa área, mas é uma opinião como secretário. Nós somos uma cidade onde o recurso para essa área, embora haja uma efervescência, é menor.
A construção do Teatro Municipal é uma questão de honra da atual administração depois de toda a disputa em torno do terreno do Colossinho. Como secretário você pretende ser um ''cobrador'' desse projeto ou vai ficar esperando o Executivo dar o start?
Eu vou ser um executor das determinações do prefeito sobre essa questão. O Teatro Municipal não é uma obra que fica circunscrita à área cultural.
Sai do papel mesmo?
Sai, é um compromisso do prefeito. Agora, sai dentro da perspectiva de uma obra de envergadura. Para construir o Teatro Municipal é preciso construir condições como aporte de recursos, conseguir recursos em várias instâncias... Para mim o teatro não é apenas um equipamento cultural, é uma obra urbana que vai interferir na infra-estrutura da cidade e vai valorizar o centro. Para estar neste local, por exemplo, vai ter que haver modernização e adequações viárias. E a obra tem uma dimensão econômica pois vai estimular determinados tipos de atividades no seu entorno. Isso, por si só, vai gerar empregos, rendas.
Secretário, você me desculpe falar, mas esse discurso muitos fizeram em outras gestões, independente de partido, e o teatro não saiu...
Só o prefeito Nedson assumiu o teatro. É um compromisso. Não adianta falar em datas. Nossa primeira etapa é fazer o projeto arquitetônico que tem sua complexidade e é uma obra que precisa ter uma discussão com a comunidade em geral. Assim acontece, por exemplo, quando se faz um conjunto habitacional numa determinada região da cidade, é preciso todo um tempo, fazer o projeto, ir atrás de recursos. Ou seja, não é uma obra simples que é construída só com recursos do município. Aliás, teatro municipal nenhum é feito assim.


