ENTREVISTA - Coisas de mulherzinha
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de março de 2008
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
''Quando estive no Japão no ano passado, trouxe comigo uma lembrancinha um tanto insólita: um metro de papel higiênico com pequenas historinhas impressas em japonês. São nove quadrados brancos com letras e ilustrações em azul. Estava no banheiro de um restaurante e não resisti ver aquilo. Havia desenhos de cachorros e gatos com pequenos trechos contando alguma coisa. Bem, podia até ser publicidade de ração animal, mas achei inusitado''. O olhar atento a pequenos detalhes do cotidiano, como este publicado acima, serviu para o exercício de cronista e de uma nova escritora.
Na realidade o ofício é novo, mas seu nome já é conhecido no cenário musical pop-rock. ''Nunca Subestime uma Mulherzinha'' (Panda Books) é o primeiro livro de Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, cujo conteúdo revela contos e crônicas que foram publicados nos jornais ''Estado de Minas'' e ''Correio Braziliense''. O lançamento do livro se deu em paralelo ao bem-sucedido CD ''Onde Brilhem Os Olhos Seus'' que revela belas releituras de músicas interpretadas por Nara Leão.
Antiga colaboradora de diversas publicações como Playboy, Pais e Filhos, Revista Jovem Pan, portais de educação e, recentemente, até para a Globo Rural, Fernanda escreve sob uma ótica feminina cercada de bom humor e ótimas sacadas na hora de contar sobre ''coisas que talvez tenham acontecido'', ''coisas que aconteceram'', ''coisas que fazem barulho'', ''coisas que ninguém sabia'', ''coisas que são raras'' e ''coisas que nem sei''.
Se você também não sabia que Fernanda Takai é escritora, que não é mineira (ela nasceu na Serra do Navio - AP), que é formada em Relações Públicas e que o episódio do papel higiênico foi o ponta-pé inicial para estudar japonês, é bom não subestimar uma certa mulherzinha e ler seus textos que mais soam como deliciosas conversas em fim de tarde. A seguir, os principais trechos da entrevista que a artista concedeu à FOLHA2.
No livro ''Vozes do Brasil2'', lançado pela jornalista Patrícia Palumbo, você comentou a respeito da dificuldade que tinha em usar saias no começo do Pato Fu e a tentativa de fugir do rótulo de ''mulherzinha'' da banda. O título do seu livro seria uma referência à ''mulherzinha'' que cresceu, apareceu e perdeu o medo de assumir seu potencial?
Acho que eu mesma me surpreendi com a quantidade de coisas que eu descobri que poderia fazer depois de ter sido mãe e continuar com a carreira. Antes eu pensava que as coisas tinham que ser mais estanques. Ou carreira ou a casa. E até mesmo não me dava conta da habilidade que temos que ter pra gerenciar uma família e um lar, cuidar de uma vida em formação e ainda viajar muito a trabalho, começar uma nova atividade que é a escrita. Então hoje eu valorizo ainda mais todas as mulherzinhas que fazem as tarefas consideradas mais cotidianas e as todas que correm pra lá e pra cá em jornadas triplas de trabalho. Claro, eu me incluo nesse grupo que se divide em tantas, tentando conseguir satisfação nesses universos todos.
Na mesma ocasião, você disse não ser uma boa letrista na hora de compor. Por outro lado, você revelou destreza ao colaborar com crônicas e contos em dois grandes jornais, o que lhe rendeu material suficiente para organizar um livro. É mais confortável trabalhar em prosa do que em versos?
Talvez eu tenha em casa um dos melhores letristas que eu conheço e isso me deixa um pouco acomodada. Sei que o John compõe de uma forma menos óbvia do que eu. A minha produção musical é lenta, faço poucas canções a cada ano... Quando comecei a escrever para os jornais tive que manter a disciplina de mandar um texto inédito toda quinta pela manhã aos editores. Passei a anotar alguns pensamentos sobre determinados assuntos num caderninho, temas pra desenvolver ao longo do tempo.
O prefácio foi assinado pela cantora e compositora Zélia Duncan. Imagino que haja uma afinidade de longa data entre vocês...
Eu e Zélia temos nos encontrado com frequência ao longo de nossas carreiras. Gosto muito dela como artista e como amiga mesmo. Ela é uma mulher muito inteligente, ótima anfitriã e tem uma percepção muito apurada do mundo e das pessoas que a cercam. Eu queria que os textos de apresentação do livro viessem de gente da música e da literatura, como foi o caso da orelha escrita pela autora pop Stella Florence. O nome da Zélia me veio de imediato porque sei que além dessa admiração mútua que temos, ela é craque nas letras!
Quais autores valem a pena ser relidos em sua opinião? E quais você lê atualmente?
Eu sempre releio crônicas da Clarice Lispector, acho que ela é uma autora que nos alimenta em qualquer fase da vida. Leio de tudo mesmo. Gosto do (José) Saramago porque ele tem idéias muito originais que são desenvolvidas daquele jeito peculiar dele. Mas leio também Stephen King, biografias de artistas que gosto. Acho que sou uma leitora mais pop de livros como os do Milton Hatoum, Nick Hornby, Marcelo Rubens Paiva, Oliver Sacks, coletâneas de crônicas e contos diversos de Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo... Não leio tanto quanto alguns amigos que devoram rapidamente e estão em dia com tudo o que sai todo mês... mas tenho sempre um livro por perto nas viagens e em casa.
SERVIÇO:
- Livro ''Nunca Subestime uma Mulherzinha'' (Panda Books)
Autor - Fernanda Takai
Editora - Panda Books
Quanto - R$ 25,00
Mais informações- Site www.fernandatakai.com.br


