ReproduçãoDorival Caymmi: Para ser feliz você tem que condensar uma porção de coisas e eliminar da mente os pensamentos marronsEntrevistaCaymmi em prosa
Em entrevista exclusiva à Folha 2, Dorival Caymmi mostra a sabedoria dos seus 85 anos e fala da biografia que sua neta Stella está concluindo
Antônio Mariano Júnior
Vamos chamar o vento! Vamos chamá-lo para que se encarregue de levar a informação a quem possa interessar de que a vida e obra de Dorival Caymmi está sendo dissecada para dar forma a uma biografia, a ser lançada no próximo ano, pela Editora 34. Trata-se de ‘‘O Tempo e o Mar’’ que está sendo escrita pela jornalista Stella Teresa Caymmi, neta do mestre baiano, e cujo lançamento acontece no próximo ano, sem data definida, dentro do projeto ‘‘Coleção Todos os Cantos’’.
Há muito o que se contar sobre Dorival Caymmi. Há muito o que se saber sobre Caymmi que aos 85 anos, completados no dia 30 de abril, tornou-se um mito da música popular brasileira. Mais que um mito, um estilista. Mais que um estilista, um mestre em todos os sentidos. Que, em 60 anos de carreira, compôs pouco mais de 100 músicas, uma quantidade razoavelmente pequena - se comparada a outros monstros sagrados - mas de qualidade incontestável. A produção pode até ser pouca. Mas é toda bem-feita. É para sempre.
Muitos chegaram, fizeram, aconteceram e foram esquecidos. Caymmi chegou, fez, aconteceu e jamais será esquecido. Junte-se à sua incontestável obra, o seu caráter. Dorival é uma espécie de orixá vivo. Merece, portanto, reverências e mais reverências. ‘‘O Tempo e o Mar’’, a biografia, deve trazer à tona um pouco da história desse baiano querido, sua trajetória, sua discografia, suas músicas e seus parceiros. Deve vir com cheiro de mar. E com cheiro do mar da Bahia.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Dorival Caymmi concedeu, por telefone, à Folha2, em sua casa no Rio de Janeiro.
Sua neta está escrevendo sua biografia. É bom ser biografado, Dorival?
É sim. Eu não sou vaidoso e digo isso de peito aberto. Mas admito essas minhas lembranças pré-históricas para o futuro, para quem tiver interesse em saber o que houve. Eu admito uma biografia por esse lado.
Mas você tem muita história para contar porque é um mito. Aliás, você tem essa dimensão?
Olha eu me mantenho na mesma postura de 60 anos atrás quando comecei na atividade profissional. Eu só sei que sou muito ligado ao processo da diversão através do som, da música. Então não é por vaidade mas me aclimatei ao sistema, não é?
E você é uma unanimidade. E isso é bom, não?
Ah... Tem aquelas observações que uma geração vai passando para outra, lembrando que importância estou dando e que importância tive.
O fato de ser sua neta quem está escrevendo facilita? Você se sente mais à vontade para se abrir com ela? Aliás, como é que está sendo o processo para ela captar informações com você?
Ela baseou-se na minha vida particular e tomou gosto. E através do cassete ela me entrevista em qualquer momento, em situações boas. Enfim, toma nota do que interessa a ela em particular. Qualquer novidade eu acrescento. E assim passaram-se dois anos e agora o projeto está caminhando para o final.
É claro que são muitos. Mas você poderia citar um momento em sua carreira que foi importante ou um dos mais importantes?
Eu digo e repito: eu sou um homem feliz, graças a Deus. Sai de Salvador aos 24 anos incompletos, em 1938, no dia 1º de abril, e cheguei ao Rio de Janeiro no dia 4. Vim pelo mar. E vim com o propósito de completar meus estudos e seguir a carreira de advogado. Muito bem, fui sobrevivendo fazendo pontinhas em jornais.
É verdade, você foi jornalista...
Não era qualificado, mas aos poucos vim a ter uma carteira de jornalista. Bem, mas o que eu quero dizer é o seguinte: a data 1º de abril e meu primeiro contrato de cantor de rádio, que foi no dia 14 de novembro de 38 para estrear no dia seguinte, foram momentos marcantes. Saiu até foto nos jornais...Enfim, fiquei no nível dos profissionais. E com contrato assinado embora por três meses apenas e assim mesmo por influência de um grande radialista que tivemos, o Almirante. Você vê: em pouco tempo no Rio de Janeiro e eu estreava, no dia 24 de junho de 1938, dia de São João, na Rádio Tupi.
Nossa!!
Então... Eu era um profissional e recebia dois cachês de 30 mil réis por semana. Já era bom, cobria casa, comida, pensão. Já estava feliz. No fim deste mesmo ano participei de uma festa de dona Darcy Vargas que cuidava das crianças, dos pobres e oprimidos. Ela fazia festas com gente da sociedade para angariar fundos para as entidades sociais. Era uma peça de teatro e eu fui chamado para cantar uma música. Fui como participante e não como profissional. É que a moça que ia cantar minha música não acertava e a dona Darcy disse: ‘‘cante o senhor mesmo’’. Abriu-se um precedente, porque eram todos amadores. Veja bem: antes do fim deste ano eu já estava realizado como profissional na carreira em que estou até hoje. É pra ser feliz, não é? Eu vivo em estado de graça.
Quando começou você tinha noção de que poderia chegar onde chegou?
Não tinha a menor noção de que ultrapassaria fronteira. Eu tinha apenas idéia de que iria pertencer, no máximo, a esses quadros de música popular chamados na gíria da época do Rio de Janeiro de ‘‘músicos de meio de ano’’. Havia especialistas em Carnaval, que era muito melhor do que hoje, aliás, e músicos de meio de ano. Eram cantores e compositores que não faziam marchinhas nem samba de Carnaval.
Você compôs quantas músicas no total?
Cento e cinco, por aí.
Mas li um crítico maldoso dizendo que sua produção musical era muito pouca...
Eu sei, mas não é por aí. Quantidade não adianta nada, não é mesmo?
Gilberto Gil o descreveu como sendo um Buda Nagô? Você gostou?
Ah, eu gostei muito do título. É um misto de África, Bahia e Índia, ou seja, é aquele sorriso, aquela sabedoria...Eu tenho muito disso. Gilberto me retratou bem.
No Candomblé lhe foi designada uma função. Você a exerce até hoje?
Tenho uma função. Sou chamado de ‘‘irmão de esteira’’ de dois amigos, um é o Carybé, que já morreu, e Jorge Amado. Somos também três obás de Xangô ( NR espécie de ministro) no Candomblé do Axé Opô Afonjá. É o candomblé de mãe Estela, que já foi de mãe Senhora e que tem um passado muito bonito.
‘‘A Bahia tá Viva ainda Lᒒ, como diz sua música, Dorival?
(rindo) Ah, essa frase é minha e por isso digo eu, me desculpe o excesso de vaidade. A Bahia continua viva ainda lá, a Bahia está viva ainda lá, com a Graça de Deus, ainda lá.
A Bahia está viva, com certeza. Mas a atual música mudou, não?
Ah, sim! É uma música de caráter mais internacional e que tem uma geração nova que tomou gosto.
Você ouve?
Com gosto, não. Sinceramente não me toca, não me comove. Não me agita porque não tem um lado brasileiro de ser tocante.
Você agora vive em Minas Gerais? Está morando em Pequiri, é isso?
Não estou. É que eu tenho uma casa lá onde nasceu minha mulher. Mudamos de ares porque ela precisava fazer um tratamento de saúde. Passamos o ano passado todo por lá. Mas a minha base é aqui, no Rio de Janeiro.
A vida sempre foi muito boa pra você, né Dorival?
Ah, disso eu não tenho a menor queixa. Eu sou feliz, como disse nas perguntas iniciais que você me fez.
Existe uma fórmula para o homem ser feliz?
Não existe uma fórmula. Você tem que condensar uma porção de coisas e eliminar da mente, e de preferência na meditação noturna ou no amanhecer ou numa caminhada solitária, os pensamentos marrons. É preciso eliminar os pensamentos escuros; tem que ficar com a mente no azul, no verde claro, no branco, na paz. Tem que usar todos os sentidos para ver a beleza, sentir a beleza. Tem também que sentir a beleza pelo olfato e definir bem o que cheira mal e o que não cheira bem. É ir sempre para o lado da rosa.
A morte lhe assusta?
Não, não me assusta porque a morte é uma condição natural como o nascimento. A gente adquire o conhecimento de que vai morrer um dia. Nascer para mim é que continua sendo um mistério por mais que a ciência explique. Agora, sempre vai chegar aquele dia em que você sabe que está ruim mesmo, fecha os olhos e vai. E vai com plena consciência de que está indo.

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