Quem vê Fernanda Montenegro em ''Belíssima'' percebe logo o porquê da atriz ser considerada uma das grandes estrelas da dramaturgia nacional. Aos 76 anos de idade e 43 de carreira na televisão, a intérprete da megera Bia Falcão não precisou de mais de um capítulo para roubar a cena no folhetim das oito da Globo. Prova disso é que, depois de ficar quatro meses fora da trama de Silvio de Abreu quando sua personagem foi dada como morta , a atriz foi resgatada pelo autor e novamente se destaca frente aos companheiros de cena.
Apesar do enorme reconhecimento de seu talento por parte de público e crítica, não é difícil notar um certo afastamento de Fernanda ao falar de Bia e de suas outras personagens em novelas. Na verdade, há tempos que a atriz mantém uma delicada relação com o ambiente televisivo. Meticulosa na composição de seus personagens, Fernanda não aprecia os rumos que a teledramaturgia moderna tomou.
Logo que recebeu o convite para fazer ''Belíssima'', você disse que tinha aceitado o papel porque não queria fazer uma novela inteira. Agora que a Bia Falcão está de volta, o que mudou?
Mudou porque é uma novela de grande audiência, uma trama que deu certo, um papel que deu certo... E, no meio do caminho, a história toda foi se desenrolando até que voltei para participar do final da novela. Além disso, tenho contrato com a emissora até julho. De qualquer forma, poderia não voltar também. Quer dizer, essa questão ficou no ar. Então, não enganei a imprensa, compreende? Dependeria de como a novela iria caminhar... É um elenco extraordinariamente nobre, capacitado, talentoso, um leque de atores fantásticos. E, nesse contexto, sou uma dessas tantas pessoas. Por isso, poderia voltar ou não voltar.
Essa decisão de ficar fora da trama durante esse tempo teve algum motivo especial?
Sim. Tenho uma vida fora da televisão. Eu também já não sou uma criança. Acho que chega uma hora que a estafa se apresenta. Nós sabemos do processo, da industrialização, entramos de acordo com isso e tocamos o bonde, compreende? Mas acho que o ideal seria uma novela durar de sete a oito meses, no máximo. É um ano de sua vida que, se você se aplica realmente, não se tem tempo para mais nada. Passa-se o dia gravando e decorando quando não se está no estúdio. Então, a sua vida particular acaba. No meu caso, não tenho tempo de ler um livro, de ir a um cinema ou ao teatro. É uma voltagem é violenta. E, hoje, os capítulos duram uma hora, em média. Lá nos velhos tempos, um capítulo tinha meia hora de escrita e mais uns dez, quinze minutos de anúncio. Hoje não. Você tem uma pesada carga, não só para representar como para decorar.
Não querer ficar um ano presa a uma novela também é consequência de outros compromissos profissionais, no cinema e no teatro?
Tenho uma agenda paralela também. Mas a essa altura da minha vida, é um esgotamento. E, quando me chamam para uma participação, para integrar um elenco, sei que nunca é um papel que vai entrar de vez em quando, que vai fazer uma fala aqui, outra ali. Quer dizer, sempre é uma pesada. Tem sempre uma viagem para o exterior e minha personagem entra participando mesmo do projeto. Nunca é leve, compreende? Nunca é apenas para cumprir um contrato.
A Bia Falcão é realmente uma vilã?
Isso só quem pode dizer é o Silvio. Quando a gente começa uma novela de um jeito, os dados são muito por alto. E, de acordo com o tempo, com os acontecimentos, com a intuição do autor e às vezes até pela opinião do público, a história vai tomando rumos até então inimagináveis. Dessa maneira, ficamos aqui aguardando os capítulos preparados para essas mudanças, muitas vezes fulminantes. No início me disseram que ela não era uma vilã, mas uma matriarca poderosa, dona de uma empresa gigante, prepotente, perfeccionista, exigente, chata... Enfim, até agora eu não sei se ela chega a estrangular alguém, de maneira que estou esperando qualquer coisa...
As pessoas ficam com medo de você nas ruas?
Que nada! Ninguém mais foge de bandida de novela. Hoje em dia o povo já sabe o que é novela, já sabe separar o ator da ficção, já sabe que tem um jogo ali. São muitos anos de teledramaturgia. Além disso, acho que as pestes das novelas da atualidade também são amadas. Não é um fenômeno somente da Bia Falcão. As cruéis que me antecederam foram muito bem. Acho que a maldade tem um certo encanto.

mockup