Quando recebeu o convite para atuar em ''Da Cor do Pecado'', Aracy Balabanian deixou bem claro que só aceitaria fazer uma participação de poucos capítulos. O autor João Emanuel Carneiro imaginou, então, que a governanta Germana sairia de cena bem antes do final da trama. Mas a personagem cresceu e acabou conquistando o coração do patrão, Afonso, vivido por Lima Duarte. E também o da atriz, que continua lá, feliz da vida. ''Eles foram me ganhando aos poucos. Estava cansada de fazer novelas. Não tenho mais idade para isso'', brinca Aracy, rindo de si mesma. Depois de seis anos no humorístico ''Sai de Baixo'', gravado uma vez por semana, ela acha ainda mais difícil se adaptar ao ritmo frenético das novelas, que retomou em ''Sabor da Paixão'', de 2002. ''Não faço mais nada na vida'', exagera a atriz, que contabiliza mais de 30 novelas no currículo.
Além da trajetória da personagem que tem boa dose de responsabilidade sobre a transformação de Afonso num homem mais afetuoso , Aracy destaca o elenco como grande fonte de satisfação no trabalho. E não é só do veterano Lima Duarte que ela está falando. A atriz é só elogios aos atores-mirins Sérgio Malheiros e Felipe Latgé, que interpretam Raí e Otávio, com quem ela divide boa parte de suas cenas. ''Estamos ali brincando, de igual para igual. É o milagre da arte de representar: ninguém tem idade'', filosofa, com entusiasmo de iniciante.
O que fez com que a Germana conquistasse você a ponto de querer continuar na trama?
A personagem teve uma trajetória muito bonita, cresceu até se transformar numa autoridade naquela casa. E ela me exige coisas interessantes. Sou muito efusiva, ela requer contenção, é muito lúcida. E tem o dom de harmonizar as pessoas, conseguiu transformar o Afonso, que era um poço de desafeto, em uma pessoa afetiva. Agora, só falta a Bárbara... Brinco dizendo que ela é meio bruxa: tudo o que diz, acontece. É uma intuição que só as pessoas de sensibilidade conseguem desenvolver.
Em ''Sabor da Paixão'', Hermínia era disputada por dois personagens. Agora, Germana vive uma trama romântica. Depois de 40 anos de carreira, isso surpreende você?
Surpreende até no sentido de pensar como fazer. Eu e o Lima conversamos muito sobre isso. Não se aborda muito o romance na maturidade, é como se as pessoas não se amassem mais, não tivessem desejo, como se fosse vergonhoso. Acho que encontramos uma maneira delicada de mostrar o amor dos personagens, de mostrá-los no quarto em trajes íntimos... Tenho a impressão de que, à medida em que aumenta a expectativa de vida da população, os autores vão começar a falar mais nos idosos, o que é ótimo. Acho que, tendo saúde, os papéis virão.
O fato de trabalhar com um autor estreante em novelas e com atores jovens instiga você?
Adoro, porque não só eu tenho muita coisa para passar a eles como eles também têm muito a me ensinar. Até mesmo um vocabulário novo. Começo a ver que o meu ficou velho. E vejo como eles interpretam, como buscam a emoção. No fundo, a primeira coisa que pensei foi em ser professora. E acho que todo ator é um pouco isso, está sempre em contato com gente nova, aprendendo e ensinando coisas através da emoção.
Você sentiu falta das novelas nos seis anos que passou no ''Sai de Baixo''?
Novela é muito estafante. Com o tempo, foi ficando mais desgastante ainda, porque a produção se rebuscou muito. Eu e o Lima temos toda semana um catatau de texto para decorar. Há muito tempo não tinha tanto texto para decorar. E o Projac ficou muito longe, são duas viagens por dia. Acho que nós, que não somos mais jovens, deveríamos ser um pouco poupados. Mas, quando o processo de trabalho é bom, fica muito divertido.
Apesar do desgaste, o que torna um convite de novela irrecusável para você?
É sempre o tema. Acho que o sucesso desta novela, por exemplo, está no fato de ela falar do ser humano, das dificuldades e facilidades que temos para nos relacionar com outras pessoas. Acho que o povo precisa que se fale mais de relacionamentos humanos.

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