ENTREVISTA - Biotecnologia com responsabilidade
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sábado, 24 de julho de 2004
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Ele é o que se pode chamar de um homem antenado. Nem parece ser um frei franciscano que divide a missão religiosa com a função de diretor-presidente da Editora Vozes, há seis anos. Em 2002, Antônio Moser lançou ''O Enigma da Esfinge: a sexualidade'' em que, sem papas na língua, defende a sexualidade como algo natural da vida e que os religiosos também são sexuais, embora renunciem ao ''exercício genital''. Para o frei, por exemplo, os homossexuais são ''irmãozinhos e irmãzinhas diferentes afetivamente'' que merecem acolhida e compreensãos no meio religioso e na sociedade.
Em visita a Londrina, na semana passada, o frei, de 64 anos, veio divulgar seu 14º livro com um tema bastante atual. ''Biotecnologia e Bioética - Para onde Vamos?'', que deve ser lançado em setembro, amplia o leque de entendimento sobre os avanços na área da ciência que lida com a vida.
Frei Moser se diz fascinado com as descobertas científicas, mas ao mesmo tempo faz um alerta sobre o risco ''de o homem brincar de ser Deus''. ''Há uma indústria de biotecnologia que é formada por verdadeiros vendedores de ilusões'', comenta Moser. A solução, conforme seu raciocínio, estaria na formação de uma comissão mista de cientistas e teólogos para avaliar os projetos que envolvam a manipulação da vida. A seguir os principais trechos da entrevista que Antônio Moser concedeu à Folha2
Por que escrever sobre biotecnologia e bioética?
Nos últimos 15 anos, tivemos uma enxurrada de descobertas no campo da genética e durante o período entre 1990 a 2000 se concretizou o projeto Genoma Humano, que se propunha a ''ler'' o material genético e localizar os genes responsáveis por doenças. Achei importante também informar as pessoas que o Genoma é um dos três megaprojetos norte-americanos de dominação (os outros são o Manhattan, relacionado ao avanço nas pesquisas atômicas, que acabaram resultando na bomba-atômica; e o Apollo, que permitiu a viagem à lua e a dominação do espaço). Há grandes interesses econômicos e industriais nesses avanços da ciência, principalmente na agricultura, onde os transgênicos estão sendo dominados por três multinacionais, causando a dependência dos agricultores. Outra coisa incômoda é que prometem que vão acabar com a fome do mundo.
O senhor acha que isso não é possível?
Meu Deus! Há alimentos para todos. O problema não é a produção e sim a distribuição. Eu vejo com bons olhos as descobertas. Realmente isso é uma maravilha e mostra como Deus fez bem todas as coisas. O problema é a ideologia de quem manobra essa tecnologia. Ainda não temos experiências suficientes que justifiquem o consumo dos alimentos transgênicos. Não que eu seja contra a experiencia, sou contra a comercialização prematura.
É necessário aceitar a limitação humana?
Aceitar as limitações humanas é o princípio básico da sabedoria. Claro que vamos tentar melhorar, mas sabendo que um dia vamos morrer de deficiência múltipla de órgãos. A questão da criação não precisa ser uma rebelião contra Deus. Precisamos administrar com sabedoria todas as coisas, fazer um grande diálogo.
Quais riscos trazem tanta tecnologia?
O risco não é da tecnolgia e sim da ideologia que comanda. Tudo é padronizado. Todo mundo tem que ser Gisele Bunchen, a Juliana Paes...Ora, a originalidade, a biodiversidade é o que caracteriza a beleza humana. Eu vejo nas descobertas científicas coisas sensacionais. Apenas tenho medo da ideologia.
O senhor é contra a clonagem terapêutica?
Não, mas defendo que ela seja feita com células-tronco adultas, que podem ser retiradas do cordão umbilical, da medula, por exemplo. Não aprovo experiências com células-tronco de embriões, que serão descartados levianamente. A vida é um mistério que deve ser respeitado.
Por que a comunidade científica resiste ao uso de células-tronco adultas?
Dá mais trabalho, custa mais dinheiro. Há pressa porque a indústria quer produzir e comercializar órgãos. Nós já temos tráficos de órgãos, daqui a pouco os nosso cargueiros não vão mais transportar carne animal e sim fígado, rim e pulmão. A bolsa de Nova York vai acabar indicando o valor dos órgãos no mercado financeiro.
Até que ponto o homem está 'brincando' de ser Deus?
É louvável o uso do DNA na prevenção de doenças, mas critico a idéia de fazer as pessoas acreditarem na possibilidade, principalmente a curto prazo, da ''produção'' de órgãos e cura imediata de algumas doenças. Tudo agora é genético. Já até descobriram o gene que causa a infidelidade conjugal...
Ao seu ver como as pessoas de baixa renda vão ter acesso a esses avanços tecnológicos, sendo que muitas vezes não são beneficiadas nem com saneamento básico?
Temos dois bilhões de pessoas passando fome no mundo e ninguém fala sobre isso. Quantos deficientes físicos essa maldita invasão do Iraque causou no Afeganistão? Isso é uma contradição! O corpo humano não é um automóvel onde você substitui a peça estragada por outra peça e ele continua funcionando. É um mecanismo complexo. Não se leva em consideração os aspectos econômico, político, o saneamento básico nesse processo de pesquisas genéticas.
Como melhorar a condição humana?
Existem chances muito boas de melhorar a condição humana, mas depende de todos nós. Cada um tem um grande poder de mobilização. Não podemos deixar que uma pequena elite decida sobre o presente e o futuro da humanidade. Nós somos os donos de nossas vidas e temos que ir à luta.
O senhor já escreveu sobre vários assuntos. Como foi falar sobre sexualidade sendo um religioso?
Todos nós somos seres sexuados. Não é de sexo que estou falando; é de sexualidade. Nós, religiosos, não temos uma prática do exercício genital, mas temos uma vida sexual. Tenho amigos, amigas, sou carinhoso, recebo carinho, sorrio, choro. Isto tudo é sexualidade.
Qual a sua definição para bioética?
O ramo da ética que está preocupado não em frear as pesquisas, mas em dialogar com as ciências para não perder o rumo, não levar a desumanização, para que haja um crescimento que leve ao bem de todos.
Como fica Deus nesse contexto todo?
Eu acho que Deus guia a história humana e que a humanidade dá cabeçadas, mas no fundo acaba encontrando o caminho. Não sou negativista. Apenas acho que temos que trabalhar, ir à luta e não esperar de maneira fatalista que outros decidam por nós. Não quero deixar uma mensagem de medo, mas de certo alerta para não sermos ingênuos. A condição da humanidade só vai melhorar com muito esforço, com muito trabalho. Parafraseando o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, em 2000, no encerramento solene do projeto Genoma Humano, eu diria que ''estou admirado diante de tanta complexidade e de tanta beleza do código genético e que agora nós estamos começando a ler o livro da vida que o próprio Deus escreveu''.


