''O pobrema é todo por carsa das mina, tá ligado?''. A frase é uma pérola recorrente do personagem de Reynaldo Gianecchini em ''Belíssima'', o borracheiro Pascoal. Mais associado a galãs dramáticos como o Edu, de ''Laços de Família'', ou o Toni, de ''Esperança'', o ator confessa que não é fácil se livrar do estereótipo. A tal ponto que Gianecchini adiou mais uma vez os planos de voltar a atuar no teatro, tão logo recebeu a confirmação do próprio Silvio de Abreu, autor da novela, de que faria um personagem cômico na trama. ''Minha perspectiva mudou totalmente. Eu fiquei muito entusiasmado para fazer o Pascoal, um personagem que está me fazendo aprender muito'', revela.

Onde você buscou inspiração para fazer o Pascoal?
Busquei muitas referências. No interior de São Paulo, em relação ao sotaque, por exemplo, me inspirei nas ruas, ouvindo motoboys, pessoas conversando no ônibus ou nas ruas. Também vi alguns filmes. Uma referência que eu quis trazer para o personagem foi o trabalho de Vittorio Gassman em ''O Incrível Exército de Brancaleone'', que é incrível. Eu queria aquela soltura, de um personagem que se atrapalha com tudo mas que vai fazendo as coisas, não pensa, é mais instintivo. Também conversei com alguns mecânicos para saber como é o universo de uma borracharia, quais são os sonhos deles, como é viver ali. Foi muito interessante. A mulher é sempre um assunto muito recorrente. E o tesão pelo carro, que todos têm. É realmente uma atividade que dá muito prazer para eles.

Quanto tempo você teve para preparar o personagem?
Cerca de dois meses. O convite surgiu em março, quando eu estava em Los Angeles e o Silvio me chamou. Na verdade, estava previsto de eu fazer a novela há bastante tempo, mas seria apenas uma participação, no papel de Pedro, que ficou com o Henri Castelli. Depois o Silvio disse que queria que eu fizesse um personagem inteiro, me propôs o Pascoal e eu adorei. Achei muita ousadia do Silvio, mas fiquei muito feliz que ele tivesse acreditado em mim para fazer um personagem como esse. É um personagem de um risco enorme para um ator. Ainda mais eu, que sempre fiz muito galã e as pessoas tendem a estereotipar. E o Pascoal é um anti-galã.

É um personagem muito diferente de tudo o que você já fez...
Eu sempre fiz o mocinho e o ator nunca pode trazer muitos elementos para o mocinho, tem que ser uma interpretação simples. Qualquer coisa que você coloque a mais fica ''over''. Com esse personagem é o contrário. Se eu fizesse ele simples, uma interpretação básica, ficaria muito pouco. É um personagem que exige um tom a mais de interpretação. Isso é novo para mim, mas me estimula a brincar com a criatividade, testar um monte de coisas, arriscar. Nunca tive um personagem para o qual eu pudesse trazer muitos elementos, pudesse brincar, fazer piadas. Isso é uma coisa que nunca tinha experimentado: me divertir em cena. Sempre fiz personagem sofredor. E para o ator, buscar aquele sofrimento é também um sofrimento. Já na comédia, para o público se divertir, você tem que se divertir primeiro.

Você acha que a beleza abre portas?
É inegável que a beleza abre portas, no sentido em que todo mundo aprecia o belo. Mas o belo é muito relativo. A beleza está muito no jeito com que você se comporta na sua relação com a vida, de como você mostra quem você é. Fisicamente, alguns traços podem tornar uma pessoa bonita. Acho que beleza é o que faz você ser diferente, o que te ressalta, o que faz você ser alguém que as pessoas identifiquem como única, algo que dê uma personalidade. Mas a beleza que mais me atrai é relacionada ao comportamento, ao jeito de ser, com a elegância de ser. Acho muito mais interessante do que aquela beleza clássica, óbvia.

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